A tradicional Padaria Rio-Lisboa, no Leblon, vai virar prédio residencial?
Imóvel onde funciona confeitaria há 83 anos entra na mira do mercado imobiliário e já tem cinco interessados na disputa
A novela da especulação imobiliária em torno da venda do imóvel que abriga a Padaria Rio-Lisboa ganhou mais um capítulo. Pelo menos quatro construtoras e um empresário disputam os 280000 metros quadrados de área do estabelecimento, em funcionamento há mais de 80 anos no Leblon. O valor do imóvel, localizado na Avenida Ataulfo de Paiva, segue estimado em cerca de 30 milhões de reais.
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Pelo menos quatro incorporadoras — Itten, TGB Imóveis, SIG Engenharia e Mozak — manifestaram interesse em torno do imóvel, e ao menos três delas estudam erguer no local um residencial de pequeno porte, dentro das restrições urbanísticas do bairro.
E a concorrência ganhou um ingrediente extra: o empresário Luís Alberto Abrantes, dono do vizinho Talho Capixaba, também participa das negociações. Ele já detém uma fatia do imóvel e, por isso, tem preferência na compra das demais participações — o que o coloca em posição estratégica na disputa.
As conversas se arrastam há algumas semanas. O principal impasse é o valor pedido pelos proprietários da Rio-Lisboa. Avaliações independentes indicam que o terreno, sozinho, não alcançaria os 30 milhões de reais e que, mesmo somado ao prédio ao lado, poderia valer algo em torno de 14 milhões. Parte dos interessados tenta negociar o preço para a faixa de 25 milhões de reais, alegando limitações de aproveitamento: um eventual projeto teria de respeitar recuos obrigatórios, reduzindo a área vendável.
Ainda assim, o endereço é considerado estratégico. Em um bairro praticamente sem terrenos disponíveis, qualquer oportunidade vira um ativo raro no mercado. Em 2024, o Leblon voltou a liderar o ranking do metro quadrado mais caro do Rio, com valores médios acima de 25 mil reais. No mesmo período, uma cobertura de 501 metros quadrados na Avenida Delfim Moreira foi vendida por 40,3 milhões de reais — o maior valor residencial da cidade.
Tradição na balança
Fundada em 1943 por imigrantes portugueses, a Rio-Lisboa atravessou gerações mantendo arquitetura original e funcionamento 24 horas. Mais que padaria, virou ponto de encontro. Entre balcão e mesas disputadas, resistem clássicos como o pão Petrópolis, o misto quente com ovo e o frango assado com batata bolinha — parte do roteiro afetivo de fins de semana no bairro.
O mercado lembra o precedente da antiga Padaria Ipanema, que também esteve na mira de incorporadoras antes de ser adquirida por Antonio Rodrigues, empresário criador da rede Belmonte e espécie de midas da boemia carioca, e reabrir mantendo a vocação gastronômica. No caso da Rio-Lisboa, o desfecho segue indefinido.







