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Um Rio que passou em muitas vidas

Cidade se reflete na vida e na carreira de craques levados em 2022, como Gal, Erasmo, Jô e Isabel

Por Henrique Barbi Silva*
27 dez 2022, 15h51

Erasmo, Gal, Isabel, Elza, Jô, Jabor. Bambas que marcaram gerações de brasileiros. Eles nos deixaram em 2022, mas se eternizam na memória. Em comum, fora o virtuosismo, o Rio de Janeiro. “É possível percorrer a cidade com a origem e a obra de cada artista”, observa o jornalista, escritor e professor universitário Paulo Cesar de Araújo, biógrafo de Roberto Carlos.

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Traços cariocas permearam a vida e a obra desses craques. Para o também jornalista e professor Arthur Dapieve, a estrutura geográfica e social do Rio influencia uma pluralidade artística refletida nas produções culturais: “O choque social no Rio é aparente. A geografia misturada da cidade favorece uma produção cultural diversa e até mesmo o entendimento das divisões de classes e dos problemas urbanos”, acredita o comentarista da GloboNews.  

Erasmo Carlos era filho da Tijuca, na Zona Norte, reduto de boemia e futebol. A bola e o copo se entrelaçam, alternam um protagonismo histórico do lugar. Muitas são acompanhados de violões, guitarras e outros instrumentos. Ecoavam forte, por exemplo, na esquina das ruas do Matoso e Haddock Lobo.  

Ali ficava o bar Divino, palco de agitadas reuniões juvenis na década de 1950. Um contraponto à Bossa Nova emergente em botecos e saraus da Zona Sul. Na esquina tijucana, prevaleciam ritmos americanos, principalmente o rock. Nela brotaria Erasmo Carlos. 

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Tião Marmiteiro, criança que prenunciava a genialidade explosiva daquele que seria considerado rei do soul no Brasil, foi o primeiro professor. Com ele, Erasmo aprendeu três acordes no violão, ponto de partida para criar as versões em português dos rocks que tanto ouvia pelo rádio. Essa decolagem o levou, mais tarde, até Roberto, grande parceiro de prosa, verso e vida.

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Zizinho, Dida e Mané desfilavam o repertório estrelar no Maracanã. O Divino era o Maraca de Tim Maia, Jorge Ben (antes de virar Bem Jor), Roberto e Erasmo Carlos. A Turma da Tijuca entoava musicalidade e pioneirismo. Berço da revolução cultural promovida pela Jovem Guarda

Dali em diante, Erasmo seria sempre o Tremendão. A carreira consolidou-se fases envoltas no espírito carioca. O artista musicava, em versos simples, marcas tangíveis e intangíveis absorvidas na relação com a capital fluminense.

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“O Erasmo tem uma música chamada Largo da Segunda-feira, do álbum Sonhos e Memórias (1972), que fala da sua infância na Tijuca. A crônica social de costumes, o cotidiano urbano, marcas de Noel Rosa, estão presentes em toda a obra dele. Mais um exemplo é o samba-rock Coqueiro Verde, que faz referência ao Pasquim e à Leila Diniz, símbolos de resistência e vanguarda comportamental. É o Rio de Janeiro todo ali”, exemplifica PC Araújo.

Quando cansou de ficar sentado à beira do caminho, Erasmo fez a voz ressoar em lutas precursoras. Sem medo de quebrar padrões, versava sobre ecologia e a força da mulher em tempos nos quais esses assuntos eram desinteressantes ou incômodos à ordem dominante.

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A cidadania manifestou-se também na aproximação corajosa da Jovem Guarda com a Tropicália, no auge da repressão ditatorial. A articulação ecoou na composição Meu Nome é Gal (1969), interpretada com a característica potência vocal da cantora baiana, como se o corpo todo cantasse. O Brasil também se despediu de Gal Costa em 2022. Seu brilho seguira, logicamente, perene nas lembranças, inspirações, no legado marcante

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Mulheres grandiosas

Nasceu Maria da Graça Costa Penna Burgos, em Salvador. Amiga de Gil, Bethânia e Caetano, foi descoberta por João Gilberto, que a considerava a maior cantora do Brasil. Mihões acompanhariam o veredito do pai da Bossa Nova. 

Incentivada pelo mestre, Gal partiu da Bahia para o Rio. Conquistou a cidade adotada, o país, o mundo, com sua voz cristalina e personalidade de leoa. 

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Sob os braços do Redentor, ela fortaleceu a contracultura. A efervescência cultural do Rio envolvia Gal além da música. Repercutia em gestos, modas, vanguardas.  PC Araújo lembra que, apesar das influências culturais de Londres, Nova York e Paris, o Rio pulsava forte nos rumos artísticos nacionais.

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Enquanto Gil e Caetano estavam exilados, a cantora preencheu os dias de angústia com a missão de manter acesa a chama do tropicalismo. Crepitava no disco Fa-Tal – Gal a todo vapor (1971). Àquela altura, as Dunas de Ipanema viraram as Dunas de Gal, um refúgio de esperança aos ideais democráticos. 

O Rio imprimiu igualmente suas digitais na trajetória de Isabel Salgado, a Isabel do Vôlei, outra figura marcante levada por 2022. Dos treinos no ginásio do Flamengo, na Gávea, às redes na areia de Ipanema, Isabel transbordou carisma, talento, originalidade

Uma das protagonistas das seleções brasileiras nas Olimpíadas de Moscou (1980) e Atlanta (1984), abriu caminho para as conquistas olímpicas do vôlei na quadra e na praia. O jeito de carioca da gema se desdobrava nas relações com o esporte e com a cidade. 

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A representatividade da atleta não se limitou às quadras. Mostrava a face destemida, empoderada, ao abraçar causas como a equiparação de direitos entre homens e mulheres e a conciliação da vida profissional com a maternidade. Os cinco filhos eram onipresentes na rotina da craque. Chegou a jogar grávida, sob a crítica dos conservadores. 

Não menos precursora, corajosa, talentosa, aguerrida foi Elza Soares, a voz do milênio. Lutava não por escolha, mas por necessidade. Mulher, preta, nascida na favela de Vila Vintém, Zona Oeste do Rio, filha de lavadeira e de operário, não era senhora de direito algum, apenas de deveres.

Elza foi obrigada a se casar aos 12 anos de idade, com um homem muito mais velho, que dela abusou. A união acabou anos depois, com a morte do marido. Ela tinha 21 anos e cinco filhos para sustentar, fora a cicatriz de ter perdido dois deles para a fome.

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Em 1953, o programa Calouros em desfile, apresentado por Ary Barroso na rádio Tupi, foi a tentativa desesperada e inventiva de Elza para sobreviver. A plateia riu e zombou da pobre mulher maltrapilha, e o radialista perguntou com ironia: “De que planeta você veio?” E ela, como se tivesse a resposta na ponta da língua, não hesitou: “Do planeta fome, Seu Ary”.

PC pondera: “Costumo dizer que alguns cantores brasileiros iam ao microfone como quem vai a um prato de comida. Grande parte da nossa música é feita desses artistas. Elza é uma expressão maior disso”.

A “mulher do fim do mundo” bradou, até o último momento, o canto oprimido dos subúrbios, sem pensar em baixar a cabeça. Sua obra acrescentou as palavras “desejo”, “escolha” e “respeito” no dicionário dos humildes. Fez dela a porta-voz do carnaval carioca, exportado para todo país. O vínculo emblemático se estabeleceu com a Mocidade Independente de Padre Miguel, agremiação que reflete suas raízes. 

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Jô e Jabor

Das telonas às telinhas, sem esquecer dos teatros, livrarias, pinacotecas ou qualquer lugar de arte e cultura, margeia o impossível não encontrar uma produção de Jô Soares capaz de arrancar gargalhadas; ou uma de Arnaldo Jabor, que faça refletir. Boa parte delas também expressa, de alguma forma, o Rio.

Expoente da segunda geração do Cinema Novo, Jabor retratou as contradições e dramas da classe média metropolitana. Deu luz, câmera e ação para obras de Nelson Rodrigues e Rubem Fonseca, cronistas do dia a dia carioca. Ao migrar para o jornalismo, o cineasta fez sucesso com comentários lúcidos e bem-humorados, guiados pela inteligência aguçada.

O Rio une Jô e Jabor em diversas frentes. Ainda criança, Jô fez da piscina do Copacabana Palace seu primeiro palco e lugar de descoberta das suas múltiplas vocações. Tricolor exibido, produziu diversos personagens tipicamente cariocas. Nos seus livros, adotava referências a cenários tradicionais da cidade.

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“Eles são a cidade e ao mesmo tempo a cidade é deles. É mais fácil visualizar o Rio na obra do Jabor, por ser um cineasta. Mas tem algo muito presente no humor do Jô, na força da Elza, na pegada do Erasmo, nas Dunas da Gal, declaradas patrimônio histórico, em decisão acertada do prefeito Eduardo Paes”, sintetiza Dapieve.

*Henrique Barbi Silva, estudante de Jornalismo da PUC-Rio, com orientação de professores da universidade e revisão final de Veja Rio.

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