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Uma obra de arte

Monumento da Vista Chinesa passa pela mais completa reforma em seus 110 anos, que exigiu precisão cirúrgica

Por Ernesto Neves
21 ago 2013, 18h31 • Atualizado em 5 jun 2017, 13h52
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cidade-04.jpg (Redação Veja rio/)
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  • Construída em homenagem aos orientais que migraram para o Rio com o objetivo de atuar em plantações de chá, a Vista Chinesa completa 110 anos em meio à mais abrangente reforma de sua história. Deteriorado pela ação constante de vento, maresia, chuva e sol, o pagode instalado a 380 metros de altura, no coração da Floresta da Tijuca, é alvo de investimentos de 417?000 reais. Iniciado em março por uma equipe de doze pessoas, o trabalho de recuperação do mirante tem previsão de terminar no mês que vem. Diante de uma paisagem hipnotizante, restauradores estão na reta final da empreitada, que contou ainda com a participação de engenheiros e historiadores, responsáveis pela pesquisa de reconstituição da peça. Quando for reinaugurado, o pavilhão em formato hexagonal exibirá com fidelidade as mesmas características que tinha no começo do século passado e que foram se perdendo devido ao desgaste natural, somado a reparos feitos sem discernimento. Para recuperar a sua cor verde de origem, por exemplo, foi preciso remover o pálido amarelo que o marcou de uns tempos para cá, retirando cinco camadas de tinta. Utilizando pequenas lâminas e bisturis cirúrgicos, os técnicos fizeram um trabalho meticuloso para evitar danos à frágil argamassa que reveste a estrutura. “Trata-se de um dos pontos turísticos mais visitados do Rio e que estava degradado havia décadas”, destaca Antônio Sérgio Aliverti, engenheiro civil responsável pela execução da obra.

     

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    O desgaste do coreto não era só na aparência. Logo no início das atividades, a equipe constatou que os pilares de sustentação de ferro estavam corroídos em decorrência da exposição à umidade. Recuperá-los foi o primeiro passo da obra, cuja etapa mais difícil envolveu o restauro do revestimento que dá à estrutura a aparência de bambu, vegetal fartamente empregado nas construções chinesas (veja o quadro). Antes de tudo, foi necessário remover reparos grosseiros executados no passado, em que chegaram a aplicar cimento sobre os ornamentos, num verdadeiro atentado contra a estética e o patrimônio histórico. Em estrita obediência ao projeto original, os técnicos produziram de forma quase artesanal a argamassa do revestimento. Na composição, utilizaram água de uma nascente da Floresta da Tijuca, pois o líquido deveria ser extremamente puro e sem cloro. Constituída basicamente de pó de tijolo e cal, a mistura descansa por pelo menos sessenta dias até atingir o ponto ideal. Ela foi empregada na recomposição da estrutura, assim como no restauro das doze gárgulas localizadas na parte superior do monumento.

    Recuperar edificações de valor histórico é uma iniciativa bem-vinda a uma metrópole que assistiu sem esboçar maiores reações ao desmonte do Morro do Castelo e à demolição do Palácio Monroe, pontos de relevância inestimável que foram apagados da paisagem. Desta vez, a intervenção na Vista Chinesa vem na esteira de outras revitalizações minuciosas realizadas na cidade, a exemplo das cirurgias plásticas efetuadas no Theatro Municipal e no palacete oitocentista onde fica a Casa Daros, em Botafogo. Quanto aos coretos, cujo embrião remete à Revolução Francesa, eram erigidos com o intuito de juntar gente na rua em torno de apresentações musicais. O primeiro deles foi fincado na Praça XV, também em 1903, e outros exemplares vieram a seguir. No entanto, ao longo do tempo foram perdendo a função e ficaram relegados. Com as reformas urbanas da primeira metade do século passado, várias dessas peças foram varridas do mapa ou removidas para outros pontos da cidade, como é o caso do pioneiro quiosque da Praça XV, realocado nos anos 40 em Sepetiba, onde permanece até hoje. Pelo que parece, o abandono está ficando para trás e o movimento agora é no sentido contrário. “Vivemos um mo­mento em que a cidade recupera sua autoestima”, afirma a arquiteta Vera Dias, gerente de Monumentos e Chafarizes da Secretaria Municipal de Conservação. “O carioca mostra-se preocupado em proteger não só a paisagem, mas também seu passado.” Apesar da profusão de bens tombados, o Rio ainda tem um longo caminho a percorrer até que nosso patrimônio seja valorizado como deveria. Mas pequenos passos, como a revitalização da Vista Chinesa, ajudam a encurtar a distância.

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