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Após dezoito anos de enrosco, nova sede do MIS terá abertura parcial ao público

VEJA RIO fez uma visita exclusiva aos oito andares do equipamento que promete exaltar a cultura local através de exposições tecnológicas e imersivas

Por Carolina Ribeiro
13 mar 2026, 06h32 • Atualizado em 13 mar 2026, 10h37
Soft Opening: com quase 90% do projeto concluído, o espaço vai receber o público em uma exposição a partir de 26 de março
Soft Opening: com quase 90% do projeto concluído, o espaço vai receber o público em uma exposição a partir de 26 de março  (Rafael Campos/Divulgação)
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  • Em cima de uma cabine de projeção no terraço da nova sede do Museu da Imagem e do Som (MIS), a gerente de patrimônio e cultura da Fundação Roberto Marinho, Larissa Graça, observa o visual ensolarado da Praia de Copacabana por um ângulo raro para os cariocas. “Este será o ponto mais instagramável do museu”, aposta a porta-voz, prevendo uma fila de futuros visitantes ávidos por um clique. Batizada de Titanic graças ao formato triangular, a estrutura envidraçada funcionará como uma sala de exibição de filmes ao ar livre. As sessões prometem agitar a programação da cidade a partir de setembro, quando está prevista a abertura total da aguardada instituição cultural. Uma obra que parecia fadada ao naufrágio voltou à tona depois de dezoito anos de espera e incertezas. No dia 26 de março, haverá uma cerimônia oficial para autoridades e convidados, com apresentação do pianista João Carlos Martins, e a expectativa da secretaria estadual da Casa Civil é de que, até lá, 90% das intervenções estejam concluídas. O equipamento funcionará, então, em esquema de soft opening: parcialmente aberto para visitação da exposição MIS Em Cena. Gratuita e com retirada de ingressos numa plataforma on-line, a mostra inaugural vai esmiuçar os bastidores da arquitetura do imponente prédio à beira-mar e, a partir de abril, estão prometidos shows intimistas. “É um museu popular e acessível, para cariocas e fluminenses se reconhecerem”, resume Larissa.

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    Ponto Instagramável: gerente de patrimônio e cultura da Fundação Roberto Marinho, Larissa Graça, admira a orla de Copacabana de um ângulo raro (Ana Paula Amorim/Veja Rio)

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    No início de março, VEJA RIO fez uma visita exclusiva aos ainda empoeirados oito andares do edifício assinado pelo escritório americano Diller Scofidio + Renfro responsável pela ampliação do MoMA, em 2019, e um dos idealizadores do High Line, em 2009, ambos em Nova York. Os arquitetos se inspiraram no traçado do calçadão de Copacabana, assinado por Roberto Burle Marx (1909-1994). “Embora o acesso à praia seja um direito de todos, a vista para o mar e o Pão de Açúcar é privada, limitada aos hotéis e a moradias de ricos. O boulevard vertical leva o espírito inclusivo do calçadão para dentro do edifício, culminando no terraço, com abundante vegetação e cinema”, explica Liz Diller, cujo projeto participou de um concurso com outros sete candidatos. Uma das ideias propostas era transformar os 22 000 cobogós de alumínio da fachada, inicialmente planos, em tubos tridimensionais, filtrando a luminosidade. “A iluminação e a temperatura precisam ser controladas. Uma caixa fechada, nesse cenário, perderia o sentido”, analisa Luiz Eduardo Indio da Costa, arquiteto incumbido de “tropicalizar” o complexo desenho. “Não há um pilar reto. Trata-se de uma arquitetura plural, que atrai pela forma e ineditismo.”

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    Equipamento Cultural: “A entrega do MIS vai fortalecer o turismo, a economia criativa e a nossa identidade”, destaca o governador Cláudio Castro (Rafael Campos/Divulgação)

    Escadas e elevadores vão conduzir os frequentadores a uma viagem pela cultura brasileira. A entrada do museu com café, espaço expositivo e lojinha ganhou o título de Baixo Atlântica, em referência aos points cariocas da Gávea e do Leblon. Logo abaixo, há um auditório com 280 cadeiras e uma boate. Já o segundo andar oferece três experiências imersivas: a primeira se dedica ao humor e à rebeldia, a segunda ala é sobre o Carnaval, enquanto a terceira pega carona no espírito da música Rio 40 Graus (1992), de Fernanda Abreu, Fausto Fawcett e Carlos Laufer. A jornada segue pelos pisos superiores, resgatando a memória da Rádio Nacional, com ilhas destinadas ao samba e ao choro, e exaltando o ícone Carmen Miranda (1909-1955). Um ambiente dedicado à televisão ganhou a alcunha de Alegres Trópicos, em alusão ao livro Tristes Trópicos (1955), do antropólogo Claude LéviStrauss (1908-2009). Degraus com guarda-corpo de vidro permeiam a fachada, dando acesso às áreas interna e externa, e uma arquibancada na parte de dentro conecta o quarto e o quinto andares (veja mais no quadro). A estrutura foi idealizada para assistir a filmes nos quais o Rio é protagonista, como 007 Contra o Foguete da Morte (1979), além de dar acesso a uma varanda. “No High Line, as pessoas se sentam na arquibancada para ver o trânsito. Aqui, elas vão admirar o mar”, compara Larissa, da Fundação Roberto Marinho.

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    Na reta final do quebra-quebra, mais de 200 funcionários trabalham dia e noite nos quase 10 000 metros quadrados da edificação, em meio a tapumes, guindastes, tratores e andaimes. No último sábado (7), às 21h, ainda era possível ouvir o maquinário em ação. A corrida contra o relógio é acompanhada por equipes técnicas da Secretaria de Estado de Infraestrutura e Obras Públicas (Seiop), do Consórcio Copacabana formado pelas construtoras R2X e Tangran Engenharia , e pelo próprio secretário estadual da Casa Civil, Nicola Miccione, que dá expediente uma vez por mês no museu, a fim de acelerar o andar da carruagem. Ele garante que a entrega no fim de março não será adiada e usa o termo “via-crúcis” ao relembrar a saga para pôr o projeto de pé. “Atuamos como regentes de uma orquestra. Fizemos nova licitação para as obras, além de contratos de parede e fachada, que exigem especificidades”, explica Miccione, que sonha com uma honraria no local. “Eu brinco que a única placa que eu quero ter com o meu nome pelo trabalho na Casa Civil é no MIS”, diz, sem modéstia, o secretário.

    Pé no Acelerador: o secretário estadual da Casa Civil, Nicola Miccione, em visita para checar o andamento da obra
    Pé no Acelerador: o secretário estadual da Casa Civil, Nicola Miccione, em visita para checar o andamento da obra (Casa Civil/Divulgação)

    Essa intrincada novela começou em 2008, com o decreto de desapropriação do terreno onde funcionou a boate Help. A obra, à época orçada em 70 milhões de reais, teve início dois anos mais tarde, com previsão de conclusão em 2014, no governo de Sérgio Cabral Filho, mas houve atraso. Em 2016, ano da prisão de Cabral, uma crise financeira abalou os cofres públicos, levando à rescisão do contrato com a empreiteira. Só em 2021, o governo de Cláudio Castro decidiu retomar as obras, e o investimento total foi recalculado para 345 milhões de reais, entre recursos públicos e aportes privados via leis de incentivo. “Concluir o MIS é presentear a população com um equipamento cultural à altura da vocação do Rio, fortalecendo o turismo, a economia criativa e a nossa identidade. Com planejamento e responsabilidade fiscal, transformamos o projeto em realidade concreta”, afirma o governador. “A cultura brasileira foi muito atacada nos últimos anos, resgatar a autoestima é urgente”, reflete Larissa, na empreitada desde o início. “Muitas vezes, só havia um vagalume no fim do túnel, mas eu não desisti”, desabafa.

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    Acervo Protegido: Cesar Miranda Ribeiro, presidente da F.MIS, diz que as obras vão seguir nas sedes da Lapa e da Praça XV (./Divulgação)

    Combinando vidro e estrutura metálica, a fachada se deteriorou ao longo dos anos de abandono e só será entregue pouco antes da abertura oficial. A instalação dos painéis ondulados de revestimento acústico do auditório, no subsolo, vai ser concluída mais adiante. Em abril, inicia-se a implantação da museologia, assinada por Daniela Thomas e Felipe Tassara, prevista para estar pronta em setembro. No entanto, o acervo da Fundação Museu da Imagem e do Som (F.MIS), com mais de 600 000 obras entre coleções particulares de José Wilker (1944-2014) e discos originais da Rádio Nacional , não vai migrar para a beira da praia. Na nova sede, o conteúdo será majoritariamente digital, calcado em experiências tecnológicas com recursos audiovisuais, interatividade e acessibilidade. Serão expostos réplicas de instrumentos de Jacob do Bandolim (1918-1969), fotografias de Augusto Malta (1864-1957) e figurinos de Carmen Miranda. “As sedes da Lapa e da Praça XV continuam existindo como centro de pesquisa acadêmica e conservação do acervo iconográfico, longe da maresia”, assegura Cesar Miranda Ribeiro, presidente da fundação, que completou sessenta anos em 2025.

    Dever Cumprido: secretária estadual de Cultura e Economia Criativa, Danielle Barros, sente frio na barriga com a responsabilidade da entrega do MIS
    Dever Cumprido: secretária estadual de Cultura e Economia Criativa, Danielle Barros, sente frio na barriga com a responsabilidade da entrega do MIS (Sesec/Divulgação)

    Uma vez entregue, a gestão do equipamento cultural vai ser compartilhada entre o poder público e uma organização social a convocatória será aberta em breve , e as operações do restaurante panorâmico, café e lojinha ainda serão escolhidas. Um estudo de valoração realizado pela EconoMétrika Consultoria Empresarial calcula que o investimento total do projeto tem potencial para ser zerado em até dez meses de funcionamento. Também entre as previsões, a estimativa é de que o MIS gere um impacto de 650 milhões de reais por ano na economia do município. “Quando a gente chega lá e vê que a grama está no lugar e que o acabamento já está sendo colocado, vai dando, de fato, um frio na barriga, porque é uma responsabilidade grande entregar essa casa para a população”, anseia a secretária estadual de Cultura e Economia Criativa, Danielle Barros, com sensação de dever quase cumprido. Depois de uma longa e desesperançosa espera, o Rio merece ver o museu em pleno funcionamento.

     

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    MIS Adentro: como será cada andar do equipamento cultural com projeto do escritório Diller Scofidio + Renfro (Diller Scofidio/Renfro/Divulgação)
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    Visão privilegiada

    As atrações de cada pavimento

    1 O subsolo vai abrigar uma boate e um auditório revestido por painéis em forma de onda, com 280 lugares.

     2 O térreo, com café, lojinha e exposições de curta e longa duração, foi apelidado de Baixo Atlântica. O ambiente terá acesso livre para visitantes e cariocas.

     3 O segundo andar será dividido em três ambientes com experiências imersivas: Salão do Humor Carioca, Salve o Carnaval e Rio 40 Graus, além de um espaço educativo.

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    Acervo Iconográfico: entre as peças, estarão reproduções de instrumentos musicais de Jacob do Bandolim (instagram @institutojacobdobandolim/Divulgação)

     4 No terceiro piso, estarão cabines dedicadas a um dos principais legados culturais do país — a música —, com estações dedicadas ao choro, samba, bossa nova e à Rádio Nacional, além de reproduções flutuantes de instrumentos musicais.

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    Voz do Brasil: Carmen Miranda será retratada como artista e mulher à frente de seu tempo (Creative Commons/Divulgação)

     5 Batizado de Alegres Trópicos, o quarto pavimento vai celebrar a televisão. O acervo digital divide espaço com um tributo a Carmen Miranda.

     6 Uma arquibancada e um telão serão posicionados entre o quarto e o quinto andar. A estrutura é um convite a relembrar filmes que têm o Rio como cenário.

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    Augusto Malta. Avenida Passos, na altura da avenida Marechal Floriano, c. 1925. Centro, Rio de Janeiro Acervo IMS.jpg
    Rio Antigo: fotografias de Augusto Malta serão exibidas em versão digital (Funarj/Divulgação)

     7 O sexto piso será reservado à equipe administrativa do museu.

     8 Um restaurante com vista panorâmica para a Princesinha do Mar ocupará o sétimo pavimento.

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    No Topo: a vista incomparável da Princesinha do Mar será uma atração à parte (Ana Paula Amorim/Veja Rio)

     9 Uma escada com guarda-corpo de vidro conduzirá ao terraço, com gramado verde, jardim vertical, cinema ao ar livre e a vista de tirar o fôlego.

     

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    Experiências Imersivas: MIS adotará recursos tecnológicos para promover interatividade e acessibilidade (Diller Scofidio/Renfro/Divulgação)

    Museu de Milhões 

    Os números exorbitantes da instituição

    345 milhões de reais de investimento total 

    53% dos recursos vieram do poder público

    10 000 metros quadrados de área construída

    22 000 cobogós de alumínio instalados na fachada

    650 milhões de reais de impacto na economia do município por ano

     

    Agora vai

    Foram dezoito anos de idas e vindas

    2008 Idealização do projeto e realização de concurso de arquitetura com oito escritórios nacionais e internacionais

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    Das Antigas: fachada da boate Help, no terreno do MIS (Antônio Scorza/AFP/Divulgação)

    2010 Desapropriação do terreno e demolição do antigo prédio onde funcionou a boate Help

    2014 Construção das fundações do novo prédio em meio ao início da crise fiscal do estado 

    2016 Rescisão do contrato com a empreiteira encarregada da obra e decreto de calamidade financeira, inviabilizando a realização de nova licitação para seguir com a empreitada

    2021 Abertura de licitação para retomada das obras físicas e criação de novos contratos para finalização da fachada e das paredes

    2023 O Conselho de Arquitetura e Urbanismo notificou o estado sobre a conservação de equipamentos, como corrimãos enferrujados e vidros manchados por infiltração 

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    Hi-Tech: conteúdo será majoritariamente digital, com museologia assinada por Daniela Thomas e Felipe Tassara (./Divulgação)

    2026 Previsão de entrega das obras em 26 de março, com abertura em soft opening, e implantação da museografia, com projeto de Daniela Thomas e Felipe Tassara, até setembro

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