Após dezoito anos de enrosco, nova sede do MIS terá abertura parcial ao público
VEJA RIO fez uma visita exclusiva aos oito andares do equipamento que promete exaltar a cultura local através de exposições tecnológicas e imersivas
Em cima de uma cabine de projeção no terraço da nova sede do Museu da Imagem e do Som (MIS), a gerente de patrimônio e cultura da Fundação Roberto Marinho, Larissa Graça, observa o visual ensolarado da Praia de Copacabana por um ângulo raro para os cariocas. “Este será o ponto mais instagramável do museu”, aposta a porta-voz, prevendo uma fila de futuros visitantes ávidos por um clique. Batizada de Titanic graças ao formato triangular, a estrutura envidraçada funcionará como uma sala de exibição de filmes ao ar livre. As sessões prometem agitar a programação da cidade a partir de setembro, quando está prevista a abertura total da aguardada instituição cultural. Uma obra que parecia fadada ao naufrágio voltou à tona depois de dezoito anos de espera e incertezas. No dia 26 de março, haverá uma cerimônia oficial para autoridades e convidados, com apresentação do pianista João Carlos Martins, e a expectativa da secretaria estadual da Casa Civil é de que, até lá, 90% das intervenções estejam concluídas. O equipamento funcionará, então, em esquema de soft opening: parcialmente aberto para visitação da exposição MIS Em Cena. Gratuita e com retirada de ingressos numa plataforma on-line, a mostra inaugural vai esmiuçar os bastidores da arquitetura do imponente prédio à beira-mar e, a partir de abril, estão prometidos shows intimistas. “É um museu popular e acessível, para cariocas e fluminenses se reconhecerem”, resume Larissa.
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No início de março, VEJA RIO fez uma visita exclusiva aos ainda empoeirados oito andares do edifício assinado pelo escritório americano Diller Scofidio + Renfro — responsável pela ampliação do MoMA, em 2019, e um dos idealizadores do High Line, em 2009, ambos em Nova York. Os arquitetos se inspiraram no traçado do calçadão de Copacabana, assinado por Roberto Burle Marx (1909-1994). “Embora o acesso à praia seja um direito de todos, a vista para o mar e o Pão de Açúcar é privada, limitada aos hotéis e a moradias de ricos. O boulevard vertical leva o espírito inclusivo do calçadão para dentro do edifício, culminando no terraço, com abundante vegetação e cinema”, explica Liz Diller, cujo projeto participou de um concurso com outros sete candidatos. Uma das ideias propostas era transformar os 22 000 cobogós de alumínio da fachada, inicialmente planos, em tubos tridimensionais, filtrando a luminosidade. “A iluminação e a temperatura precisam ser controladas. Uma caixa fechada, nesse cenário, perderia o sentido”, analisa Luiz Eduardo Indio da Costa, arquiteto incumbido de “tropicalizar” o complexo desenho. “Não há um pilar reto. Trata-se de uma arquitetura plural, que atrai pela forma e ineditismo.”
Escadas e elevadores vão conduzir os frequentadores a uma viagem pela cultura brasileira. A entrada do museu — com café, espaço expositivo e lojinha — ganhou o título de Baixo Atlântica, em referência aos points cariocas da Gávea e do Leblon. Logo abaixo, há um auditório com 280 cadeiras e uma boate. Já o segundo andar oferece três experiências imersivas: a primeira se dedica ao humor e à rebeldia, a segunda ala é sobre o Carnaval, enquanto a terceira pega carona no espírito da música Rio 40 Graus (1992), de Fernanda Abreu, Fausto Fawcett e Carlos Laufer. A jornada segue pelos pisos superiores, resgatando a memória da Rádio Nacional, com ilhas destinadas ao samba e ao choro, e exaltando o ícone Carmen Miranda (1909-1955). Um ambiente dedicado à televisão ganhou a alcunha de Alegres Trópicos, em alusão ao livro Tristes Trópicos (1955), do antropólogo Claude LéviStrauss (1908-2009). Degraus com guarda-corpo de vidro permeiam a fachada, dando acesso às áreas interna e externa, e uma arquibancada na parte de dentro conecta o quarto e o quinto andares (veja mais no quadro). A estrutura foi idealizada para assistir a filmes nos quais o Rio é protagonista, como 007 Contra o Foguete da Morte (1979), além de dar acesso a uma varanda. “No High Line, as pessoas se sentam na arquibancada para ver o trânsito. Aqui, elas vão admirar o mar”, compara Larissa, da Fundação Roberto Marinho.
Na reta final do quebra-quebra, mais de 200 funcionários trabalham dia e noite nos quase 10 000 metros quadrados da edificação, em meio a tapumes, guindastes, tratores e andaimes. No último sábado (7), às 21h, ainda era possível ouvir o maquinário em ação. A corrida contra o relógio é acompanhada por equipes técnicas da Secretaria de Estado de Infraestrutura e Obras Públicas (Seiop), do Consórcio Copacabana — formado pelas construtoras R2X e Tangran Engenharia —, e pelo próprio secretário estadual da Casa Civil, Nicola Miccione, que dá expediente uma vez por mês no museu, a fim de acelerar o andar da carruagem. Ele garante que a entrega no fim de março não será adiada e usa o termo “via-crúcis” ao relembrar a saga para pôr o projeto de pé. “Atuamos como regentes de uma orquestra. Fizemos nova licitação para as obras, além de contratos de parede e fachada, que exigem especificidades”, explica Miccione, que sonha com uma honraria no local. “Eu brinco que a única placa que eu quero ter com o meu nome pelo trabalho na Casa Civil é no MIS”, diz, sem modéstia, o secretário.
Essa intrincada novela começou em 2008, com o decreto de desapropriação do terreno onde funcionou a boate Help. A obra, à época orçada em 70 milhões de reais, teve início dois anos mais tarde, com previsão de conclusão em 2014, no governo de Sérgio Cabral Filho, mas houve atraso. Em 2016, ano da prisão de Cabral, uma crise financeira abalou os cofres públicos, levando à rescisão do contrato com a empreiteira. Só em 2021, o governo de Cláudio Castro decidiu retomar as obras, e o investimento total foi recalculado para 345 milhões de reais, entre recursos públicos e aportes privados via leis de incentivo. “Concluir o MIS é presentear a população com um equipamento cultural à altura da vocação do Rio, fortalecendo o turismo, a economia criativa e a nossa identidade. Com planejamento e responsabilidade fiscal, transformamos o projeto em realidade concreta”, afirma o governador. “A cultura brasileira foi muito atacada nos últimos anos, resgatar a autoestima é urgente”, reflete Larissa, na empreitada desde o início. “Muitas vezes, só havia um vagalume no fim do túnel, mas eu não desisti”, desabafa.
Combinando vidro e estrutura metálica, a fachada se deteriorou ao longo dos anos de abandono e só será entregue pouco antes da abertura oficial. A instalação dos painéis ondulados de revestimento acústico do auditório, no subsolo, vai ser concluída mais adiante. Em abril, inicia-se a implantação da museologia, assinada por Daniela Thomas e Felipe Tassara, prevista para estar pronta em setembro. No entanto, o acervo da Fundação Museu da Imagem e do Som (F.MIS), com mais de 600 000 obras — entre coleções particulares de José Wilker (1944-2014) e discos originais da Rádio Nacional —, não vai migrar para a beira da praia. Na nova sede, o conteúdo será majoritariamente digital, calcado em experiências tecnológicas com recursos audiovisuais, interatividade e acessibilidade. Serão expostos réplicas de instrumentos de Jacob do Bandolim (1918-1969), fotografias de Augusto Malta (1864-1957) e figurinos de Carmen Miranda. “As sedes da Lapa e da Praça XV continuam existindo como centro de pesquisa acadêmica e conservação do acervo iconográfico, longe da maresia”, assegura Cesar Miranda Ribeiro, presidente da fundação, que completou sessenta anos em 2025.
Uma vez entregue, a gestão do equipamento cultural vai ser compartilhada entre o poder público e uma organização social — a convocatória será aberta em breve —, e as operações do restaurante panorâmico, café e lojinha ainda serão escolhidas. Um estudo de valoração realizado pela EconoMétrika Consultoria Empresarial calcula que o investimento total do projeto tem potencial para ser zerado em até dez meses de funcionamento. Também entre as previsões, a estimativa é de que o MIS gere um impacto de 650 milhões de reais por ano na economia do município. “Quando a gente chega lá e vê que a grama está no lugar e que o acabamento já está sendo colocado, vai dando, de fato, um frio na barriga, porque é uma responsabilidade grande entregar essa casa para a população”, anseia a secretária estadual de Cultura e Economia Criativa, Danielle Barros, com sensação de dever quase cumprido. Depois de uma longa e desesperançosa espera, o Rio merece ver o museu em pleno funcionamento.
Visão privilegiada
As atrações de cada pavimento
1 O subsolo vai abrigar uma boate e um auditório revestido por painéis em forma de onda, com 280 lugares.
2 O térreo, com café, lojinha e exposições de curta e longa duração, foi apelidado de Baixo Atlântica. O ambiente terá acesso livre para visitantes e cariocas.
3 O segundo andar será dividido em três ambientes com experiências imersivas: Salão do Humor Carioca, Salve o Carnaval e Rio 40 Graus, além de um espaço educativo.
4 No terceiro piso, estarão cabines dedicadas a um dos principais legados culturais do país — a música —, com estações dedicadas ao choro, samba, bossa nova e à Rádio Nacional, além de reproduções flutuantes de instrumentos musicais.
5 Batizado de Alegres Trópicos, o quarto pavimento vai celebrar a televisão. O acervo digital divide espaço com um tributo a Carmen Miranda.
6 Uma arquibancada e um telão serão posicionados entre o quarto e o quinto andar. A estrutura é um convite a relembrar filmes que têm o Rio como cenário.
7 O sexto piso será reservado à equipe administrativa do museu.
8 Um restaurante com vista panorâmica para a Princesinha do Mar ocupará o sétimo pavimento.
9 Uma escada com guarda-corpo de vidro conduzirá ao terraço, com gramado verde, jardim vertical, cinema ao ar livre e a vista de tirar o fôlego.
Museu de Milhões
Os números exorbitantes da instituição
345 milhões de reais de investimento total
53% dos recursos vieram do poder público
10 000 metros quadrados de área construída
22 000 cobogós de alumínio instalados na fachada
650 milhões de reais de impacto na economia do município por ano
Agora vai
Foram dezoito anos de idas e vindas
2008 Idealização do projeto e realização de concurso de arquitetura com oito escritórios nacionais e internacionais
2010 Desapropriação do terreno e demolição do antigo prédio onde funcionou a boate Help
2014 Construção das fundações do novo prédio em meio ao início da crise fiscal do estado
2016 Rescisão do contrato com a empreiteira encarregada da obra e decreto de calamidade financeira, inviabilizando a realização de nova licitação para seguir com a empreitada
2021 Abertura de licitação para retomada das obras físicas e criação de novos contratos para finalização da fachada e das paredes
2023 O Conselho de Arquitetura e Urbanismo notificou o estado sobre a conservação de equipamentos, como corrimãos enferrujados e vidros manchados por infiltração
2026 Previsão de entrega das obras em 26 de março, com abertura em soft opening, e implantação da museografia, com projeto de Daniela Thomas e Felipe Tassara, até setembro







