Nova geração de carnavalescos recolocou o enredo no centro dos desfiles
Essa mudança, ocorrida a partir de 2015, dá o tom da edição revista do livro Pra Tudo Começar na Quinta-Feira, de Luiz Antonio Simas e Fábio Fabato
Em 2015, Leandro Vieira apresentou na Marquês de Sapucaí seu primeiro trabalho autoral. O enredo Na Minha Mão é Mais Barato!, desenvolvido para a Caprichosos de Pilares, terminou na sétima colocação da Série A, o grupo de acesso à elite.
Esse resultado, porém, não traduziu a potência do que se viu na Avenida. Mesmo com poucos recursos, a proposta estética, a clareza e a inteligência na construção do desfile apontaram não só um caminho possível, mas uma virada silenciosa na forma de contar histórias no Carnaval carioca.
Naquele mesmo ano, Luiz Antonio Simas e Fábio Fabato lançaram o livro Pra Tudo Começar na Quinta-Feira (Mórula Editorial), que analisava as narrativas apresentadas pelas escolas nos anos anteriores. O diagnóstico foi duro. “Era um momento muito pessimista. Àquela época, os enredos CEP, como são chamados aqueles centrados em cidades ou estados, estavam dominando. Muitos deles eram patrocinados”, relembra Simas.
Onze anos depois, o panorama é outro, e a obra ganha uma nova edição, revista e ampliada que acaba de chegar às livrarias. O olhar, agora, é mais generoso e confiante. “Ganhamos novo fôlego”, resume o professor.
A evolução dos métodos de desenvolvimento dos enredos ajuda a explicar essa mudança de perspectiva. Desde 1932, ano do primeiro desfile oficial de escolas de samba, as agremiações contam histórias, uma herança dos antigos ranchos carnavalescos.
No início, ainda não existia a ideia de um samba totalmente integrado ao conjunto do desfile. Foi a intelectualidade preta dos morros da cidade que, por meio da música e do batuque, começou a transformar dor, afeto e memória em narrativa poética.
O samba passou a explicar a cidade, seus conflitos e belezas, em versos cantados e encenados na Passarela do Samba.
A competição cresceu, e o investimento financeiro em alegorias e fantasias se intensificou. Em muitos momentos, o protagonismo da criação foi vencido pela força da grana. Os desfiles patrocinados se multiplicaram e, em diversos casos, empobreceram o debate simbólico e cultural que nutre as escolas.
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“Os enredos refletem o tempo e a mentalidade da sociedade”, observa o pesquisador Felipe Ferreira, doutor em antropologia da arte pela UFRJ.
Atentos aos debates contemporâneos e comprometidos com a força narrativa, uma nova geração de carnavalescos não se sujeita aos mandos e desmandos orçamentários.
Com criatividade e talento, nomes como Leonardo Bora e Gabriel Haddad – hoje na Vila Isabel – , Tarcísio Zanon, da Viradouro, e o próprio Leandro Vieira, carnavalesco da Imperatriz Leopoldinense, conferem ao enredo a condição de protagonista e não à toa dominam os pódios nos último anos.
“Conseguimos colocar nossas predileções artísticas em prática. Vivemos uma fase de ouro”, reconhece Zanon.
Na batida do tambor e na escrita dos sambas, a Avenida voltou a ser espaço de pensamento, invenção e identidade.
“Em 2032, quando a competição entre as escolas completar cem anos, será inevitável esmiuçar mais uma vez essa tradição”, provoca Simas, deixando claro que mais um livro pode nascer.
Até lá, a cada fevereiro, in loco ou pela TV, os espectadores têm a chance de conferir a junção entre passado, presente e futuro que só a Sapucaí proporciona.
Enredos que mudaram o jogo
Desfiles campeões assinados por essa talentosa turma
2016 Mangueira
Maria Bethânia, a Menina dos Olhos de Oyá. Por Leandro Vieira
2019 Mangueira
História Para Ninar Gente Grande. Por Leandro Vieira
2020 Viradouro
Viradouro de Alma Lavada. Por Tarcísio Zanon e Marcus Ferreira
2022 Grande Rio
Fala, Majeté! As sete chaves de Exu. Leonardo Bora e Gabriel Haddad
2023 Imperatriz Leopoldinense
O Aperreio do Cabra que o Excomungado Tratou com Má Querência e o Santíssimo Não Deu Guarida. Por Leandro Vieira
2024 Viradouro
Arroboboi, Dangbé. Por Tarcísio Zanon





