Moda, crime e bafão: o enigma de Amaury Veras volta à cena
Podcast de Chico Felitti resgata a misteriosa morte do estilista, nunca desvendada, e o caso ganha fôlego nas rodas de conversa 21 anos depois
Ocorrido em 2004, um true crime que mistura moda, sexo, drogas, festas, intrigas e alta sociedade ó ou seja, puro suco de Rio de Janeiro ó vem causando burburinho entre apreciadores de uma boa e intrincada história. O caso que revisita a relação e a ruína dos fundadores da grife carioca Frankie Amaury foi resgatado do esquecimento pelo jornalista Chico Felitti na audiossérie Vítima da Moda, disponível na Audible, aplicativo da Amazon. Natural de Jundiaí, interior de São Paulo, a voz de A Mulher da Casa Abandonada e tantos outros sucessos sonoros nunca tinha ouvido falar da Frankie Amaury. em Frankie Mackey ou Amaury Veras até o Natal de 2020, quando um amigo puxou o assunto. “Ele me explicou que eram dois estilistas meio Gianni Versace, que faziam um lance supersexy no Rio nos anos 1980”, relembra o jornalista. “Fiquei estarrecido. Parecia coisa de Hollywood”, completa. Com seu faro aguçado, Felitti pôs-se a pesquisar, por quatro anos, detalhes da vida ó e da morte ó do carioca e do argentino que se apaixonaram, fundaram uma marca e saíram de cena em condições misteriosas.
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O tom é cinematográfico: em 2004, Amaury Veras, então com 53 anos, foi encontrado morto em seu apartamento, no Arpoador, pendurado por uma echarpe de seda. Tratado inicialmente como suicídio, o caso sofreu uma reviravolta: seu sócio e ex-companheiro Frankie Mackey acabou virando réu, acusado de homicídio triplamente qualificado. Onze anos mais tarde, às vésperas do julgamento pelo Tribunal do Júri, um advogado apresentou à Justiça uma certidão de óbito de Mackey, que àquela altura tinha voltado a morar na Argentina. O julgamento nunca aconteceu e até agora pairava no ar a dúvida se de fato Mackey estava morto. Felitti, experiente em investigações, se queixa de não ter conseguido acessar a sociedade carioca ó “Nunca ouvi tanto ‘nãoí”. Um depoimento crucial que não consta no podcast é o de Renata Veras, sobrinha de Amaury. Ela foi uma das primeiras a chegar à cena do crime e reconheceu o corpo do tio. No ano passado, lançou uma coleção-cápsula de saias, mochilas e jaquetas da Frankie Amaury. A VEJA RIO, Renata diz ter contrato de exclusividade com uma obra audiovisual baseada no livro que o jornalista Alexandre Schnabl está escrevendo sobre a grife. “Vítima da Moda foi pautado pelo processo judicial, que é muito incompleto. As testemunhas arroladas para o tribunal nunca chegaram a ser ouvidas”, explica ela. “Só eu sei o quanto tive de lutar para que o caso não fosse arquivado como suicídio”, recorda.
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Fora dos autos, a especulação em torno do que de fato ocorreu com Veras e depois com Mackey corre solta. Segundo a figurinista Sônia Tomé, o brasileiro teria desacertos financeiros com familiares. Há, ainda, relatos de que Veras teria colocado o pai para fora da fábrica e dado a alcunha de “Zezé Macedo” (a atriz que interpretava Dona Bela na Escolinha do Professor Raimundo) à sobrinha. “Felitti ouviu o galo cantar, mas esse galo não cantou certo”, diz Naná Paranaguá, que foi assistente de estilo da grife e amiga dos retratados. “Fui ouvindo e anotando várias incorreções”, alfineta. Hoje, a marca Frankie Amaury está registrada em nome de Renata Borges Veras no Instituto Nacional de Propriedade Industrial (INPI). Em breve, será lançada mais uma coleção de roupas sob a etiqueta. “Virginiana, na dela”, como classifica um amigo, Renata diz viver uma fase mais leve. “Passei por uma montanha-russa de sentimentos. Desde a surpresa da morte, a revolta com a Justiça pífia e a saudade do que deixei de viver com o meu tio”, lamenta. “Com o tempo, consegui lidar melhor com o assunto e enxergar a importância do trabalho dele para a moda brasileira”, reconhece.
Há quem avalie que sobrou crime e faltou contexto ó e uma pitada da típica irreverência carioca oitentista à produção da Audible, cujo desfecho insinua a possibilidade de uma terceira pessoa na cena do crime, que nunca foi ouvida. Por ora, não há sinal de reabertura do inquérito. Frankie e Amaury, que chamavam um ao outro de “Neném” e “Bebê de Rosemary”, eram a personificação de tempos loucos. “Um carioca da Tijuca encontra um argentino de Rosario… Rolou uma pororoca energética”, define Schnabl, contando que, às segundas-feiras, na porta da fábrica da grife na Rua Joaquim Silva, na Lapa, formavam-se duas filas de pagamento: uma para fornecedores e outra para michês. “Frankie era do tipo que levava até traficante para casa, mas amava o Amaury, jamais o mataria”, atesta Sônia Tomé. “… uma injustiça a história não contar a genialidade que era a Frankie Amaury”, enlaça. Renata concorda: “A dupla foi precursora dos desfiles-show e marcou época ao envelopar madames e mocinhas com trajes de couro em pleno verão carioca.” “As pessoas não querem se lembrar deles com tristeza. Ao falar de crime, a gente perde o glacê que une alta sociedade, moda, cultura e bafão”, defende Schnabl. Eis mais uma página bafônica do Rio de Janeiro.
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