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Maria Ribeiro: “Deseja recomeçar?”

"Estamos no 13º mês da pandemia. Quero usar máscaras até nos textos. Projetar outras vidas, embaralhar lembranças", escreve a atriz e cronista

Por Maria Ribeiro Atualizado em 16 abr 2021, 11h38 - Publicado em 16 abr 2021, 07h00

Deseja recomeçar de onde parou?, me pergunta a TV. Quero responder de bate-pronto. Sim, vamos daqui, nada de retrovisor. Ou não, prefiro retornar, “voltar ao início”, como sugere a tela. Exter­nato de São Patrício. Tenho 7 anos e estou na aula de português. A professora distribui as fichas e anuncia o ditado. Escrevo meu nome, o nome da escola e a data de hoje. Meu nariz sangra logo nas primeiras linhas. “Aquela altura do campeonato, Ivo também achava improvável que seu time empatasse…” Não chego à última palavra. Fico parada olhando pra folha A4 ainda quente, esperando a turma se dar conta, a professora se dar conta, o menino de que eu gosto se dar conta. Gosto dessa suspensão. A desatenção antes da atenção. O domínio dos próximos instantes. O segredo.

Nunca foi nada demais isso de o meu nariz sangrar. Mas a cena era bonita, e eu gostava das marcas da personagem. O uniforme azul, agora manchado de vermelho, o laço no colarinho à la Alice no País das Maravilhas, a sala da diretoria, o protagonismo, o domínio da dramaturgia.

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Recomeçar de onde parei.

Mas quando exatamente?

Verifique se o elevador se encontra parado antes de entrar. Entramos no 13º mês da pandemia. Tiro a máscara e os sapatos enquanto tomo um pequeno banho do álcool 70 que coloquei no borrifador da Muji, aquela lojinha gênio de produtos essenciais. Lembro da autora japonesa da arrumação e das coisas que “dão alegria”, como ela diz. Sou tomada por uma pequena felicidade particular, um orgulho pela seleção precisa dos objetos do meu nécessaire, um sentimento quase concreto de encaixe, de autoestima.

“Estamos no 13º mês da pandemia. Quero usar máscaras até no texto. Projetar outras vidas, embaralhar lembranças”

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Ligo pra minha avó e coloco o aparelho no viva-voz enquanto lavo a caixa de Naldecon Noite. Teu nome surge na tela. Desligar e atender. Recusar e mandar uma mensagem. Colocar a ligação em espera. Deixo o borrifador cair. Nenhuma das opções sugeridas pelo telefone me conforta. Te mando uma ampulheta e um coração. O de copas, que é mais vermelho. Mando dois, pra não parecer romântica, e mando rápido, pra não parecer que pensei muito. A hierarquia dos emojis é uma literatura a ser desvendada. Você também. Tua covardia segue carimbada em cada um desses 123 dias. Em cada hora desses 123 dias. Tenho 41 anos e duas caixas intactas de ácido fólico na cabeceira da cama. O telefone toca de novo. Tenho vontade de desligar na sua cara, de te mandar ficar em Los Angeles de vez, de te avisar que a doença do seu pai é sua também, mas apenas silencio o aparelho e tiro o teu nome dos contatos. Talvez não tenha filhos, penso, pela décima vez no dia, enquanto ligo a TV e abro a torneira do tanque pra Miranda, minha gata-cachorra. Talvez não queira mesmo ser mãe.

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Use o assento para flutuar, ordena-me, imperativa, a poltrona da frente do avião. Tenho 37 anos e é a primeira vez que levanto voo sem pai. Não tem nada demais nisso — não ter pai aos 37 anos —, mas de repente acho todo o processo difícil: pegar a mala na fileira 22, desembarcar, não gostar de quem eu prometi gostar pro resto da vida, escolher o tipo de táxi, dizer não para todos os outros, conversar com o motorista, não conversar com o motorista, ter time, CPF, ser O positivo, natural do Rio de Janeiro. Quero que o meu nariz sangre pra que a Aninha me acomode no colchão da diretoria, ou pra que a aeromoça perceba, que, talvez, “seja bom, sim, ligar pra minha mãe pra ela me buscar um pouco antes”, mas ela apenas me oferece um caramelo de limão, o que recebo como sinal de grande afeto e acolhimento, embora eu não entenda os caramelos terem de ser outras coisas que não apenas caramelos — o que já é uma coisa incrível. Volte sempre, ela diz. “Obrigada”, repete mecanicamente. “Obrigada, você, Valéria”, penso em responder, olhando pro broche vermelho que ela exibe no vestido de perguntar: “Água ou refrigerante?”.

Será que foi aqui? Que parei?

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Estamos no 13º mês da pandemia. Quero usar máscaras até nos textos. Projetar outras vidas, embaralhar lembranças, ver meu nariz sangrando em cima da folha quente onde escrevo um ditado qualquer, sobre um país que um dia existiu, e que tinha o nome de uma árvore bonita, que, não por acaso, agora esqueci.

Deseja recomeçar de onde parou, Brasil?

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