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Tudo joia: nova leva de designers autorais e independentes valoriza ourivesaria

Do marketing pioneiro de Hans Stern, nos anos 1940, à geração que transforma latão, ouro e pedras em manifesto estético, setor mantém vocação histórica

Por Carolina Isabel Novaes
13 mar 2026, 08h19 •
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A designer Júlia Bueno levou os monogramas para pequenos anéis e pingentes: marca registrada  (./Divulgação)
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  • No final da década de 1940, o empresário Hans Stern (1922-2007), nascido na Alemanha, abriu uma joalheria na região portuária. À época, a estratégia de marketing era mostrar aos turistas que desembarcavam na então capital federal o processo de produção de anéis, brincos, pulseiras e colares. Com o passar do tempo, a carioca HStern se transformou num império e se espalhou pelo mundo. O Rio, tradicionalmente, é um lugar para se produzir e comprar joias. E uma leva de designers autorais e independentes tem agitado esse cenário que, segundo a Associação dos Joalheiros e Relojoeiros do Estado do Rio de Janeiro (Ajorio), comporta mais de 15 000 microempresários individuais. Em 2025, só o Centro de Referência em Joalheria da Firjan Senai formou cerca de 150 novos ourives e designers. “A cidade já era um polo criativo, mas as redes sociais democratizaram o acesso de novos talentos ao setor”, observa Nathalie Kuperman, fundadora e diretora do Instituto Elabora Social, que desenvolve programas de formação profissional em ourivesaria para mulheres.

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    Ana Porto: “Tento fugir do óbvio. Minhas argolas, correntes e pulseiras não são delicadinhas”, diz a profissional (./Divulgação)
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    Peças vistosas: ou bold, como Ana Porto chama suas obras (./Divulgação)

    Conhecida por criar pingentes e anéis de mindinho com monogramas, Júlia Bueno, fundadora da Buena, tem em sua cartela de clientes nomes como a apresentadora e chef de cozinha Bela Gil, a modelo Mari Weickert e a atriz Carolina Dieckmmann. Formada em design gráfico pela School of Visual Arts, de Nova York, Júlia começou a produzir na pandemia e atende apenas sob encomenda. “Nasceu no modo tentativa e erro. Eu desenhei o primeiro monograma, o ourives fez à mão e ficou horrível. Nem sabia que dava para usar uma máquina”, relembra a designer de 37 anos. Ela defende que os jovens e outras camadas da sociedade tenham uma relação mais próxima com os adornos. “No Brasil, a joia é algo herdado da mãe, da avó. Dá para mudar isso”, comenta Júlia, cujos anéis para o dedo mindinho, em ouro 18 quilates, partem de 3 490 reais.

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    Novo rumo: Camila Forti, ex-bancária, mudou de profissão em 2020, e privilegia formas femininas, orixás e o mar (./Divulgação)
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    Vertente mais orgânica: Camila gosta de representar orixás, o mar e a força da mulher através de detalhes do corpo feminino (./Divulgação)

    Também diminuta, oferecendo um catálogo enxuto e trabalhando por demanda, sem estoque, a Muggia Milimetro é cria da Muggia, marca das irmãs Ana e Juliana Suassuna que fez sucesso nos anos 2000. Ana fez curso de ourivesaria no Senai e se apaixonou pela técnica. “A carioca tem sensibilidade e desejo por algo único, com alma”, diz a criadora, que segue um processo artesanal. “Eu sou a designer, a equipe comercial e de branding”, brinca Ana Porto, que se dedica a peças vistosas ó ou bold, como ela mesmo chama. Formada em design de produto pela PUC-Rio, resolveu fazer o curso da prestigiada Lívia Canuto depois de anos no mercado da moda. “Tento fugir do óbvio. Minhas argolas e correntes não são delicadinhas”, acredita a profissional de 42 anos. “Basta um jeans, uma camiseta e um exemplar de Ana Porto para a mulher se empoderar”, acrescenta, fazendo a propaganda. Mariana Ximenes e Bianca Comparato já usaram uma delas. São vinte modelos por coleção, mas não há periodicidade definida para os lançamentos. “É um slow fashion de verdade. Existe um tempo de maturação, ninguém compra joia por impulso”, define. Instinto e intuição norteiam o trabalho de Camila Forti, que foi bancária por dezoito anos até se matricular num curso de ourivesaria no Centro. O ofício começou de vez em 2020. “Foi um caminho de autoconhecimento. A minha vertente é mais orgânica”, avalia Camila, que gosta de representar orixás, o mar e a força da mulher através de detalhes do corpo feminino. As atrizes Alice Carvalho e Zezé Motta aprovam.

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    Clandestina: “Ser carioca é combinar maximalismo e simplicidade”, destaca Amine Chalita, criadora da marca (./Divulgação)
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    Amine Chalita: obras de arte
    que coexistem com o corpo (./Divulgação)

    Já Amine Chalita, da Clandestina, considera sua produção “uma obra de arte que coexiste com o corpo.” Ela trabalhou no audiovisual, foi aderecista e, aos 6 anos de idade, fez cursinho de miçanga. Aos 23, lançou a própria marca. “O trabalho com a forja de metais foi hipnótico”, define a designer, hoje com 32 anos. Na mesma pegada vai Gabriel Republicano, 32, apaixonado por pedras preciosas desde criança e formado pela Haute École díArts et de Design, em Genebra, na Suíça. Incentivado por amigos como o artista plástico Tunga, ele passou a expor em galerias. “O esforço é encontrar a pedra certa para cada pessoa”, explica ele, focado em gemas brasileiras. Latão e alumínio banhados a ouro, lembra Nathalie Kuperman, são saídas para baratear a produção e encantar novos públicos. Tudo isso sem perder a bossa.

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    Foco em matéria-prima nacional: Gabriel Republicano gosta de expor suas criações em galerias de arte (./Divulgação)
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    Gemas brasileiras: ‘O esforço é encontrar a pedra certa para cada pessoa’, diz Republicano (./Divulgação)
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    Buena: clientes como Bela Gil e Carolina Dieckmmann (./Divulgação)
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