John Malkovich: “É tudo muito cínico”
Ícone do cinema e do teatro, o ator americano volta ao rio após quinze anos para apresentar espetáculo que dialoga com o histórico de ditadura brasileira
O palco minimalista joga luz sobre o trio que executa ao vivo uma trilha sonora eclética. Em cena, John Malkovich, um dos maiores nomes do cinema e do teatro, usa sua inconfundível voz para narrar a trajetória fictícia de um intelectual ligado à extrema-direita no Chile dos anos 1970.
The Infamous Ramírez Hoffman, que faz sessão única no domingo (29), no Theatro Municipal, a convite da produtora Dellarte, é inspirado no último capítulo do livro A Literatura Nazista na América, de Roberto Bolaño (1953- 2003). Publicada no Brasil em 2019 pela Companhia das Letras, a obra é a terceira do autor chileno e, neste recorte, investiga os limites entre criação artística, poder e violência em meio à ascensão do golpe militar no país andino.
+ Para receber VEJA Rio em casa, clique aqui
O espetáculo marca o retorno ao Brasil após quinze anos do artista indicado duas vezes ao Oscar, que construiu uma filmografia marcada por personagens complexos e atuações memoráveis em títulos como Ligações Perigosas (1988), Ratos e Homens (1992) e — é claro — Quero Ser John Malkovich (1999). Em entrevista por vídeo, o norte-americano de 72 anos nascido em Illinois, hoje com residência nos arredores de Boston, falou sobre a expectativa em trazer essa história para cidades latinas que viveram algo parecido.
“É um belo texto em prosa sobre acontecimentos horríveis que já aconteceram em muitos lugares do mundo e com frequência alarmante”, resume. O artista ainda falou sobre as cenas cortadas de Quarteto Fantástico: Primeiros Passos, que seria sua primeira incursão no universo Marvel, e confidenciou algo curioso: nunca foi um grande frequentador de cinema.
Como equilibra narrativa e partitura em cena? Foi um ano e meio junto à pianista Anastasya Terenkova, criando as melhores combinações entre texto e trilha sonora, num processo que basicamente consistiu em tentativas e erros. Não existe um método científico. Estreamos em 2023 e, desde então, foram feitas muitas revisões e mudanças — o que provavelmente continuará nos próximos meses. Uma obra ao vivo está sempre em progresso.
Qual o peso da música como linguagem cênica? No teatro, o impacto é mais direto. A música supera qualquer ideia, porque atinge o público de forma física e emocional. Entra nos ossos de uma forma que é impossível evitar.
Vocês vão além do gênero clássico. Como chegaram ao tango? Como muitos personagens eram sul-americanos, e Ramirez especificamente é chileno, pensamos em seguir essa linha. Com o andar do projeto, a trilha acabou ficando mais global, incorporando diferentes referências, como Bach, música clássica contemporânea e até Jim Morrison.
Os críticos apontam esse como o seu trabalho mais instigante. Por que? A Anastasia sugeriu incluirmos um prefácio no programa, pois muitas pessoas não captam o sentido. A peça fala sobre o preço das coisas, inclusive das ideologias e crenças, e a desumanidade que isso pode gerar. É um belo texto em prosa sobre acontecimentos absolutamente horríveis ó que neste caso ocorreram no Chile, mas que infelizmente já aconteceram em muitos lugares do mundo e com uma frequência alarmante.
Falar sobre o avanço da extrema-direita é uma forma de resistência? É falar sobre o significado de ser humano e como a sociedade responde aos seus problemas. Essa trama vem do passado e infelizmente ecoa no futuro. Bolaño descreve um dia de 1973 como algo que está desaparecendo irremediavelmente, mas será que não continuamos repetindo os mesmos erros, sem encarar as questões básicas além de dinheiro, poder, ideologia e política?
Os Estados Unidos foram por séculos considerados o país mais democrático. O que pensa sobre a perseguição a imigrantes? Já trabalhei em 47 países e, no ano passado, recusaram a minha entrada em Amsterdã, mesmo estando lá para trabalhar e ainda gerando empregos para outras pessoas. É assim que o mundo funciona. Os EUA têm um número gigantesco de imigrantes e precisam decidir se são um país de leis ou não. Eu mesmo não voto, porque não acredito em política. É tudo muito cínico.
Teme os efeitos das posições radicais de Donald Trump no cenário global? Tenho uma visão da história a longo prazo. Em 2000, um jornal que admirava publicou um artigo dizendo que ninguém mais veria neve no futuro. Também se dizia que o mundo acabaria em doze anos por causa do aquecimento global e já se passou mais do que isso. É o tempo que revela essas coisas. Não sou historiador, nem defendo um lado em detrimento de outro. Sou apenas uma pessoa sem crenças, e provavelmente irrito todos por não acreditar nas mesmas coisas que eles.
Em outra discussão levantada pelo espetáculo, a arte pode ser valorizada acima da ética? A arte talvez; os artistas, não. Quando você coloca algo no espaço público, está exercendo um privilégio. Ao fazer isso, é preciso esperar todo tipo de reação — especialmente quando se expõem ideias políticas que podem ser criticadas por vários lados. Se a arte é importante, considero suficiente.
Você teve sua participação cortada de Quarteto Fantástico: Primeiros Passos. Teremos outra possibilidade de vê-lo no universo Marvel? Gosto do Matt Shakman (diretor), que é um velho amigo e com quem já trabalhei antes, mas o modo como esse tipo de flme é feito é bastante caótico. Quase tudo é gravado em frente a um fundo verde. Eu fiz o melhor que pude, e depois refiz tudo apenas com alguém lendo as falas, sem mais ninguém presente. Sinceramente, não me imagino fazendo isso de novo.
Acompanha a projeção internacional do cinema brasileiro? Não muito. Estou sempre ocupado e nunca fui um grande frequentador de cinema. Hoje, quase não tenho tempo para ler, algo que antes fazia tanto.
Como está a expectativa para voltar ao Rio após quinze anos? Estou ansioso para ver e escutar a reação de uma plateia que, de certa forma, viveu essa história profundamente. Vamos passar por Santiago, Rio, São Paulo e Buenos Aires. A região é um epicentro para esse tipo de obra devido à instabilidade política, então acredito que teremos muito a aprender com o público.





