Invasão Argentina: ‘hermanos’ dominam o turismo no Rio de Janeiro
Camisas listradas de azul-celeste e branco tomam conta da cena turística deste verão, liderando o ranking de estrangeiros na cidade
“Adelante, adelante!”, orientava uma funcionária do Parque Bondinho no cair da tarde de uma quinta-feira de janeiro. O Morro da Urca estava apinhado de gente para admirar o pôr do sol ao som da DJ Bruna Strait, e o idioma predominante no icônico ponto turístico era o espanhol, pronunciado com autêntico sotaque portenho por uma animada turma de argentinos.
Não há cartão-postal do Rio em que eles não se façam hoje presentes, e de forma inconfundível — da Praça Mauá à Praia da Barra. A facilidade de um voo direto de pouco mais de três horas, agora ofertado por diversas companhias, e o câmbio para lá de favorável são grandes motores para a maciça circulação de camisetas azul-celeste e brancas nestas praias. “As paisagens são magníficas, não há nada parecido em nosso país”, avalia a profissional de marketing Luna Bectuchi, que curtia o pôr do sol no Morro da Urca com o namorado, o economista Juan Cruz Esteban, ambos de 25 anos.
O casal alugou um apartamento no Leblon e aproveitou para conhecer restaurantes como o japonês San e o italiano Sìsì Cucina. Dos 2,2 milhões de visitantes estrangeiros que visitaram o estado em 2025 — um recorde, com aumento de 44% em relação a 2019, de acordo com a Embratur —, exatos 787 229 eram argentinos, ou um de cada três.
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Os hermanos, como se convencionou chamar os vizinhos da nação com a qual o Brasil nutre estreitos laços, mas também rivalidades, especialmente quando a bola rola, lideram o ranking, seguidos por chilenos e americanos.
Segundo a concessionária RioGaleão, foram registrados no ano passado mais de 12 000 voos da Argentina para a Cidade Maravilhosa operados por sete companhias, um crescimento de 45% em doze meses.
“Nos últimos seis anos, observamos um avanço de 94% do fluxo de argentinos no estado, o que é fruto de trabalho. Participamos de feiras de turismo em cidades-chave, como Córdoba, Mendoza e Rosário, para obter esse resultado”, explica o secretário estadual de Turismo, Gustavo Tutuca, projetando mais 20% deles por aqui em 2026. “Em setembro, a Feira Internacional de Turismo da América Latina, em Buenos Aires, contou com uma roda-gigante que destacava nossos principais atrativos. Foi a maior ativação já feita por um estado brasileiro no exterior”, lembra o secretário.
Enquanto o Rio contabiliza recordes no setor do turismo, na Argentina as vacas andam magras. De acordo com o Indec, órgão oficial de estatísticas de lá, o país registrou em 2025 saldo negativo de 6,4 milhões de turistas, o pior resultado da história.
Pudera: no ano anterior, a política econômica do presidente Javier Milei, que se autointitula anarcocapitalista, levou à menor desvalorização do peso frente ao dólar, tornando mais atraentes as viagens para o exterior em detrimento de destinos internos.
“A primeira coisa que o argentino faz quando recebe salário é comprar dólar, porque a confiança no sistema monetário do país é baixa”, afirma Caio Ferrari, professor do departamento de análises econômicas da Uerj.
“Com o fim do câmbio paralelo, em 2024, a Argentina ficou cara para seus cidadãos”, acrescenta o economista Fabio Giambiagi, do Instituto Brasileiro de Economia da FGV (filho de argentinos e criado por lá). “Tem muito argentino aproveitando para combinar turismo e compras no Rio. Vale mais a pena adquirir um tênis ou uma bolsa num shopping carioca do que em Buenos Aires”, diz André Coelho, gerente-executivo da FGV Projetos e especialista em turismo internacional.
Em rápida comparação, o índice Big Mac aponta que, em 2025, o sanduíche custava cerca de 6,95 dólares na Argentina (o segundo mais caro no mundo, aliás), enquanto no Brasil o valor era de 4,03 dólares, uma significativa diferença de 72,4%.
Não é a primeira vez que o Rio recebe uma onda de hermanos, fenômeno que vem e vai ao longo da história. Em 1964, a estrela francesa Brigitte Bardot (1934-2025) passou uma temporada em Búzios e alçou o balneário a destino desejável, projetando para o mundo sua idílica paisagem.
Na década seguinte, argentinos abastados encontraram na cidade um refúgio, escapando da sombria ditadura argentina. Não à toa foram brotando em meio ao paraíso ainda pouco explorado pousadas e restaurantes de acento portenho. “Fui passar um verão e acabei ficando oito anos. A qualidade de vida era excelente. No Rio, tudo é um pouco mais caro”, conta Gonzalo Vidal, chef argentino que cravou seu nome naquelas areias à frente do 74 Restaurant, do hotel Casas Brancas.
Em outubro, ele abriu o Gonza, no Horto. Atraídos por propaganda de amigos e parentes, os colegas de faculdade Maitena Vega, Giuliana Timpanaro e Facundo Sosa, jovens estudantes de contabilidade que moram em Mendoza, ficaram seis dias em Búzios e dois no Rio.
Conheceram praias como as de Geribá e da Ferradura, fizeram passeio de barco e de buggy e desbravaram a cena noturna. “A água do mar é mais clara e menos fria, e a cidade pareceu mais tranquila e segura que o Rio”, compara Sosa.
Ao longo dos tempos, a Zona Sul vem sendo a região em que os argentinos mais se hospedam. Amigas de toda a vida, a designer gráfica Jacinta, 34, e a consultora financeira Catalina, 32, moradoras de Buenos Aires, escolheram um hotel no Leblon depois de fazer conta: uma viagem a Ushuaia, no sul da Argentina, custa o dobro de uma estadia em solo carioca. “Foi uma grata surpresa, não sabia que existia um lugar tão lindo como este no universo”, derretia-se Jacinta bebericando um chope no abarrotado Belmonte da Dias Ferreira.
O novo bairro que faz bater o coração dos hermanos, porém, é a Barra da Tijuca, um respiro à agitação de outras bandas. “Sempre ouvimos que o Rio era perigoso, mas a impressão é outra. À noite caminhamos pela orla e jantamos na Olegário Maciel. Não nos sentimos inseguros”, relatou a estilista Candela Fontana, 36, grávida de cinco meses, aproveitando a cidade ao lado do marido, o programador Miguel Darsie, 38, pela quarta vez.
“A Barra tem praia, shoppings, cinemas, teatros e ótimos restaurantes. Outra facilidade é que apps como Mercado Pago permitem que os argentinos usem Pix”, destaca Vitor Almeida, gerente de marketing da rede Windsor Hotéis, com quatro unidades no bairro.
Hotéis lotados, bares e restaurantes com movimento intenso e a alta procura por passeios são exemplos do impacto econômico dos turistas latinos, que não visitam apenas a capital. Em Arraial do Cabo, Cabo Frio, Angra dos Reis, Paraty e Ilha Grande, além de Búzios, ouve-se o clássico “portunhol” a cada esquina. “Conheci um casal de seguidores que comprou um imóvel no Rio porque vem sempre para cá. O que encarece é a passagem”, pondera o geógrafo argentino Carlos Velazco, que administra, junto à companheira, Nati Cúneo, a página do Instagram Rio Para Argentinos, com preciosas dicas em espanhol. Velazco lembra que o Brazilcore também conquista adeptos. “Todo mundo quer uma camisa e um chinelo com a bandeirinha verde e amarela”, garante.
A convivência, porém, não está livre de tensões de matizes variados. Em 14 de janeiro, a advogada argentina Agostina Paez, 29, teve o passaporte apreendido e passou a usar tornozeleira eletrônica após imitar um macaco para um funcionário negro de um bar em Ipanema, alegando erro na conta.
Depois de toda a repercussão do caso, ela afirmou não saber que o gesto racista é considerado um crime por aqui. Episódio triste, sem dúvida, embora não seja nem de longe a regra.
Os argentinos que desembarcam no Rio são diversos, mas certos hábitos e características os tornam inconfundíveis. Grupos de amigos, casais e famílias são mais frequentes que os viajantes solitários, por exemplo.
O modelo da viagem varia. “Há os que optam por hotéis de luxo e aqueles que alugam apartamento, vão ao mercado e cozinham suas próprias refeições”, relata Alfredo Lopes, presidente da HotéisRIO, sindicato dos meios de hospedagem. “Argentinos têm fama de sisudos, mas vejo que eles incorporam o nosso espírito descontraído e até se apaixonam pelo Flamengo”, brinca Lopes.
“Tem sido muito comum recebermos homens e mulheres de 28 a 32 anos que vêm ao Rio pela primeira vez”, detalha Bia Chaves, gerente-geral do hostel Jo&Joe, no Cosme Velho. “Os hóspedes costumam pedir dicas de programação, e as mais escolhidas são os passeios de barco e ao Cristo Redentor. O pessoal vai embora com muita história para contar”, diz Bia.
Esse constante vem e vai de visitantes já se traduz em números bastante favoráveis ao setor do turismo local. A rede Promenade viu, no último ano, o fluxo de argentinos subir 62% no Link Stay, que fica na Barra Olímpica. Já o Grand Hyatt, na Barra, registrou uma escalada de 19% nas reservas de argentinos.
Por lá, eles só perdem para os americanos. Dados do órgão Visit Rio mostram que o calendário de eventos de 2026 conta com setenta atividades a cada mês, do agitado Carnaval de rua, que já começou, ao Rock in Rio, em setembro, incluindo a estreia do Rio Fashion Week, em abril, e o megashow internacional na Praia de Copacabana, no mês seguinte.
O desafio agora é transformar o recorde de visitantes e o bom momento em fenômeno sustentável, sem comprometer o cotidiano de quem vive na cidade. “É a minha segunda vez aqui”, diz o estudante de economia Joaquín Lascano, 22 anos, que ficou cinco dias hospedado no Rio Othon Palace, em Copacabana, com um grupo de nove amigos. E, como tantos outros que já compõem a paisagem carioca, sim, ele quer voltar.
Eles estão aqui
Países que mais enviaram turistas ao Rio em 2025
1 Argentina 787 229
2 Chile 359 705
3 Estados Unidos 214 795
4 Uruguai 100 476
5 França 86 806
Sol, mate e portunhol
O perfil e os hábitos dos hermanos no Rio
Muitos jovens casais e grupos de amigos em primeira viagem sem os pais para o exterior.
No roteiro, a Pedra do Sal, os baixos Gávea e Leblon e restaurantes badalados da Zona Sul.
Homens e mulheres entre 20 e 38 anos, a maior parte vinda de Buenos Aires, mas também de cidades próximas como Córdoba, Rosário e Mendoza.
Além de dólar e cartão de crédito, usam aplicativos como Mercado Pago, Burbank e DolarApp para efetuar pagamentos no Pix
A maior parte não se planejou financeiramente para a viagem, já que o câmbio amigável permite uma decisão em cima da hora.
Onipresentes na Barra — da Praia do Pepê a bares e restaurantes da Olegário Maciel.
Não deixam de consumir chimarrão mesmo com elevadas temperaturas.





