Férias na cidade: como são os “hotéis com cara de casa”
Hospedagens acolhedoras, instaladas em antigas residências, se tornam refúgios urbanos para os próprios cariocas
Obras de arte, objetos de família e móveis carregados de história criam a atmosfera dos hotéis “com cara de casa”, modelo de hospedagem que ganha força no Rio. Instalados em antigas residências reformadas, prédios baixos, vilas ou mansões convertidas em refúgios, esses endereços combinam ambiente acolhedor e identidade própria, distanciando-se da lógica dos cinco-estrelas tradicionais e seus imensos lobbies. “A personalização deixou de ser um diferencial para se tornar expectativa do cliente. Grupos internacionais têm incorporado elementos antes associados a hotéis-butique”, atesta Alfredo Lopes, presidente do Hotéis Rio, sindicato dos meios de hospedagem. “O Jo&Joe é uma grande open house, com o conforto de um hotel e uma piscina perfeita”, define Bia Chaves, gerente-geral do espaço, que pertence à gigante Accor, distribuído por seis edifícios históricos tombados no Largo do Boticário.
Tirar uns dias de férias na própria cidade — o “staycation” — surgiu por aqui durante a pandemia e jamais arrefeceu. “O carioca passou a se deslocar dentro do território, sem a necessidade de enfrentar longos trajetos para descansar”, destaca a secretária municipal de Turismo, Daniela Maia. Dados do metabuscador Kayak indicam que, embora os hotéis tradicionais sigam liderando as buscas, formatos menores ganham relevância. Estudos da Harus e da rede Hyatt mostram o crescimento do interesse do público por ambientes exclusivos, glamping (acampamento com glamour), minicasas e hotéis-butique. “O luxo, hoje, está menos ligado à ostentação e mais às conexões genuínas”, pontua Marcelo Freixo, presidente da Embratur, destacando a hospitalidade brasileira como diferencial competitivo. “A presença de hóspedes de outros bairros cresceu cerca de 30% depois da pandemia, impulsionada pelo desejo de bem-estar, celebrações íntimas e pausas reais na rotina”, afirma Daniel Gorin, sócio do grupo City&Sea, responsável pelos hotéis Arpoador e Ipanema Inn.
Espaços residenciais redefinem a cartografia da hotelaria urbana. Com apenas sete quartos e cercado por verde, o Urca Hotel é decorado por obras de artistas nacionais, todas à venda, e preserva elementos originais, como o piso de taco antigo e as luminárias da sala de estar, onde é servido o café da manhã. “Na pandemia, minha casa virou também escritório. Comecei a receber amigos assim que flexibilizaram as regras e percebi que esse era o destino dela”, conta o cenógrafo e produtor cultural Ruslan Alastair Silva. Outro refúgio é a Casa Milagre, no Cosme Velho, com natureza exuberante aos pés do Cristo Redentor. “São apenas quatro acomodações com arquitetura inspirada nas décadas de 1960 e 1970. Meu sonho era transformar acolhimento em experiência”, comenta Cidoca Nogueira, que abriu o local em 2023. Moradora da Barra, a criadora de conteúdo Thereza Chammas escolheu o Santa Teresa MGallery — antiga fazenda de café — para uma rápida e providencial escapada romântica com o marido. “Foram só dois dias, mas me senti revigorada, combinando spa, piscina e boa gastronomia”, ressalta.
Bairro bucólico e artístico, com clima de interior, Santa Teresa convida a desacelerar. “No Carnaval, Halloween e Réveillon, a porcentagem de cariocas hospedados aumenta”, observa Sophie Barbara, gerente-geral do MGallery. Já o Villa Paranaguá, restaurado ao longo de seis anos por Joachim e Laís Beuscher em uma residência do fim do século XIX, dispõe de dez suítes e ambientes amplos que evocam as maisons d’hôtes francesas. No Vila Santa Teresa, espraiado por 80 000 metros quadrados com vista para o Pão de Açúcar, celebrações se tornam experiências únicas, a exemplo do aniversário de 50 anos da endocrinologista Isabela Bussade, em dezembro. Ela aproveitou para passar o fim de semana com a família na propriedade. “O cotidiano moderno não respeita a nossa fisiologia. Rituais simples como esse protegem a saúde mental e hormonal”, explica a médica, moradora do Leblon. “Mudar de cenário reduz o estresse crônico, melhora o sono e estreita vínculos, numa espécie de ‘higiene emocional”, ensina o psicanalista Lucas Scudeler. O descanso de corpo e mente estão a poucos quilômetros de distância.
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Sem sair da cidade
Dicas de hospedagens para se desconectar da rotina
Vila Santa Teresa. Rua Almirante Alexandrino, 2305, Santa Teresa. Diárias a partir de R$ 3 375,02. Reservas pelo 2051- 1905 e vilasantateresa.com.
Villa Paranaguá. Rua Visconde de Paranaguá, 71, Santa Teresa. Diárias a partir de R$ 1 773,00. 3596-7020 ou villaparanagua.com.
Arpoador. Rua Francisco Otaviano, 177, Arpoador. Diárias a partir de R$ 1 725,57. 2529-1000 ou hotelarpoador.com.
Casa Milagre. Rua Tobias do Amaral, 88, Cosme Velho. Diárias a partir de R$ 644,19 (mínimo de duas noites). milagre.casa.
Jo&Joe. Beco do Boticário, 32, Cosme Velho. Diárias a partir de R$ 332,00. 3235-2600 ou joandjoe.com/rio.
Urca Hotel. Rua Ramon Franco, 67, Urca. Diárias a partir de R$ 350,00 (mínimo de duas noites). 97739-5202 ou urcahotel.
Santa Teresa MGallery. Rua Almirante Alexandrino, 660, Santa Teresa. Diárias a partir de R$ 2 081,00. 3380-0200 e santateresahotelrio.com.
*Preço da diária para duas pessoas, com café da manhã, entre 3 e 5 de fevereiro, pelo site oficial de cada hospedagem, Booking e Airbnb.





