Crescimento das fanfarras dita o novo compasso do Carnaval carioca
Onipresentes nas ruas, grupos instrumentais renovam o ritmo da folia com trombones, trompetes e saxofones que conquistam foliões
O inconfundível som dos metais e da percussão não deixa dúvida: a folia já começou no Rio, e com um sopro diferente no ar. Desde os primeiros minutos do ano, com o Cortejo da Virada no Réveillon e a Abertura do Carnaval Não Oficial no primeiro domingo de janeiro, dezenas de blocos espalham a energia momesca pelas ruas a cada fim de semana.
Em 2026, 805 cortejos pediram autorização à prefeitura — um recorde –, 462 foram oficializados e há muitos outros não oficiais, além dos blocos espontâneos, que improvisam o repertório em torno de assuntos que dão calor ao noticiário e só saem uma vez, como o Abandonados na Trilha e o A Gente Não É Secreto.
Mas neste ano é o crescimento das fanfarras que dita o novo compasso da festa: elas combinam trombones, trompetes, tubas, saxofones e percussão (sem vocais), espalhando cadência e vibração únicas.
Tendo inspiração nas bandas militares francesas do início do século XIX, essas formações ganharam representantes a partir de blocos já tradicionais, como a Orquestra Voadora, cujas oficinas prepararam alunos que hoje criam seus próprios cordões.
Saxofonista e um dos fundadores da Voadora, que desfila na terça-feira de Carnaval e prevê arrastar 100 000 foliões no Aterro do Flamengo, André Ramos, 44 anos, celebra a renovação: “Acho que o avanço no número de blocos grandes intensifica a procura por novas manifestações”, avalia.
Ele próprio estreia a Elefante Orquestra, em 7 de fevereiro, com repertório que vai de João Gomes a Dona Ivone Lara (1921-2018). De samba e piseiro a Beatles e Beyoncé, passando por música de videogame e pagode dos anos 1990, tudo pode integrar a setlist das fanfarras.
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No cenário atual, chama a atenção uma onda de nostalgia, com cordões dedicados ao axé antigo, e diversos outros ritmos e artistas que estiveram em alta dos anos 2000 para trás, a exemplo do Love Songs, que vem desfilando de 2022 para cá e retorna às ruas no sábado de Carnaval para a exibição oficial.
Entre os que apostam em vocais e não dispõem de metais, o DigDigJoy estreou em 2025 celebrando a obra de Sandy & Junior. Num mundo em constante transformação e repleto de incertezas, voltar olhos e ouvidos para o que é conhecido traz conforto e sensação de segurança.
Além disso, regravações, remixes e a inclusão de sucessos de décadas passadas em trilha sonora de séries ou filmes atuais apresentam relíquias às novas gerações. “A faixa etária dos foliões vai de jovens a pessoas bem mais velhas”, aponta Miguel Maron, 45 anos, um dos criadores do Summer Eletro Bloco, que debutou em 2024 reproduzindo o eletrônico dos anos 2000 e de tempos pregressos com a ajuda de trombones, tubas e saxofones.
Outra faceta importante das fanfarras é que, em geral, não contam somente com os músicos, mas oferecem uma gama de talentos de variadas modalidades artísticas, como dançarinos e artistas circenses — com destaque para os pernaltas, mas, também, cuspidores de fogo e acrobatas, formando verdadeiras pirâmides humanas.
Descortinam-se assim mais possibilidades para quem quer participar para valer da festa. “Essa diversidade de linguagens performáticas é típica da Sapucaí, mas vem se intensificando no Carnaval de rua. Atualmente, os blocos oferecem oficinas para além da percussão e do sopro”, pontua Victor Belart, professor de jornalismo da Uerj, autor do livro Cidade Pirata: Carnaval de Rua, Coletivos Culturais e o Centro do Rio de Janeiro (Ed. Letramento) e à frente do perfil do Instagram Cidade Pirata, que documenta e estimula manifestações artísticas.
A efervescência dos metais não se limita à folia, mas tem impacto na cidade para além dela. As fanfarras foram importantes, por exemplo, para a revitalização da Praça Paris, na Glória. Outrora abandonado, o espaço tornou-se o QG de ensaio para diversos grupos.
A iniciativa, verdade, traz reclamações de moradores, e a prefeitura tentou até proibir os ensaios por lá, mas a reabilitação da praça que reproduz o traçado francês é inegável.
Também o Centro, que há anos sofre esvaziamento, ganha nova vida no pré-Carnaval e durante o feriado, atraindo centenas de milhares de pessoas à região — que, aliás, ainda recebe os blocos de arrasto, como os tradicionais Cacique de Ramos e Bafo da Onça, além dos megablocos, que vão do veterano Cordão da Bola Preta ao SeráQAbre?, de música pop, responsável pela primeira participação de Ivete Sangalo em um trio elétrico carioca.
“No Brasil, grande parte dos eventos tem até hoje protagonismo masculino. Lidamos com um público atento, e diversidade é um ponto essencial”, esclarece Flávio Saturnino, que fundou o bloco em 2023 ao lado de Sandro Souza. De acordo com a Riotur, estima-se que o Carnaval de 2025 tenha movimentado 5,7 bilhões de reais e o quinhão da folia de rua corresponde à quase 40% do bolo.
“A gente movimenta à beça a economia, mas a maioria dos blocos luta para sobreviver”, reclama Rodrigo Nunes de Araújo, o Digão, 33 anos, criador e saxofonista do novato Com Todo Rexpeito (com x mesmo), focado em hits internacionais (veja outros blocos estreantes no box abaixo).
Embora o Carnaval do asfalto seja apregoado como uma festa democrática, ainda é preciso superar uma série de desafios para que seja, de fato, para todos. “Nas oficinas, tem bastante mulher, mas ainda é muito difícil ver regências femininas”, enfatiza Stephanie Savalla, 35, vocalista e uma das fundadoras do 8 & 80.
Percussionista de seis cortejos que organiza com o namorado, o músico Chico Chocalho, 35, ela estreia como maestrina no ClackBum, com uma formação inovadora de surdos e leques.
Prestes a estrear o MonaBloco, a gaúcha Amanda Campo, 35, criadora, regente do sopro e trompetista do cortejo, sentiu a necessidade de ter um espaço exclusivo à comunidade LGBTQIA+. “Eu participo de diversos cortejos extremamente brancos e masculinos. Adoro meus amigos, mas no Calcinhas Bélicas e no Mona fico tranquila por não precisar lidar com situações corriqueiras de machismo”, explica, direta.
O cenário pós-pandemia, além de consolidar a nostalgia como uma tendência, trouxe à baila outra questão que vem influenciando os festejos: as redes sociais. As imagens dos cortejos espalhadas pelo Instagram e afins geram desejo. “Quem toca anda menos apertado, ganha bebida dos foliões. Há um certo status social”, diz Pedro Themoteo, 42, integrante do Summer Eletro Bloco.
O fato de que um dos principais passaportes para esses grupos sejam as oficinas também acaba contribuindo para a dificuldade de expansão das fanfarras para além do eixo Zona Sul-Centro e para a falta de diversidade racial nos blocos. “O instrumento de sopro é caro, precisa de dinheiro para participar dos ensaios. Isso já exclui algumas pessoas”, lamenta Luiz Paulo Garcia Bittencourt, 34, saxofonista e organizador do Com Todo Rexpeito.
“É um problema estrutural, que só vai ser resolvido com política pública”, acrescenta. Os bastidores da festa, como se vê, reservam tópicos sérios, que demandam reflexão antes, durante e depois da farra. Mas o Carnaval de rua não se rende: ele não cansa de se reinventar e de transformar cada esquina em palco de uma celebração que também renova o Rio.
Novatos Na pista
Cinco fanfarras estreantes no Carnaval 2026
MonaBloco. O cortejo é formado exclusivamente por pessoas LGBTQIAP+ e aposta em músicas de ídolos da comunidade, como Lady Gaga, Beyoncé e Ludmilla. Coreto Modernista, Parque do Flamengo. Sáb. (31), horário a ser divulgado.
Bloco das Maravilhosas. O cordão aposta no protagonismo feminino, trazendo homenagens às cantoras Preta Gil (1974-2025) e Rita Lee (1947-2023), além de outras músicas celebrando as mulheres. Calçadão de Ipanema, Posto 10 (altura da Rua Aníbal de Mendonça). Dom. (1º), 8h/12h.
Bloco do J. O tema é a boa malandragem, e o sambista JP Silva e seus companheiros apostam em sucessos de nomes como Zeca Pagodinho, Xande de Pilares, Tim Maia e Jorge Ben Jor, entre outros. Largo São Francisco de Paula, 49, Centro. 15 de fevereiro, 7h.
Com Todo Rexpeito. Privilegiando hits internacionais, de What’s Up, do 4 Non Blondes, a Livin’ la Vida Loca, de Ricky Martin, o grupo já vem aquecendo as turbinas para o desfile principal. Centro. 14 de fevereiro, à tarde.
Elefante Orquestra. O bloco da banda Elefante Brass, com fundadores da Orquestra Voadora, toca de João Gomes a Dona Ivone Lara. Avenida Graça Aranha, em frente ao Palácio Capanema, Centro. 7 de fevereiro, horário a ser divulgado.
Para muitos
Megablocos vão percorrer o Circuito Preta Gil (Rua Primeiro de Março, Centro)
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Bloco da Gold. Liderado pelo baiano Léo Santana, estreou no Carnaval carioca em 2024, com sucessos do artista e seus convidados. 31 de janeiro, 7h.
Cordão da Bola Preta. Criado em 1918, é o mais antigo exemplar carioca em atividade. Possui uma famosa marchinha própria e aposta em repertório clássico de folia momesca. 14 de fevereiro, 7h.
Monobloco. O cantor Pedro Luís é um dos fundadores e arrasta o público com sucessos da música brasileira em roupagem carnavalesca há 26 anos. Sai tradicionalmente no domingo pós-folia. 22 de fevereiro, 17h.
Bloco da Anitta. Criado como Bloco das Poderosas em 2016, o cortejo da cantora sacode o público com sucessos próprios e hits de Carnaval, que fazem todo mundo cantar junto. 21 de fevereiro, 7h.
Bloco da Favorita. O cordão, que saiu pela primeira vez em 2013, surgiu a partir do concorrido Baile da Favorita e embala os foliões ao som do funk. 7 de fevereiro, 7h.
SeráQAbre?. Voltado para o pop, o cortejo fundado pelo baiano Flávio Saturnino e o carioca Sandro Souza marca a estreia de Ivete Sangalo na folia carioca. 1º de fevereiro, 7h.
Fervo da Lud. A cantora Ludmilla alegra uma multidão desde 2018, com hits de sua carreira, sucessos do funk e do pop e convidados. 17 de fevereiro, 7h.
Cordão do Boitatá. Fundado em 1996, o cortejo, alçado agora a megabloco, mistura repertório próprio e clássicos de festas tradicionais brasileiras, como marchinhas, frevo e samba. 8 de fevereiro, 7h.
Os impressionantes números da folia nas ruas
805 blocos com pedido de autorização
462 cortejos já com o aval da prefeitura
235 desfiles marcados no eixo Centro-Zona Sul
2 bilhões de reais movimentados pelos blocos em 2025





