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Elegância monumental: Rio redescobre esplendor do art déco

Capital do estilo na América Latina, cidade celebra centenária corrente francesa com roteiro arquitetônico que tem o Cristo como símbolo

Por Elisa Torres
17 out 2025, 07h20 • Atualizado em 17 out 2025, 11h15
Cristo Redentor é o maior monumento art déco do mundo
Inaugurado em 1931, Cristo Redentor é o maior monumento do mundo no estilo (Rafael Catarcione/Prefeitura do Rio de Janeiro)
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  • Encarapitada no alto do Corcovado há exatos 94 anos, uma das sete maravilhas do mundo moderno reina soberana sobre a paisagem carioca, avistada dos mais diversos pontos da cidade.  Não por acaso: o Cristo Redentor tem 38 metros de altura — 30 da escultura e 8 do pedestal —, o equivalente a um prédio de treze andares. Feita de concreto armado e pedra-sabão, a estátua é mais do que um cartão-postal: é o símbolo-mor nos trópicos do art déco, movimento modernista que nasceu na França, no cenário pós-Primeira Guerra, e se espalhou mundo afora a partir dos anos 1920. O Rio de Janeiro abriga o maior conjunto de edificações desta escola na América Latina — um patrimônio monumental e, por muito tempo, subestimado.  “Estamos redescobrindo o legado art déco e popularizando esse conhecimento”, afirma Wolney Unes, diretor técnico da Elysium Sociedade Cultural, à frente de um circuito de debates sobre o tema que estreou no Rio na última terça (14) e seguirá para Salvador, São Paulo e Goiânia.

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    Mais do que um estilo arquitetônico, o art déco promoveu uma revolução do olhar. Sua influência ultrapassou fachadas e vitrais, adentrando a moda, o cinema e até o design industrial com suas linhas geométricas e proporções harmônicas, que sintetizam modernidade e elegância ao mesmo tempo.

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    O termo se origina das arts décoratifs, abreviação da Exposição Internacional de Artes Decorativas e Industriais Modernas, realizada em Paris, em 1925 — o evento que consagrou a capital francesa como epicentro do design naquela época. A mostra apresentou pavilhões e projetos de nomes do quilate de Le Corbusier (1887-1965) e Jacques-Émile Ruhlmann (1879-1933) e selou a inédita aliança entre arte e indústria.

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    “Nunca houve um diálogo tão sofisticado na história das artes decorativas”, avalia o pesquisador Márcio Roiter, fundador do Instituto Art Déco Brasil.

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    Ícones do modernismo brasileiro, Tarsila do Amaral (1886-1973) e Oswald de Andrade (1890-1954) estavam por lá e compraram parte da mobília de sua casa, na paulistana Rua Barão de Piracicaba, na própria exposição, nas proximidades do Rio Sena. O requinte europeu começava a ganhar, então, sotaque tropical.

     

    Do nascimento à consagração

    Uma breve história do centenário do movimento que aportou no Rio

    • 1910 – 1920
      Surgimento na França

     

    Folheto Exposição de Artes Decorativas e Industriais Paris 1925
    Bilhete: a Exposição de Artes Decorativas e Industriais foi realizada em Paris, em 1925 (Acervo Marcio Roiter/Divulgação)
    • 1925
      O movimento é lançado oficialmente na Exposição de Artes Decorativas e Industriais Modernas, em Paris
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    PRIMEIROS PRÉDIOS a noite credito tânia rêgo agência brasil
    Edifício A Noite: prédio que foi o primeiro arranha-céu da America Latina é alvo de projeto retrofit (Tânia Rêgo/Agência Brasil)
    • 1928 – 1932
      Erguem-se os primeiros edifícios art déco no Rio, entre eles Itaoca e A Noite
    ERA VARGAS antigo ministério da fazenda credito Agência Gov divulgacao
    Esplanada do Castelo: prédio antigo do Ministério da Fazenda é um dos exemplares do estilo (Agência Gov/Divulgação)
    • A tendência alcança seu auge no Brasil, na Era Vargas
    • 2000 – hoje
      Revitalizações, retrofits, restauros e redescobertas exaltam legado do estilo na cidade

     

    marcio roiter credito dani dacorso
    Guardião da história: o pesquisador Márcio Roiter diz que poucos países podem ostentar um art déco com sotaque próprio como o Brasil (Daniela Dacorso/Divulgação)
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    Foi nessa mesma década que o art déco aportou no Rio e se espalhou com entusiasmo e originalidade nestas praias. Até meados dos anos 1950, o estilo moldou cinemas, clubes, hotéis e edifícios residenciais e públicos, tornando-se sinônimo de modernidade casada à ideia da monumentalidade. Durante a Era Vargas, de 1930 a 1945, tal estética se consolidou como expressão de um Brasil que se reinventava, entre o progresso urbano e o projeto nacionalista.

    A Avenida Presidente Antônio Carlos, no Centro, ainda guarda a imponência desses tempos, com as sedes dos antigos ministérios da Fazenda, do Trabalho e da Indústria e Comércio erguidas após o desmonte do Morro do Castelo. “O estilo se consolidou como expressão de um momento histórico, ligado ao imaginário de progresso e ao afã nacionalista de Vargas. O Rio, a capital federal, foi a vitrine desse processo”, explica o historiador Carlos Pinto, da Uerj. “É interessante também perceber o diálogo do movimento com a brasilidade, visível em vitrais, escadarias e fachadas ornamentadas com motivos geométricos e detalhes em bronze ou alumínio”, ressalta. Em solo carioca, o art déco se ancorava no tripé calor, curvas e alma.

     

    Coisa mais linda

    Mais oito prédios e espaços art déco para admirar na cidade

     

    Antiga Casa Daniel
    Antiga Casa Daniel: vitral do sobrado é atribuído a J. Carlos (Daniela Dacorso/Divulgação)
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    • Antiga Casa Daniel — Rua Gonçalves Dias, 13, Centro.
      O imóvel de dois pavimentos foi erguido em meados do século XIX e reconstruído em 1908. Posteriormente, foi tombado e hoje abriga uma famosa marca de calçados. O belo vitral do sobrado é atribuído a J. Carlos (1884–1950), embora não haja comprovação documental.
    Edifício Novo Mundo
    Novo Mundo, na Presidente Wilson: prédio de 1937 obedece à estética americana dos arranha-céus em zigue-zague (./Divulgação)

    • Edifício Novo Mundo
      Avenida Presidente Wilson, 164, Centro. O prédio de 1937 obedece à estética americana dos arranha-céus em zigue-zague, com escalonamentos, pé-direito duplo, serralheria artística e a riqueza dos mármores. A simetria e os ornamentos em bronze completam o espetáculo, que reflete a modernização da orla e a estética cosmopolita europeia.
    Bar Lagoa. Luminárias streamline
    Bar Lagoa: antigo Bar Berlim tem objetos como as luminárias streamline, vertente do art déco (André Nazareth/Divulgação)
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    • Bar Lagoa
      Avenida Epitácio Pessoa, 1674, Lagoa. O projeto de Eugênio Proença Sigaud, de 1930, conta com luminárias e detalhes internos típicos da corrente modernista. O estabelecimento, aberto ao público em 1934, à época batizado de Bar Berlim (a mudança aconteceu depois da Segunda Guerra Mundial), é um símbolo da boemia carioca.
    Rua da Glória 122
    O hall art déco do edifício da Rua da Glória 122 (Daniela Dacorso/Divulgação)
    • Centro Empresarial Ernesto G. Fontes
      Rua da Glória, 122, Glória. Também conhecida como Glória 122, a construção dos anos 1940 foi restaurada em 2016. Vitrais geométricos, molduras metálicas, elementos de iluminação característicos do período e grafismos originais foram preservados, o que rendeu prêmio à empreitada.
    Edifício Itahy
    Art déco nativista: edifício Itahy tem pórtico decorado com elementos indígenas (Daniela Dacorso/Divulgação)
    • Edifício Itahy
      Avenida Nossa Senhora de Copacabana, 252, Copacabana. O projeto de Arnaldo Gladosch (1903-1954), com decoração assinada por Pedro Correia de Araújo (1874-1955), é considerado o suprassumo do art déco nativista, com elementos simétricos e pórtico decorado por figura indígena e temas aquáticos, como algas, peixes e tartarugas.

     

    edifício Itaoca
    O Itaoca: vitrais e molduras preservados na Rua Duvivier (Daniela Dacorso/Divulgação)
    • Edifício Itaoca
      Rua Duvivier, 43, Copacabana. À semelhança de outras edificações no bairro, segue a temática indígena. O portal de entrada forma um belo conjunto com o gradil de motivos marajoaras, com esmero no uso de linhas retas e detalhes geométricos em ferro e vidro. Os vitrais e as molduras seguem preservados.
    Biarritz
    Biarritz: fachadas e linhas geométricas evocam o luxo da Riviera Francesa (Daniela Dacorso/Divulgação)

     

    • Edifício Biarritz
      Praia do Flamengo, 268, Flamengo. O residencial de 1940 evoca o luxo da Riviera Francesa, unindo linhas geométricas, fachadas simétricas e detalhes em ferro e vidro. É um dos principais exemplos da aplicação do art déco residencial na Zona Sul, integrando funcionalidade e requinte, com destaque para um charmoso jardim interno.
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    Edifício que brigou diversas empresas agora volta a ter uso residencial: relógio icônico foi amantido (biarritz credito dani dacorso1.jpg/Divulgação)
    • Edifício Mesbla
      Rua do Passeio, 56, Cinelândia. Um marco do movimento, a propriedade data de 1934, com projeto do arquiteto francês Henri Paul Pierre Sajous, o mesmo do Biarritz. Originalmente concebido para uso residencial, abrigou diversas empresas e, agora, voltará a ter uso residencial, mantendo seu icônico relógio preservado.

     

    + Para receber VEJA RIO em casa

    Roxy Dinner Show
    Memória viva: inaugurado há um ano, o Roxy Dinner Show trouxe à tona a majestosa cúpula que ficava escondida no antigo cinema (Tomas Rangel/Divulgação)

    Uma caminhada pela cidade esclarece por que o Rio é um museu a céu aberto do movimento. A torre do relógio da Central do Brasil, posta de pé em 1943, marca o ponto de partida dessa curiosa viagem no tempo. Na Praça Mauá, o edifício A Noite, de 1929, primeiro arranha-céu da América Latina, hoje em fase de retrofit, contrasta com o desenho futurista do Museu do Amanhã, do arquiteto-celebridade Santiago Calatrava.

     

    Propaganda do Cruzeiro Normandie no Carnaval de 1939.jpg
    Além do concreto: o art déco também pode ser notado em peças de propaganda (Acervo Marcio Roiter/Divulgação)

    No Flamengo, as sacadas abauladas do edifício Biarritz, entregue em 1940, revelam a assinatura do francês Henri Paul Pierre Sajous (1897-1975), o mesmo da Igreja da Santíssima Trindade, na Rua Senador Vergueiro. E em Copacabana o art déco encontra o espírito carioca: o edifício Itahy, de 1932, é uma ode à antropofagia modernista, com uma porta de ferro adornada por algas e tartarugas, uma sereia no alto e um mosaico em tons de azul e verde simulando as ondas do mar. “Poucos países podem ostentar um art déco com sotaque próprio. A seiva nativa, como definem os estudiosos, fez surgir uma estética moderna e orgulhosamente local, unindo progresso e ancestralidade”, afirma Roiter. Em suma: o Rio soube tropicalizar a elegância europeia sem perder a sua malemolência.

    Design do cartaz de Metropolis é art déco
    A estética art déco também aparece em cartazes de filmes como Metrópolis (./Reprodução)

    Uma nova vertente soprou modernidade pelas esquinas cariocas nos anos 1930: o streamline, versão aerodinâmica do art déco, inspirada no design de aviões e locomotivas.

    Moda art déco
    Moda: linguagem chegou aos figurinos e modelos como os de Carmen Miranda (./Reprodução)

    Grafismos sutis, curvas contínuas, longas linhas horizontais e cromagem metálica definem esse estilo, que dava a impressão de se mover em alta velocidade. Um de seus representantes notáveis é o edifício Glória 122, construído em 1940 pelo engenheiro e arquiteto Eduardo Pederneiras. Reformado em 2016, venceu o prêmio Master Imobiliário no ano seguinte. “Mantivemos a autenticidade, valorizando elementos originais, como as janelinhas das portas e detalhes em bronze dos elevadores, agora integrados a uma parede iluminada”, explica o arquiteto Maurício Prochnik, responsável pela consultoria estética ao lado de Roiter.  “Esse é um exemplo do chamado eterno moderno, que comprova como a adaptação de usos pode garantir a permanência do patrimônio art déco na cidade”, diz. Entre os resgates recentes mais emblemáticos dessas linhas por aqui está o Roxy Dinner Show, misto de restaurante e casa de espetáculos inaugurado há um ano, após investimento de 65 milhões de reais. A reforma trouxe à tona a portentosa cúpula de 36 metros de diâmetro, que por décadas ficou escondida sob um teto falso. Nos últimos doze meses, cerca de 100 000 pessoas visitaram o espaço, recomendado até pela revista americana Time.

    Uma joia: o advogado Luiz Claudio Kastrup de Oliveira Castro lutou na Justiça para preservar a casa de seu bisavô na Lagoa
    Joia: a casa do advogado Luiz Claudio Kastrup de Oliveira Castro na Lagoa (Daniela Dacorso/Divulgação)

    Outra joia, uma residência na Lagoa, escapou da desapropriação graças à insistência do Instituto Art Déco Brasil.“Meu bisavô comprou o terreno em 1932 e encomendou o projeto à empresa Freire & Sodré. Em 2002, na gestão César Maia, um decreto com fins de revitalização urbana pôs o imóvel em risco, mas depois de muita luta conseguimos a revogação”, conta o advogado Luiz Claudio Kastrup de Oliveira Castro.

    Banheiro da Casa da Lagoa
    O banheiro da casa de Kastrup: advogado lutou na Justiça para preservar a casa de seu bisavô (Daniela Dacorso/Divulgação)

    “O imóvel integra perfeitamente os ambientes exterior e interior e as varandas alternam espaços cheios e vazios, criando um efeito aerodinâmico. O hall revela a escada interna, com corrimão que repete o desenho da fachada e remete à estética naval dos deques dos transatlânticos. É confortável e, ao mesmo tempo, sofisticado”, analisa Roiter.

     

    casa epitacio pessoa credito dani dacorso 4
    (casa epitacio pessoa credito dani dacorso 4/Divulgação)

     

    Autor de dezenas de publicações sobre o tema, entre as quais o livro Rio de Janeiro Art Déco (Casa da Palavra, 2011), o especialista prepara mais duas obras em parceria com a pesquisadora Nubia Melhem Santos: Pindorama Modernista — A Influência Indígena no Art Déco Brasileiro e um volume dedicado à Casa Sloper, ícone do varejo carioca. “Da Cinelândia a Copacabana, encontramos edifícios que mostram como o estilo dialogava com a vida cotidiana, com os espaços de lazer e a ideia de modernidade tropical”, enfatiza Roiter. Com revitalizações em série de exemplares que valem a visita só para admirar e clicar, como os edifícios Mesbla, A Noite, Hotel Paissandu, Raro Palacete Art Déco e o próprio Roxy, o movimento vive uma nova primavera. Para melhor apreciá-la, não custa lembrar as palavras do historiador Carlos Pinto, que classifica o art déco como uma expressão para muito além da estética: ele é parte da própria identidade carioca, fruto de um tempo em que o futuro parecia caber dentro de um desenho geométrico.

     

    + Para receber VEJA RIO em casa, clique aqui

    Passeio Público
    Como conhecer as joias arquitetônicas cariocas

     

    rafael bokor riocasaseprediosantigos credito andré vasconcelos.jpg

    Casas e Prédios Antigos
    Rafael Bokor, jornalista e guia turístico, organiza passeios semanais em prédios de vários bairros da cidade. Neste sábado (18), a partir das 14h, o tour será pela Avenida Atlântica. Informações no perfil do Instagram @riocasaseprediosantigos ou pelo WhatsApp 98880-3200.

    App para smartphones
    Aplicativo Passeio Carioca: mais de 2 000 pontos geolocalizados (./Reprodução)

    Passeio Carioca
    Aplicativo lançado há um ano, gratuito, tem mais de 2 000 pontos geolocalizados, a exemplo de imóveis, monumentos, chafarizes e túmulos. Há roteiros temáticos (diversidade, herança africana, art déco, bares e restaurantes, entre outros). Informações pelo Instagram @passeio_carioca_.

    Portarias e Fachadas
    O arquiteto e guia turístico Chico Vartulli promove visitas a halls de prédios no estilo art déco em Copacabana, com apoio da Associação dos Embaixadores de Turismo do Rio de Janeiro. Informações pelo e-mail vartulli@terra.com.br e no Instagram @chico.vartulli.

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