Carlinhos de Jesus encara reabilitação e sonha em voltar a dançar
Disciplina de artista, que retoma movimentos após diagnóstico de doença autoimune, surpreende equipe de médicos e fisioterapeutas
Pouco antes das escolas de samba cruzarem a Avenida no último domingo de Carnaval, o Setor 1 irrompeu em palmas, flashes e palavras de incentivo a Carlinhos de Jesus, visivelmente emocionado em sua cadeira de rodas motorizada. O dançarino foi diagnosticado em junho de 2025 com uma doença autoimune que provoca inflamação nos nervos e reduz drasticamente os movimentos. Aos 73 anos, ele enfrentou meses de dor intensa, sentiu os músculos enfraquecerem e passou a fazer uso de cadeira de rodas e muletas. Ao chegar à Passarela do Samba, Carlinhos sentiu-se em casa e sorriu. “Tive muito medo de não voltar a andar, quanto mais dançar, mas mantive a minha cabeça firme durante todo o processo. Parar, literal e metaforicamente, nunca foi uma opção”, resume o carioca nascido em Marechal Hermes e criado em Cavalcanti, na Zona Norte do Rio.
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Polineuroradiculopatia desmielinizante inflamatória crônica. A condição neurológica de nome (bem) difícil se dá quando o sistema imunológico ataca a camada que protege os nervos. Logo após as primeiras dores intensas vieram os exames e deu-se início ao tratamento que inclui imunoglobulina intravenosa e um programa pesado de reabilitação. Desde que deixou o hospital, o dançarino alterna musculação e fisioterapia tradicional e aquática em ciclos de dois ou três dias. Graças ao empenho e à fibra do paciente, ele já consegue ficar de pé, caminhar pequenas distâncias e até dar alguns passos de dança sem muletas, embora certos movimentos como girar o tórax ou mudar rapidamente de direção — o desequilibrem. “Sinto que o corpo ainda não responde”, aponta. Ainda assim, a melhora surpreende a neurologista Cristiane Afonso e o fisioterapeuta José Vicente Martins, já que casos semelhantes costumam exigir cerca de um ano e meio de reabilitação. “Ele é determinado e tem uma disciplina e bom humor admiráveis”, destaca Martins, acrescentando que o tratamento e a rotina de exercícios são para o resto da vida do paciente.
Perdas profundas fizeram Carlinhos de Jesus encarar as adversidades sob outra perspectiva. Em 2011, Carlos Eduardo Menezes de Jesus, o Dudu, filho do coreógrafo, foi assassinado com sete tiros na saída de um bar em Realengo, Zona Oeste. “Acho que sou capaz de encarar qualquer dor”, reflete o jurado técnico da Dança dos Famosos, do Domingão com Huck, e fundador da casa de dança que leva o seu nome, com unidades no Rio e em São Paulo.
Nos anos 1980, ele buscou entender como pessoas com síndrome de Down poderiam se expressar através dos movimentos corporais e, mais tarde, trabalhou com deficientes visuais, auditivos e físicos. “Qualquer um é capaz de dançar, mesmo com limitações”, explica, adicionando que sua recuperação tem a ver com a memória muscular, construída em décadas de palco. “Ele está indo muito bem, respondeu na hora certa aos tratamentos, e é acompanhado por uma equipe sensacional. Mas ninguém consegue precisar como será o amanhã”, afirma a esposa dele, Rachel de Jesus, médica ginecologista aposentada.
Nos últimos cinco anos, Carlinhos já havia reduzido sua presença no Carnaval, após décadas de dedicação a diversas escolas de samba. Coreografou comissões de frente e assumiu funções artísticas na Mangueira, Beija-Flor, Império Serrano, Vila Isabel, União da Ilha e Portela. A decisão de se afastar veio também por pressão familiar. “Sou obcecado em dar o meu melhor. Chegou um momento em que não havia mais Natal, Ano Novo, férias. Eu só existia para o Carnaval. Ficou tóxico, com uma cobrança altíssima”, avalia. Mesmo em reabilitação, ele chegou a ensaiar uma coreografia com cadeira de rodas adaptada para bailarinos e se apresentou ao lado da amiga Ana Botafogo no cruzeiro temático Dançando a Bordo, em março. “Tudo o que vivi me preparou para ser o Carlinhos de hoje. Tenho certeza de que não vou ficar na cadeira para sempre”, diz o artista, que na hora da despedida acompanhou a equipe até a porta da sua casa, com movimentos suaves. Manter a cabeça erguida é fundamental, e ele sabe muito bem disso.





