Carlinhos de Jesus encara reabilitação e sonha em voltar a dançar

Disciplina de artista, que retoma movimentos após diagnóstico de doença autoimune, surpreende equipe de médicos e fisioterapeutas

Por Elisa Torres 3 abr 2026, 07h03 •
O dançarino Carlinhos de Jesus em sua casa, em Copacabana, Rio de Janeiro RJ. Foto de Daniela Dacorso
Rotina: dançarino alterna musculação e fisioterapia tradicional e aquática em reabilitação e ensaia números em cadeira adaptada:"Tenho certeza de que não vou ficar nela para sempre" (Daniela Dacorso/Divulgação)
Continua após publicidade
  • Pouco antes das escolas de samba cruzarem a Avenida no último domingo de Carnaval, o Setor 1 irrompeu em palmas, flashes e palavras de incentivo a Carlinhos de Jesus, visivelmente emocionado em sua cadeira de rodas motorizada. O dançarino foi diagnosticado em junho de 2025 com uma doença autoimune que provoca inflamação nos nervos e reduz drasticamente os movimentos. Aos 73 anos, ele enfrentou meses de dor intensa, sentiu os músculos enfraquecerem e passou a fazer uso de cadeira de rodas e muletas. Ao chegar à Passarela do Samba, Carlinhos sentiu-se em casa e sorriu. “Tive muito medo de não voltar a andar, quanto mais dançar, mas mantive a minha cabeça firme durante todo o processo. Parar, literal e metaforicamente, nunca foi uma opção”, resume o carioca nascido em Marechal Hermes e criado em Cavalcanti, na Zona Norte do Rio.

    + Para receber VEJA RIO em casa, clique aqui

    carlinhos e bethania credito instagram carlinhosdejesus (2).jpg
    Amor pelo Carnaval: ele foi coreógrafo da comissão de frente de diversas escolas, incluindo a Mangueira, que homenageou Maria Bethânia em 2016 (instagram @carlinhosdejesus/Divulgação)

    Polineuroradiculopatia desmielinizante inflamatória crônica. A condição neurológica de nome (bem) difícil se dá quando o sistema imunológico ataca a camada que protege os nervos. Logo após as primeiras dores intensas vieram os exames e deu-se início ao tratamento que inclui imunoglobulina intravenosa e um programa pesado de reabilitação. Desde que deixou o hospital, o dançarino alterna musculação e fisioterapia tradicional e aquática em ciclos de dois ou três dias. Graças ao empenho e à fibra do paciente, ele já consegue ficar de pé, caminhar pequenas distâncias e até dar alguns passos de dança sem muletas, embora certos movimentos  como girar o tórax ou mudar rapidamente de direção o desequilibrem. “Sinto que o corpo ainda não responde”, aponta. Ainda assim, a melhora surpreende a neurologista Cristiane Afonso e o fisioterapeuta José Vicente Martins, já que casos semelhantes costumam exigir cerca de um ano e meio de reabilitação. “Ele é determinado e tem uma disciplina e bom humor admiráveis”, destaca Martins, acrescentando que o tratamento e a rotina de exercícios são para o resto da vida do paciente.

    carlinhos e dudu credito instagram carlinhosdejesus (2).jpg
    Dor profunda: em 2011, o filho Dudu foi assassinado e o dançarino acredita que, depois disso, pode superar qualquer adversidade (instagram @carlinhosdejesus/Divulgação)
    Continua após a publicidade

    Perdas profundas fizeram Carlinhos de Jesus encarar as adversidades sob outra perspectiva. Em 2011, Carlos Eduardo Menezes de Jesus, o Dudu, filho do coreógrafo, foi assassinado com sete tiros na saída de um bar em Realengo, Zona Oeste. “Acho que sou capaz de encarar qualquer dor”, reflete o jurado técnico da Dança dos Famosos, do Domingão com Huck, e fundador da casa de dança que leva o seu nome, com unidades no Rio e em São Paulo.

    carlinhos e debora bloch credito instagram carlinhosdejesus (2).jpg
    Na TV: em meio ao tratamento, Carlinhos seguiu no júri do Dança dos Famosos, ao lado de artistas como Debora Bloch (instagram @carlinhosdejesus/Divulgação)

    Nos anos 1980, ele buscou entender como pessoas com síndrome de Down poderiam se expressar através dos movimentos corporais e, mais tarde, trabalhou com deficientes visuais, auditivos e físicos. “Qualquer um é capaz de dançar, mesmo com limitações”, explica, adicionando que sua recuperação tem a ver com a memória muscular, construída em décadas de palco. “Ele está indo muito bem, respondeu na hora certa aos tratamentos, e é acompanhado por uma equipe sensacional. Mas ninguém consegue precisar como será o amanhã”, afirma a esposa dele, Rachel de Jesus, médica ginecologista aposentada.

    Continua após a publicidade
    carlinhos e ana botafogo credito instagram carlinhosdejesus (2).jpg
    Parceria em alto mar: ele se apresentou de cadeira de rodas em um cruzeiro ao lado da bailarina Ana Botafogo (instagram @carlinhosdejesus/Divulgação)

    Nos últimos cinco anos, Carlinhos já havia reduzido sua presença no Carnaval, após décadas de dedicação a diversas escolas de samba. Coreografou comissões de frente e assumiu funções artísticas na Mangueira, Beija-Flor, Império Serrano, Vila Isabel, União da Ilha e Portela. A decisão de se afastar veio também por pressão familiar. “Sou obcecado em dar o meu melhor. Chegou um momento em que não havia mais Natal, Ano Novo, férias. Eu só existia para o Carnaval. Ficou tóxico, com uma cobrança altíssima”, avalia. Mesmo em reabilitação, ele chegou a ensaiar uma coreografia com cadeira de rodas adaptada para bailarinos e se apresentou ao lado da amiga Ana Botafogo no cruzeiro temático Dançando a Bordo, em março. “Tudo o que vivi me preparou para ser o Carlinhos de hoje. Tenho certeza de que não vou ficar na cadeira para sempre”, diz o artista, que na hora da despedida acompanhou a equipe até a porta da sua casa, com movimentos suaves. Manter a cabeça erguida é fundamental, e ele sabe muito bem disso.

    Publicidade

    Essa é uma matéria fechada para assinantes.
    Se você já é assinante clique aqui para ter acesso a esse e outros conteúdos de jornalismo de qualidade.

    Domine o fato. Confie na fonte.
    15 marcas que você confia. Uma assinatura que vale por todas
    Impressa + Digital no App
    Impressa + Digital
    Impressa + Digital no App

    Informação de qualidade e confiável, a apenas um clique.

    Assinando Veja você recebe semanalmente Veja Rio* e tem acesso ilimitado ao site e às edições digitais nos aplicativos de Veja, Veja SP, Veja Rio, Veja Saúde, Claudia, Superinteressante, Quatro Rodas, Você SA e Você RH.
    *Assinantes da cidade do RJ

    A partir de R$ 39,99/mês