Cartão-postal verde e rua pelada: um Rio em que falta sombra
A falta de arborização urbana aprofunda desigualdades e vem transformando o verão carioca em um teste de resistência
Às vésperas do Réveillon, um vídeo que mostrava a derrubada de árvores centenárias no terreno do antigo Colégio Bennett, no Flamengo, causou revolta entre os moradores da região. Ao todo, 71 exemplares foram ao chão para que um condomínio residencial com 350 apartamentos seja erguido. Detalhe: o espaço é tombado desde 2014. Só no dia 21 de janeiro, a Justiça determinou a paralisação das obras, impedindo o corte de vegetação.
O caso virou símbolo de uma contradição antiga: a cidade aparece verde nos cartões-postais – da Floresta da Tijuca ao Aterro, do Jardim Botânico ao Maciço da Pedra Branca -, mas sobram asfalto e concreto.
Segundo a prefeitura, o déficit é de cerca de 860 000 árvores, e fora da Zona Sul sombra se tornou artigo de luxo. Quem derruba precisa compensar – a Newview Incorporadora, responsável pelo projeto na Rua Marquês de Abrantes terá de plantar 632 mudas -, mas nem sempre há comprometimento e fiscalização. “As empresas devem 300 000 replantios”, calcula o deputado estadual e ex-ministro do Meio Ambiente Carlos Minc.
Não existe mágica: uma muda leva entre nove e dez anos para firmar raízes, crescer, atrair pássaros e capturar carbono. Por isso, especialistas defendem que as compensações aconteçam antes das obras e em áreas próximas ao projeto. “O ideal seria replantar a árvore inteira. Os japoneses são craques nisso”, exemplifica Minc.
Áreas verdes aumentam a umidade do ar, evitam alagamentos, por conta do escoamento subterrâneo, e ajudam a segurar a temperatura, principalmente no verão, aliviando os pedestres. A caminhada fica menos desgastante; os pontos de ônibus deixam de ser uma panela de pressão; e a rua ganha um mínimo de conforto térmico. O efeito, de fato, pode ser medido.
Um estudo da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) em parceria com a Universidade Veiga de Almeida (UVA) comprovou que a diferença de temperatura de bairros próximos à Floresta da Tijuca e regiões mais distantes pode chegar a 10 graus.
“Nem todos os cariocas têm acesso aos benefícios do verde. Talvez seja interessante levar vegetação a áreas dominadas pelo concreto”, defende Cleyton Martins, professor da UVA que conduziu a pesquisa. Aprovado por decreto há uma década, o Plano Diretor de Arborização Urbana (PDAU), responsabilidade da prefeitura, pouco andou de lá para cá e vem sendo revisto. “Arborização urbana custa caro e exige coordenação, porque consiste em quebrar concreto, mexer em drenagem e reorganizar tubulações”, alega a secretária municipal de Meio Ambiente e Clima, Tainá de Paula.
Há programas de curto prazo já em curso: o Planta+Rio permite ao morador solicitar pelo 1746 o plantio de árvores em área pública; os Corredores Verdes buscam reduzir o desconforto térmico em áreas quentes; e o Observatório do Calor, no Complexo do Alemão, tem como objetivo principal monitorar as temperaturas em áreas de “ilhas de calor” extremo ó locais com alta densidade urbana e escassa vegetação ó para transformar esses dados em políticas públicas de mitigação. Há exemplos pelo mundo de que a virada acontece quando verde e engenharia conversam. A China popularizou o conceito de “cidades-esponja”, reutilizando grande parte da água da chuva por meio de superfícies permeáveis. Medellín, na Colômbia, conseguiu reduzir as regiões de calor extremo ao criar corredores verdes em vias e canais. Já Nova York plantou 1 milhão de mudas entre 2007 e 2015 para reduzir a emissão de gases do efeito estufa. Lições úteis para um Rio que ainda precisa de muita sombra.
Cidade desigual
A variação de temperatura em diferentes bairros do Rio
Santa Cruz 31 ºC
Centro 28,5 ºC
Jardim botânico 27 ºC
Guaratiba 26,3 ºC
São Cristóvão 25,7 ºC
Alto da boa Vista 22,5 ºC
Fonte: sistema alerta rio com dados medidos em 4 de janeiro, às 10h15





