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“Ele me abraçou por trás e colocou as mãos nos meus seios”, diz ex-aluna

VEJA Rio conversou com ex-alunas do Colégio Santo Inácio que relataram caso de assédio e teve acesso às denúncias enviadas à escola em 2018

Por Lauro Neto - Atualizado em 18 jun 2020, 19h38 - Publicado em 11 jun 2020, 20h08

Mãos nas coxas, no sutiã e nos seios de estudantes menores de idade. Esse é o teor de alguns relatos feitos por ex-alunas do Colégio Santo Inácio contra um professor do ensino médio. As acusações de assédio vieram à tona na semana passada, através de denúncias anônimas feitas pelo Twitter e reveladas por VEJA Rio, que conversou com cinco estudantes formadas na tradicional instituição de ensino do Rio. A pedido das entrevistadas, seus nomes foram mantidos em sigilo.

Universitária, Z* tinha 14 anos e cursava o 1º ano do Ensino Médio quando, conta ela, começou a ser assediada pelo professor que hoje é alvo de acusações. “Desde o início do ano letivo, ele me assediava dentro da sala, às vezes no meio da aula mesmo. Primeiro, ele perguntou se eu tinha alguma irmã mais velha que se parecesse comigo. Quando disse que não, falou que era uma pena. Ele disse isso no meio da aula, com amigas minhas presentes, fiquei muito constrangida”.

Segundo Z*, neste mesmo ano, deu-se outro episódio. “Eu estava fazendo um exercício na aula dele, e ele estava passando pra conferir o dever das pessoas. Quando chegou a minha vez, ele disse que tinha alguma coisa nas minhas costas e perguntou se eu queria que ele tirasse. Obviamente falei que não. Mesmo assim, ele botou a mão nas minhas costas e puxou a alça do meu sutiã sem o menor pudor. Ele ainda me encarou e riu. Desde então, fiquei com muito medo de ficar perto dele”, relembra ela, que se formou no Santo Inácio em 2016, hoje tem 21 anos e é estudante de ciências da computação.

Z* revelou que seu tormento continuou até o 3º ano. A coragem de contar aos pais só surgiu na semana passada, quando o colégio divulgou um comunicado e um endereço de e-mail para receber denúncias de possíveis vítimas. Sua mensagem foi uma das primeiras enviadas. “Só consegui falar com meus pais recentemente devido a esse alarde todo e por eles terem me perguntado se eu sabia de alguma coisa. Eu tinha muita vergonha. Ele já me abordou para falar que eu estava com um corpo bonitinho e que queria saber o que eu fazia pra ficar assim”, contou a VEJA Rio.

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Y*, outra ex-aluna, formada em 2016, relatou que foi vítima do mesmo professor aos 15 anos. “Depois da entrega de uma prova corrigida, fui até a mesa dele pedir revisão. A aula havia acabado, os outros alunos já tinham saído da sala. Ele estava sentado e me envolveu com o braço. Ficou me segurando pelas coxas enquanto revia a minha prova. Fiquei paralisada, tensa, com medo de me mexer”, diz. Dois anos depois de se formar no colégio, Y* soube de uma aluna que estava reunindo depoimentos contra o docente e decidiu romper o silêncio. “Em 2018, essa aluna estava no 3º ano e queria entregar os relatos à coordenação”.

W*, que hoje trabalha como pesquisadora da UFRJ, contou a VEJA Rio que já havia levado as acusações de assédio contra o professor à coordenação em 2016. “Fiquei indignada quando li a carta enviada pela direção do colégio aos pais na semana passada, revelando surpresa com ‘recentes denúncias em relação a supostos casos de assédio envolvendo profissionais e alunos’. Eles já sabiam”.

A pesquisadora contou que, ao levar as denúncias adiante em 2016, ouviu como resposta que a coordenação estava ciente do problema e que o acusado estaria tendo uma última chance: “A gente acreditou. Dois anos depois ele continuava fazendo as mesmas coisas. O colégio sempre soube, mas abafou o caso.”

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VEJA Rio teve acesso à cópia do e-mail enviado à direção do colégio em 11 de outubro de 2018. Na mensagem foi anexado um arquivo que reunia denúncias contra o docente. “Enviamos esse e-mail a pedido da diretora em 2018. Ela disse que iriam averiguar as denúncias e decidir o que fazer, mas não tivemos nenhum retorno”, conta X*, 19 anos, hoje estudante de administração.

Em 2018: alunas enviaram denúncias por e-mail para a direção da escola
Em 2018: alunas enviaram denúncias por e-mail para a direção da escola Arquivo pessoal/Reprodução

Alguns desses relatos antigos foram reenviados na última semana para o canal de ouvidoria criado pelo Colégio Santo Inácio. Em um deles, a ex-aluna V* afirma que o professor colocou as mãos em seus seios. “O recreio tinha terminado e a turma estava voltando para a sala. Enquanto a aula não começava, eu estava usando uma rede social e parei para tirar uma foto. O professor, ao ver que eu estava com a câmera aberta, se aproximou de mim pelas costas e pediu para entrar na foto. Quando fui tirar (a foto), ele me abraçou por trás e colocou as mãos nos meus seios”, escreveu.

V* contou que ainda testemunhou um beijo do professor em uma aluna. “Ela tinha passado o intervalo na sala, dormindo. A turma começou a se dirigir de volta, as luzes foram acesas e a aluna não acordou… o professor se debruçou sobre ela e lhe deu um beijo. Ela acordou com ele em cima dela, sem saber o que tinha acontecido”, escreveu. A situação foi descrita por outra ex-aluna, que também enviou o relato à escola.

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Registro de e-mail enviado ao colégio
Registro de e-mail enviado ao colégio por ex-aluna em 5 de junho Arquivo pessoal/Reprodução
Arquivo pessoal/Reprodução
Ex-aluna ainda relatou que já havia levado as denúncias à direção em 2018
Ex-aluna ainda relatou que já havia levado as denúncias à direção em 2018 Arquivo pessoal/Reprodução

Procurado por VEJA Rio, o Colégio Santo Inácio confirmou que já recebeu ao menos cinco denúncias pelo e-mail da ouvidoria e emitiu a seguinte nota por meio de sua assessoria de imprensa: “O Colégio Santo Inácio repudia todo e qualquer ato de assédio e já abriu procedimento interno para apurar todas as informações e denúncias que recebeu. Foi criado ainda um canal de ouvidoria pelo qual membros da comunidade escolar podem fazer denúncias de forma sigilosa”.

Ao menos seis cartas de ex-alunos, de diferentes anos, já foram enviadas à direção do colégio. Em uma delas, pede-se a instauração de procedimento interno e o afastamento preventivo dos professores envolvidos até a completa apuração dos fatos; treinamento anual de funcionários e funcionárias sobre combate e prevenção ao assédio; e a instalação de uma política de tolerância zero contra assédio a partir de um canal formal de denúncias que conte com um código de conduta que preserve a vítima.

Em outra missiva, 150 ex-alunos, que assinaram o texto, também cobram providências. “Cumpram o seu papel. Não sejam omissos. Sejam os educadores que vocês nos prometeram ser. Os fatos estão expostos. As cicatrizes são invisíveis e bem mais profundas do que podem imaginar, mas, hoje, podemos vê-las através das mensagens das inúmeras vítimas”, diz um trecho da mensagem.

Na última quarta (10), um novo comunicado, foi enviado aos alunos, antigos alunos, familiares e colaboradores. Abaixo, o texto completo:

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“Vimos hoje, através desta carta, declarar nosso profundo pesar diante das manifestações que nos têm chegado nas últimas semanas. Não queremos escrever a vocês de forma protocolar, como mais um comunicado oficial, mas com a humanidade que nos une em sofrimento, humildade e garra para lutar pelo bem maior. Todas as lógicas baseadas em divisão e exclusão (nós x eles, gênero x gênero etc), que têm imperado na sociedade em geral, como vocês apresentam, atingem e machucam a todos, mulheres e homens, independentemente do cargo, função ou situação em que se encontrem, em qualquer lugar.

Neste momento que estamos atravessando, queremos, antes de tudo, nos solidarizar com todos e com cada um.

Para o presente e o futuro nos cabe agir. Para momentos idos, mencionados em relatos que nos chegam agora, em que não fomos diligentes o suficiente, ou que nossa atenção estava em cumprirmos nossas funções cotidianas, e a escuta não foi a esperada, nos redimimos, embora sempre tenhamos procurado escutar a todos, pois a todos é dado o direito de voz. Como vocês, também podemos não ter compreendido alguns sentimentos, misturados aos esperados nas diversas faixas etárias, que nos chegavam às vezes de forma confusa e contraditória. Mas, concordamos, se já se apresentavam como desconfortos, mereciam mais tempo, atenção e apuro.

No entanto, acreditamos que, mesmo na desolação, há espaço para luz e aprendizado. E nesse sentido, queremos agradecer a vocês e pedir que nos ajudem a construir esse sonhado mundo melhor, de justiça, fraternidade e solidariedade, a começar pelo CSI, mas também alcançando outros lugares em que estivermos estudando ou trabalhando.

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As estruturas e organizações sociais estão cada vez mais nas mãos de mulheres que conquistaram seu espaço numa luta que vem de décadas. Olhar com Amor esse cenário de conquistas por igualdade nos enche de orgulho e coragem para superar os desafios de nossa geração na qual todos, homens e mulheres, precisam de apoio e respeito.

Hoje, o CSI conta, em seus quadros de gestão, com um número cada vez maior de mulheres, que alcançaram essas funções com esforço, muitas lutas e dedicação. É a diversidade que se concretiza. Rompemos barreiras! E essas mulheres também querem estar com vocês nessa missão. As alunas, há três anos, propuseram a criação de um coletivo feminino CSI, que foi prontamente acolhido pelo colégio, no qual discutimos muitas questões relacionadas ao nosso papel na sociedade, com vídeos, palestras e conversas. Vamos avançar e crescer juntos!

Nosso compromisso com vocês, hoje, direção, coordenações, orientações e professores, é fazer do CSI cada vez mais um lugar de acolhimento, de escuta, de justiça e real formação inaciana. Comprometemo-nos de que continuaremos a fazer dele a segunda casa de todos aqueles que frequentaram, frequentam e frequentarão suas salas, corredores e pátios, e estarão, ao sair, com seus rostos sorridentes estampados em cada quadro de nossas paredes.

Nesse sentido, estamos elaborando propostas concretas que, quando apresentadas, esperamos contar com sugestões, também concretas, de todos vocês. Nesse sentido, continuamos a acolher as propostas que nos têm chegado por diversos canais de comunicação do colégio.”

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*A pedido das estudantes seus nomes foram preservados.

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