Anna Bella Geiger expõe pela primeira vez uma obra de grandes proporções
Aos 92 anos de idade e setenta de carreira, artista debuta no Morro da Urca
Carioca, filha de imigrantes poloneses e casada com um geógrafo, a artista plástica Anna Bella Geiger passou a confeccionar mapas em tiras de cobre nos anos 1970. À época, a centelha que a impulsionava era questionar a limitação de territórios culturais baseados em fronteiras pré-delimitadas. Duas décadas mais tarde, em uma de suas clássicas caminhadas (veja mais abaixo) pelo Morro da Conceição, Zona Portuária, ela se deparou com uma gaveta num ferro-velho. “Foi um momento de epifania. Nem sei quanto tempo passei em frente àquele objeto. Processo de criação é assim mesmo, mas tudo se encaixou a partir dali”, explica a artista de 92 anos, em plena atividade.
Na década de 1990, então, ela inseriu suas versões de mapas dentro de gavetas de madeira ou ferro, preenchidas com cera de abelha – técnica pictórica milenar para aglutinar o pigmento e conservar a cor ó situando a própria produção na interseção entre pintura, gravura e escultura. A partir de 14 janeiro, Anna Bella expõe sua primeira obra em formato monumental, no Parque Bondinho Pão de Açúcar. “Eu não sou uma artista de obra tridimensional, mas tenho as gavetas”, analisa.
Typus Terra Incognita (2025) marca a segunda edição do Projeto Maravilha, idealizado por Fabio Szwarcwald sob curadoria de Ulisses Carrilho. A gaveta foi maximizada: uma estrutura em aço corten, de 2,5 metros de altura por 5 metros de largura traz uma reprodução da gravura Na Outra Margem do Rio Amazonas, de 2006. O trabalho de Anna Bella será instalado perto do de Carlos Vergara, o primeiro nome a integrar o ambicioso projeto no ponto turístico. De forma concomitante, o Espaço Maria Ercília, também no Morro da Urca, recebe a mostra Anna Bella Geiger: Um Corpo no Espaço, percurso de treze cavaletes autoportantes, com dezesseis reproduções de trabalhos paradigmáticos de uma das mais significativas artistas brasileiras de todos os tempos.
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“Às vezes eu tinha vontade de sortear alguém para cuidar dos meninos”, relembra, com bom humor, os desafios de ser artista, professora do MAM Rio, esposa e mãe de quatro filhos. “Eu vivia descabelada, levava as crianças para o museu porque não tinha com quem deixá-las. A direção sentia pena e colocava um guarda para ficar de olho nelas”, conta, rindo. Atenta, feminina, disposta e com afiado senso de humor, Anna Bella Geiger recebeu VEJA Rio em seu ateliê na Rua Paissandu, no Flamengo, onde desde 1969 produz sem parar.
Entre plantas, bichos de pelúcia, lembranças de viagem, totens, jogos, tecidos, ela vai mostrando obras em latas de sardinha e uma série que vem desenvolvendo sobre imagens da Lua, que ganhará mostra na galeria Danielian, na Gávea. Ali, naquele terraço, foi gravada a performance Telefone Sem Fio, de 1976. “Era um momento político em que cada um dizia uma coisa diferente. A gente falava sabendo que não seria compreendido”, descortina.
Com mais de 70 anos de carreira, ela diz que a maturidade traz experiência técnica, mas o impulso e a inspiração se afetam pouco com a idade. “O medo, a coragem e as descobertas seguem por aqui. Continuo enfrentando o material como uma criança enfrenta lápis e papel, mas o artista se submete o tempo todo à análise do outro”, reflete, para em seguida mostrar um clichê no formato do Pão de Açúcar. “Sempre fui fascinada por ele”, arremata. Ela só não imaginava que sua obra chegaria lá, a 400 metros de altura num maciço formado há 600 milhões de anos.
Andanças cariocas
Lugares que servem de inspiração
Pão de Açúcar
MAM Rio e seus jardins
Parque Lage
Paço Imperial
Fundação Eva Klabin, na Lagoa
Praia de Copacabana
Rua Morais e Vale, na Lapa, onde viveu Chiquinha Gonzaga
Bairro do Catete (memória da infância, onde seus pais tinham uma loja de modas)
Rua Paissandu, no Flamengo, com suas palmeiras imperiais
Aterro e Praia do Flamengo, com a vista para a Baía de Guanabara
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