Deu a louca nos aluguéis! Como turismo pode afetar o custo de morar no Rio

Alta temporada durante o ano todo, estúdios em expansão e preços em disparada redesenham o mapa residencial da cidade

Por Pedro Coutinho Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 27 mar 2026, 08h20 •
Aerial View of Ipanema Beach and District in Rio de Janeiro
Ainda mais exorbitantes: Leblon, Ipanema e Lagoa estão entre os cinco bairros com o metro quadrado mais caro do Brasil.  (Gabldy/Getty Images/Divulgação)
Continua após publicidade
  • Qualquer caminhada pela Zona Sul é um convite para que os ouvidos tropecem em conversas em outros idiomas, principalmente espanhol e inglês. Sotaques de outras regiões do Brasil também se misturam ao chiado carioca, e os números corroboram essa impressão.

    “Em 2025, recebemos 12,5 milhões de visitantes, que movimentaram cerca de 27,2 bilhões de reais na economia da cidade, um recorde”, celebra o presidente da Riotur, Bernardo Fellows.

    O número de estrangeiros cresceu 44% em comparação a 2024. Só no Carnaval, dos 1,8 milhão de turistas hospedados por aqui, 393 200 vieram de outros países.

    O momento — frutífero para o comércio e a rede hoteleira — representa também uma oportunidade para quem tem tino financeiro e bala na agulha para investir.

    “Recentemente, quase todos os proprietários de imóveis menores, como os estúdios, migraram para a locação de curta temporada”, afirma o vice-presidente de locação e comercialização imobiliária do Secovi Rio, Leonardo Schneider.

    Leonardo Secovi @leoni_fotografia-4195.jpg.jpeg
    Revolução no modo de viajar: Leonardo Schneider, do Secovi Rio chama a atenção para o fato de que pequenos apartamentos são destinados a estadias curtas. (@leoni_fotografia/Divulgação)

    De fato, o jeito de viajar se transformou. “As plataformas digitais ampliaram as possibilidades de hospedagem e mudaram o jeito que as pessoas planejam as férias, muitas vezes optando por um apartamento em vez de um quarto de hotel”, define Bernardo Fellows.

    Continua após a publicidade

    Liderada por marketplaces como o Airbnb, a plataformização — fenômeno no qual o mercado de curta duração absorve e reduz a oferta de aluguel tradicional — atinge polos turísticos estrangeiros, como Barcelona, Lisboa e Nova York.

    + Para receber VEJA RIO em casa, clique aqui

    “Os efeitos colaterais são a elevação do preço e o que chamamos de turismofobia”, explica o professor de geografia da Uerj Vitor de Pieri.

    Com o boom do turismo e a reforma tributária que entra em vigor em 2027, novas taxas devem elevar ainda mais o custo dos aluguéis de longa temporada — o crescimento médio nos últimos dois anos foi de 23%, segundo o Secovi Rio.

    “Quem disponibiliza mais de três imóveis para alugar e fatura acima de 240 000 reais por ano paga 27,5% em impostos. Com a mudança nas regras, a expectativa é de que a fatia fique em torno dos 40%”, alerta o sócio-diretor da administradora de condomínios Estasa, Luiz Fernando Barreto.

    Continua após a publicidade

    Contratos de aluguel de trinta meses estão cada vez mais escassos. “Existe um efeito em cadeia. Quem mora em Copacabana, por exemplo, começa a procurar locação em Botafogo ou Laranjeiras, porque o preço se torna inviável”, resume Barreto.

    O movimento acompanha a valorização recorde das áreas mais nobres: o Leblon segue com o metro quadrado mais caro da cidade, seguido por bairros como Ipanema, Lagoa, Gávea e Jardim Botânico e, na Zona Sudoeste, a Barra — todos listados entre os vinte bairros mais caros do Brasil, inclusive.

    Por outro lado, Schneider, do Secovi Rio, defende que o valor dos aluguéis, começaram a subir devido ao aumento da taxa de juros no pós-pandemia.

    “Muita gente passou a deixar o dinheiro rendendo numa aplicação em vez de comprar um apartamento. Some-se a isso a facilitação dos processos, garantidos pelas administradoras”, pontua o vice-presidente do Secovi Rio. “Ainda estamos estudando se o aumento do preço do aluguel está ligado a uma falta de oferta, mas eu diria que não”, arrisca.

    Na leitura de Vitor de Pieri, da Uerj, a capital fluminense ainda não está no mesmo estágio dos eixos dos grandes centros turísticos europeus e dos Estados Unidos, mas há, sim, fortes indícios de uma relação entre os aluguéis mais salgados, o fluxo de visitantes e o crescimento na oferta de estúdios.

    Continua após a publicidade

    Desde 2021, mais de 1 000 apartamentos de um quarto foram postos à venda a cada ano. Em 2025, dos 3 415 que entraram no mercado, 2 569 foram comprados — o equivalente a 75%.

    Dados do Secovi mostram que, nos últimos dois anos, o preço dos aluguéis de kitnets e quarto e sala subiu 40,4%. “Geralmente, os estúdios viram Airbnb”, explica Omar Farhat, da Omar do Rio e vice-presidente da Associação Brasileira de Locação por Temporada.

    Omar Divulgação.jpeg
    Profissão administrador de Airbnb: Omar Farhat cuida de quatrocentos imóveis e tem 160 funcionários (./Divulgação)

    Ele entrou neste mercado por acaso, para ajudar a mãe a pagar uma dívida, em 2013. O que começou como um auxílio se tornou um negócio com mais de quatrocentos imóveis e 160 funcionários.

    “A estrutura dos hotéis começou a se tornar um pouco insuficiente. E aí, naturalmente, as demandas dos inquilinos e dos proprietários casou. Hoje em dia, tem mais turista querendo se hospedar do que imóveis disponíveis”, diz o empresário.

    Continua após a publicidade

    Essa dinâmica também faz soar alarmes. Em Copacabana, a principal preocupação dos moradores é com uma possível superlotação. “Tem lançamento imobiliário com duzentas unidades, mas ninguém quer discutir o impacto num bairro já extremamente adensado”, questiona Horácio Magalhães, presidente da Sociedade Amigos de Copacabana.

    Entre malas de viagem e contratos de aluguel, o Rio vive um momento de valorização rara — e de dilemas igualmente complexos. Quanto mais desejada se torna para quem vem de fora, mais desafiadora pode ficar para quem está dentro. No equilíbrio entre vocação turística e direito à cidade, está a equação que vai definir o futuro da capital fluminense.

    O preço de viver no Rio

    O efeito da migração em massa de imóveis pequenos para locação por curta temporada 

    • 40,4% de alta no valor do aluguel de kitnets e apartamentos de um quarto
    • 3 415  imóveis de um quarto postos à venda em 2025 
    • 75% desses apartamentos foram vendidos

    Os Olhos da cara

    Valores exorbitantes de locação se espalham pela cidade

    Continua após a publicidade

    ipanema farme credito reproducao quinto andar.jpg
    (./Reprodução)

     

    R$ 26 100,00: 1 quarto, 61 metros quadrados Rua Rainha Guilhermina, Leblon

    ape presidente vargas credito reproducao quinto andar.jpg
    (./Reprodução)

    R$ 14 996,00: 1 quarto, 30 metros quadrados Avenida Presidente Vargas, Centro

    R$ 11 476,00: 1 quarto, 50 metros quadrados Rua Farme de Amoedo, Ipanema

    ape botafogo credito reproducao quinto andar.jpg copiar

    R$ 11 063,00: 1 quarto, 40 metros quadrados Rua Voluntários da Pátria, Botafogo

    R$ 10 703,00: 1 quarto, 24 metros quadrados Rua Aristides Espínola, Leblon

    R$ 8 814,00: 1 quarto, 30 metros quadrados Rua Hilário de Gouveia, Copacabana

    Zap Imóveis e Quinto Andar, pesquisados em 13 de março de 2026, somando aluguel e condomínio

     

     

    Publicidade

    Essa é uma matéria fechada para assinantes.
    Se você já é assinante clique aqui para ter acesso a esse e outros conteúdos de jornalismo de qualidade.

    Domine o fato. Confie na fonte.
    15 marcas que você confia. Uma assinatura que vale por todas
    Impressa + Digital no App
    Impressa + Digital
    Impressa + Digital no App

    Informação de qualidade e confiável, a apenas um clique.

    Assinando Veja você recebe semanalmente Veja Rio* e tem acesso ilimitado ao site e às edições digitais nos aplicativos de Veja, Veja SP, Veja Rio, Veja Saúde, Claudia, Superinteressante, Quatro Rodas, Você SA e Você RH.
    *Assinantes da cidade do RJ

    A partir de R$ 29,90/mês