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Rafael Mattoso Por Rafael Mattoso, historiador Curiosidades sobre o subúrbio carioca

Por uma história mais legítima sobre a fundação Karióca

Precisamos dar o devido papel de destaque para os povos nativos na formação desta cidade muito mais que centenária

Por Rafael Mattoso - 4 mar 2020, 17h04

Nos últimos anos na capital fluminense, durante as escavações da Linha 4 do metrô e as obras de ampliação do aeroporto internacional, uma grande quantidade de vestígios arqueológicos foi encontrada. Algumas datam entre dois e quatro mil anos e servem de registro da nossa ocupação pré-colonial. No entanto, mesmo com todos esses materiais, ainda existem muitas lacunas em relação ao papel dos indígenas, africanos e até mesmos dos suburbanos na história dita oficial.

A reconstrução digital do homem que viveu em terras cariocas há cerca de dois mil anos
A reconstrução digital do homem que viveu em terras cariocas há cerca de dois mil anos Museu Nacional/Arquivo pessoal

Dizem por aí que no domingo passado o Rio de Janeiro completou 455 anos de fundação. A cidade colonial portuguesa de São Sebastião até pode ter sido inaugurada naquela trincheira, na várzea entre o Morro Cara de Cão e o Pão de Açúcar, no dia 1 de março de 1565, mas a Guanabara, ah, essa não tem idade contabilizada, é ancestral assim como a maioria dos nomes dos bairros atuais.

A Guanabara dos tupinambás já era uma cidade indígena, a “polis tupi” com suas dezenas de aldeias superpovoadas, que resistiu de todas as maneiras possíveis, a pólvora, a espadas, as doenças e aos cavalos europeus. Foram tão valentes que levaram consigo o capitão-mor português, o famoso Estácio de Sá, na derradeira batalha do Outeiro da Glória. Esse povo traído pelos portugueses e depois exterminado, durante mais de 30 anos de guerras e conflitos, acabou subjugado em sua própria terra.

Mesmo vilipendiado de sua liberdade e unidade étnica cultural, essa grande influência não pode ser negada. Muitos de seus aldeamentos e caminhos, que interligavam as comunidades locais, foram essenciais para que a São Sebastião do Rio de Janeiro fosse criada. Além disso, é necessário reconhecer que deriva dos tupinambás o gene formador principal do DNA do povo “carioca”, palavra que até pouco tempo atrás significava uma tal “casa do homem branco” que nunca existiu.

Por tudo isso, foi tão significativo ver uma das mais importantes e representativas escolas de samba do país, a suburbaníssima Portela – caixa de ressonância das angústias populares – tendo o livro “O Rio antes do Rio” como referência e inspiração para o seu enredo. Fazendo ecoar em seu samba o verso: “Ao proteger Karióca reúno a maloca, na beira da rede, cauim pra festejar…”

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Ao finalmente “proteger Karióca” nos encontramos com nossas próprias raízes nativas e nos reconectamos com esse Rio de Janeiro contemporâneo de uma forma nova, produzindo um sentimento de pertencimento finalmente nativo e não exógeno.

Enredo portela 2020
Portela/Arquivo pessoal

Ao desvendarmos os nomes e a história milenar das dezenas de aldeias que dominavam o território no momento em que Estácio de Sá entregava a chave da cidade a um porteiro, temos a convicção que a fundação encenada, em 1565, não é legitima. Ainda hoje, comparativamente, os tupinambás tiveram mais tempo vivenciando nessa baía do que nós “modernos cariocas” temos.

Por mais de um milênio os indígenas se desenvolveram e construíram uma civilização próspera, resistente e bem adaptada à Floresta Atlântica. Caso fôssemos verdadeiramente patriotas, palavra tão na moda na política dos dias de hoje, já teríamos edificado um museu para celebrarmos essa nossa história “karióca” desde seu princípio. Atraindo tanto nossos estudantes e interessados, como milhares de turistas, que em outros países percorrem ávidos os lugares antigos atrás dos vestígios das civilizações pré-colombianas (Incas, Maias e Astecas).

Para melhor reconhecermos nosso passado deveríamos tirar selfies de nós mesmos reconhecendo que somos, em maior ou menor grau, oriundos de uma das mais incríveis culturas ancestrais. Ao fazermos isso damos um novo sentido à nossa existência, ao fato de termos certamente herdado um pouquinho dos tupinambás, assim lembrarmos quem somos e de onde viemos ao invés de comemorarmos datas e mitos fundadores inventados pelos invasores.

Esta coluna foi escrita em parceria com o jornalista e escritor Rafael Freitas da Silva autor do livro O Rio antes do Rio, que acaba de ser lançado em sua nova edição que já  está sendo vendido por cerca de R$60,00 nas principais livrarias.

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