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Patricia Lins e Silva Por Patrícia Lins e Silva, pedagoga Educação

Será que já lidamos com um tempo artificial?

Existe uma revolução em pleno andamento, uma invenção poderosa, que é esse outro tipo de "tempo"

Por Patricia Lins e Silva 15 jun 2021, 18h01

Estamos apenas começando a aprender que as máquinas pensantes, treinadas com o “machine learning”, trazem a capacidade de manipular o tempo, afirma o cientista da computação Sam Altman, fundador da start-up Y Combinator.  Segundo ele, existe uma revolução em pleno andamento, que escapou do público e das manchetes do noticiário. É uma invenção poderosa, que não é a Inteligência Artificial, mas o Tempo Artificial.

O cientista lembra que o cérebro humano é limitado para processar a quantidade de informações geradas, e que a tecnologia digital moderna armazena dados em escalas nunca vistas, que são os chamados big data. Com a poderosa invenção do machine learning (aprendizado das máquinas) tornou-se possível analisar e tirar conclusões de mais dados do que qualquer ser humano poderia compreender. Os algoritmos digerem os dados e os transformam em modelos que cumprem diversos tipos específicos de tarefas, como modelos para processamento de linguagem (a Siri, do iphone), para reconhecimento de imagem (o Instagram), para recomendações (a Netflix) etc. Isso equivale ao esforço cognitivo de centenas ou milhares de vidas. Mas quando a máquina obtém um modelo utilizável, em minutos ou segundos ele pode ser processado em qualquer laptop, smartphone ou até mesmo em um cérebro humano biológico.

Para exemplificar sua tese do funcionamento do tempo artificial, Altman lembra que em 2013, Magnus Carlsen, um norueguês de 22 anos, derrotou o campeão mundial de xadrez, Viswanathan Anand, da Índia. O mundo do xadrez ficou estarrecido porque sempre acreditara que a experiência e conhecimentos dos jogadores mais velhos os fazia ganhar dos jovens, mesmo que talentosos. Ao investigar a razão da vitória de Carlsen, viu-se que tinha treinado principalmente jogando contra as IAs de xadrez sofisticadas, disponíveis em computadores pessoais nos anos 2000. Seu estilo era diferente de qualquer outro anterior. Não se submetia a tradições e convenções dos grandes mestres do xadrez. O jovem jogava com base nos “modelos” das milhares de partidas contra os melhores jogadores do mundo. Afinal, um algoritmo de xadrez não se limita a leis físicas e à passagem do tempo, é capaz de jogar contra si mesmo e contra inúmeros outros jogadores em paralelo, continuamente, a velocidades desconhecidas ​​para organismos vivos. Assim, pode-se inferir que o jovem que derrotou o campeão mundial aprendeu de uma enorme experiência assimilada. Era como se, como enxadrista,  tivesse muitos anos de vida, com uma experiência de milhares de jogos de xadrez.

O exemplo mostra que a importância da tecnologia digital não é sua capacidade intelectual bruta. Seu poder vem da capacidade de escapar do tempo histórico. Os algoritmos podem acelerar o tempo e aprender muito mais e mais rápido do que qualquer humano jamais o fez.

Até aqui ainda controlamos os computadores, que podem funcionar como “próteses cognitivas” em nossos corpos e mentes para aumentar nossa experiência efetiva e ampliar os limites do tempo. Ao usarmos o Google para pesquisar a resposta a uma pergunta qualquer, “envelhecemos”, porque não esperamos, como os antigos, que as respostas cheguem no tempo devido. Aceleramos o tempo e puxamos o futuro para o presente. Cada vez que o corretor corrige ou completa nossa escrita, estamos aproveitando uma experiência de leitura e escrita equivalente a centenas ou milhares de anos de experiência de vida humana. Quando usamos uma anotação digital ou outra ferramenta de gerenciamento de conhecimento, movemos trechos de informação através do Tempo Artificial. Em vez de usarmos apenas as lições recentes disponíveis, acessamos a produção intelectual de anos. Não porque somos mais inteligentes, mas porque usamos muitas experiências anteriores.

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Isso significa que os computadores abrangem milhares de anos em tempo experiencial. As AIs (Inteligência Artificial) funcionam fora do tempo natural e podem sentir, registrar, gerar e digerir a História na velocidade de décadas ou séculos por semana. Nossos cérebros precisam aprender a lidar com esse Tempo Artificial, que adiciona décadas ou séculos a cada ano que vivemos. Não somos testemunhas do surgimento da Inteligência Artificial, somos um agente dela aumentado pelo Tempo Artificial.

Foi com meu cérebro digerindo esta tese complexa de tempo artificial que assisti na TV ao primeiro episódio de uma série que meu neto de 13 anos aguardava ansiosamente. A história versa sobre um deus da mitologia nórdica, trazido para um tempo milhares de anos à nossa frente. O personagem é Loki, Deus da trapaça, do engano. Os deuses nórdicos do futuro têm superpoderes e, como os do Olimpo grego, são bastante humanos, com qualidades e defeitos.

Gostei muito de assistir com meu neto, claro. E o enredo me pareceu um prato feito para discutir as noções de tempo com os alunos na escola. Os roteiristas imaginam suas histórias com base em pesquisa e estudos e, neste episódio, especialmente de Física. Os personagens viajam no tempo com absoluta naturalidade e dominam o tempo próximo imediato, como, por exemplo, numa tentativa de fuga de Loki, em que ele sai correndo para alcançar a porta, mas seu captor aperta um botão numa maquineta que tem na mão e o arrasta de volta; na verdade, a maquineta o traz de volta ao instante em que ele iniciou a fuga e não a parir do tempo “depois”, quando já está perto da porta. É um detalhe complicado de entender e que pode dar ao professor e aos alunos panos para mangas de discussões incríveis. O conceito de tempo é fascinante e o vocabulário usado no filme pode ser explicado para que os alunos possam dar significado às palavras que escutam.

Pensei muito sobre as crianças e jovens crescerem com essas narrativas, que falam em dominar o tempo e viajar para outras eras. Embora essas noções científicas em livros e filmes não sejam novidade, hoje o acesso às descobertas e invenções reais recentes da ciência contemporânea é fácil e, junto com os recursos cinematográficos existentes, permitem que os roteiristas inventem sobre possibilidades reais e não apenas fantasias.

A questão da possibilidade de mudar nossa situação no tempo, de que trata o seriado, e a experiência de conhecimento adquirida ao longo de um  tempo, de que trata Sam Altman, leva a pensar no quanto as crianças sabem ou podem saber. As histórias fantásticas podem trazer experiências cognitivas que, se trazidas para discussão em sala de aula, podem ser muito produtivas. Esses filmes, séries e livros são parte do universo em que as crianças atuais mergulham quando não estão na escola; um espaço, entre outras coisas, com mitologias recontadas ao gosto contemporâneo, cheios de referências científicas, morais, artísticas, políticas etc.  São assuntos significativos (além de divertidos) para a compreensão de muitos conceitos complexos, que a escola pode propor aos alunos para que saibam refletir sobre o que veem, sobre o que leem e sobre o que escutam no seu cotidiano.

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