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Patricia Lins e Silva Por Patrícia Lins e Silva, pedagoga Educação

Professores, os únicos que não se curvam diante do Imperador do Japão

Ser professor é uma profissão penosa e exigente. Ensinar é modificar e aprender é se transformar

Por Patricia Lins e Silva 14 out 2021, 14h10

Existe uma imagem que mostra um professor que não está curvado diante do Imperador do Japão. E a legenda que acompanha a imagem explica que os professores são os únicos que não se curvam diante do Imperador porque, sem eles, os professores, não haveria um Imperador. Dizem que é uma lenda, mas é uma bela lenda.

Acredito de verdade na importância do professor e acredito de verdade na importância da educação. E por educação não acredito em decorar um rol de assuntos diversos para fazer provas, tirar notas e passar de ano.

Educar é transformar. É despertar a curiosidade, é produzir a inovação. Educar é não tolher o interesse natural que temos por tudo o que está à nossa volta. Jamais esqueci do dia em que aprendi que o filósofo grego Aristóteles dizia que todo ser humano deseja, por natureza, aprender. E é verdade. Todos desejamos aprender. O que não significa insistir em assuntos descontextualizados e tirar notas para passar de ano. Isto é aprendizagem burocrática, que é muito diferente de produzir conhecimento.

No dia 15 de outubro vamos comemorar o dia dos professores em alto e bom som para acordar um país que não liga para a educação de suas novas gerações e, consequentemente, não preza o professor. Para lembrar que é possível, desejável e imprescindível reconhecer os professores, recorremos à Finlândia, país sempre lembrado por seus sucessos na educação básica; um país pequeninho, muito longe de nós, muito gelado, mas que participa conosco do mesmo teste de avaliação internacional e, diferente de nós, sempre se sai bem nos resultados divulgados pelo ranking do PISA.

Ao tentar entender por quê essa diferença, nos deparamos com o fato de que o sonho finlandês é que todas as suas crianças, independentemente da origem familiar ou condições pessoais, tenham uma boa escola pública em sua comunidade. E há mais de 40 anos insistem neste foco. Na história da Finlândia, os professores são vistos como as pessoas que trouxeram a civilização para as pequenas aldeias, enquanto o país se modernizava durante o século 20. Uma nação pequena, agrária, considerou que a melhor maneira de acompanhar a industrialização era educar todos os seus jovens igualmente bem. Outros fatores historicamente específicos também ajudaram a moldar a qualidade das escolas da Finlândia, como uma população pequena e a ampla aceitação de valores como igualdade e colaboração, que são incorporados ao modelo de bem-estar nórdico. Os professores na Finlândia são profissionais autônomos, respeitados e reconhecidos por fazerem a diferença na vida dos jovens.

As escolas de formação de professores da Finlândia funcionam como colégios de aplicação de universidades. Equivalem a hospitais universitários para estudantes de medicina. O ensino básico é tão importante quanto treinar médicos. Sua formação longa e cuidadosa dura 5 anos para que os professores adquiram autonomia para trabalharem da maneira que desejam. A coisa mais importante que aprendem é a tomar decisões pedagógicas e a saber julgar por si próprios. É uma profissão altamente valorizada e a competição por uma vaga nas escolas de professores é acirrada – apenas 7% dos candidatos costumam ser aprovados.

Diante do exemplo finlandês, nosso professor brasileiro precisa ser ainda mais festejado, merece todas as homenagens porque lida cotidianamente com uma série de obstáculos, desde o descaso do governo até as carências das crianças e jovens que frequentam as escolas públicas, com as dificuldades de lidar com as lacunas culturais e privações de toda espécie, das exigências burocráticas, dos currículos engessados e, ainda mais, com a desqualificação. Vamos festejar o Dia do nosso Mestre esclarecendo, de uma vez por todas, que ser professor é uma profissão penosa e exigente, que não basta ficar na frente de uma turma, falar alguma coisa ou escrever na lousa. Ensinar é modificar e aprender é se transformar. É esta a tarefa de um professor. É bom saber que há países que valorizam a profissão, mas sabemos que, mesmo com toda a desconsideração com que são tratados, os nossos professores se dedicam a educar as novas gerações. Todos sabem o quanto são importantes para despertar nos alunos o interesse pelos acontecimentos ao redor, pela leitura do mundo, pelo questionamento do papel de cada um no seu momento histórico-social. Ser professor é ter um compromisso com as novas gerações e ter um professor pode fazer toda a diferença na vida de uma pessoa.

Tenho o orgulho e o privilégio de conhecer e conviver com professores todos os dias, testemunhando sua relação de educação saudável, envolvente e generosa com os alunos.

Parabéns, Mestres!

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