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Patricia Lins e Silva Por Patrícia Lins e Silva, pedagoga Educação

O que podemos aprender com a história da ponte sobre o rio Choluteca

Uma lição relevante do que pode acontecer com o trabalho, as profissões, a escola, a vida numa realidade que se transforma depressa

Por Patricia Lins e Silva 17 ago 2020, 10h49

Jamais ouvi falar de um rio chamado Choluteca. E muito menos de uma ponte sobre ele. Mas essa ignorância não me causou problemas porque, afinal, o rio Choluteca fica muito longe daqui, em Honduras, um país da América Central. E não parece ser um rio como o Amazonas ou o Nilo, ou o rio Sena e alguns outros, que – cada um por suas razões específicas – tornaram-se famosos. No entanto, um evento particularmente curioso, de que só tive conhecimento na semana passada, me fez botar o rio Choluteca na minha galeria de rios inesquecíveis.

      Recebi um texto pela internet, atribuído a um consultor de empresas, Prakesh Iyer, que relatava para empresários as vicissitudes que podem surgir nos planos para os negócios. Como a história da ponte Choluteca é bastante singular e muito apropriada para os tempos atuais e para os que ainda vêm por aí, penso que vale uma reflexão. E a história é verdadeira, realmente aconteceu.

      Nos anos 80 do século passado, dirigentes de Honduras decidiram construir uma ponte sobre o rio Choluteca. Tiveram muita preocupação com a estrutura da ponte, que tinha uma complexidade particular, que era a de precisar ser à prova de furacões e de tempestades intensas que, volta e meia, atingem Honduras, que fica na rota desse tipo de evento climático extremo que acontece ali na região. A futura ponte precisaria resistir às forças violentas da natureza.

      Afinal, uma empresa japonesa foi contratada e construiu uma ponte segura, resistente e bonita. A ponte sobre o rio Choluteca tornou-se um ícone da região, lugar de visitação e grande orgulho dos moradores locais.

      Passou-se o tempo, que nem foi muito longo, e um furacão, nomeado Mitch, cruzou Honduras com força catastrófica e provocou uma devastação e deixou um rastro de destruição pelo país. Mas a Ponte do Choluteca resistiu ao desastre, manteve-se incólume, ficou inteira. A não ser por um único problema.

      Durante as tempestades violentas, o rio Choluteca transbordou e inundou a região. Um tempo depois, quando as águas da enchente baixaram, a ponte estava inteira e perfeita, mas não estava sobre o Rio Choluteca e sim ao lado dele. Na cheia, o rio cavou outro curso e não corria mais sob a ponte, mas ao lado dela. A ponte estava lá, intacta, mas sua função tinha deixado de existir. Não levava mais de um lado ao outro do rio.

      A história inusitada, que aconteceu há mais de 20 anos, é uma lição relevante e ótima metáfora para o que pode acontecer com o trabalho, as profissões, a escola, os negócios, as vidas das gentes numa realidade que se transforma tão depressa.

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      Ao projetar para o futuro, na maior parte das vezes, nos baseamos no que conhecemos no tempo presente. Esquecemos que os acidentes, as rupturas, os acasos, as mudanças ou problemas podem surgir de repente e desfazer programas, planejamentos e certezas. Além de sonhos, desejos e esperanças. Está aí a pandemia do covid-19 como exemplo. A última pandemia aconteceu há muito tempo, cem anos, não é um evento sistemático, mas alerta para a possibilidade de mudanças radicais, que não são provocadas apenas pelos eventos excepcionais das reações da natureza.

      A tecnologia digital, certamente, é uma candidata potente (além da mudança climática, que fica para outro dia) para provocar transformações extremas, o que causa a sensação desconfortável de instabilidade diante das infinitas possibilidades de invenção e de descobertas que só existiam na ficção científica. Hoje se tem até a possibilidade de estar ao mesmo tempo em realidades diferentes, como a virtual e a “real”. E é uma tecnologia que se alimenta a si própria, o que a faz se aprimorar e mudar a própria trajetória subitamente, surpreendentemente, com saltos qualitativos e cada vez mais rapidez.

      Já contei aqui que Yuval Harari, historiador israelense, autor do best seller Sapiens, diz que só contamos com uma única certeza para os futuros (propositalmente no plural): a mudança. E a humanidade terá que se adaptar a novas e diferentes situações em tempos radicalmente curtos. Para viver, agora, é preciso ter a habilidade de se adaptar.

        Prakesh Yier aconselha sobre planejar o futuro no momento presente: refletir bastante antes de seguir mais um curso de especialização, porque a área pode se tornar obsoleta em breve; não esquecer que as necessidades atuais podem desaparecer; avaliar bem se vale a pena abrir um escritório ou filiais dos negócios diante da realidade da comunicação virtual e das mudanças do mundo.

        Não adianta as pessoas das próximas gerações saberem muito de uma única especialidade porque provavelmente terão que aprender coisa bem diferente dali a poucos anos.  Para conviver com tantas mudanças bruscas e frequentes será necessário desenvolver a capacidade de adaptação a novas circunstâncias – que inclui saúde mental – porque os humanos viverão diversas experiências diferentes repetidamente – e que podem ser radicalmente diferentes entre elas – durante suas vidas.

          Esse é um bom tema para a escola. As novas gerações precisarão resistir aos desafios de repetidas mudanças e de contínuas adaptações no tempo em que vão viver. A aprendizagem precisa ser transdisciplinar para resolver problemas que envolvem saberes de todas as áreas. Ao construir soluções para problemas e para tomar decisões é preciso incluir a noção de que os próprios problemas podem mudar. Os cenários devem ser pensados de modo amplo, planetário, com base em probabilidades, com criatividade e inovação.

              Foi-se o tempo em que bastava se concentrar na construção de uma ponte resistente. A crença de que as coisas eram feitas para durar foi superada. Agora tudo precisa ser estruturado para se adaptar. Ninguém quer uma ponte perfeita que não leva a lugar nenhum.

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