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Patricia Lins e Silva Por Patrícia Lins e Silva, pedagoga Educação

As marcas de 2020 e o impacto da eleição americana

É preciso acreditar na possibilidade de diálogo entre os discordantes e amenizar os sentimentos tribais que tomam conta do mundo

Por Patricia Lins e Silva Atualizado em 2 nov 2020, 20h46 - Publicado em 2 nov 2020, 20h38

O dia 3 de novembro do ano da pandemia é um dia crucial para as gerações que vivem esse momento da civilização. Nesse dia, o resultado da eleição para presidente dos Estados Unidos da América do Norte terá forte influência, não apenas no nosso futuro, mas no destino do mundo inteiro. Com a economia mais forte do planeta, o país orienta os comportamentos e a visão de mundo de todos os povos. A favor ou contra, querendo ou não, a partir da 2ª Grande Guerra Mundial, que durou de 1939 a 1945, no século passado, iniciou-se um modo de vida à volta das ações norte-americanas.

Mais para o final do século, a tecnologia digital provocou mudanças significativas no modo de viver da humanidade. E é uma tecnologia que ainda está “em curso”, “em andamento”, isto é, suas possibilidades de desenvolvimento, invenção e criação estão longe de estar esgotadas. Portanto, mudanças ainda mais radicais virão nos modos de sermos, de agirmos, de vivermos.  E como que para confirmar isso, agora, na segunda década do século 21, soubemos, perplexos, que a internet viabiliza o conhecimento de nossas reações psicológicas. Melhor do que nós mesmos. Nossas vontades, desejos, emoções são desvendados por algoritmos, programados por matemáticos, e fornecemos nossos dados voluntariamente a corporações que pagam (não a  nós) para capturar nossas preferências. As escolhas que fazemos nas plataformas digitais que usamos tornam possível perceber nossos desejos antes de nós próprios e penetrar nossas mentes, modificando-as, enviando estímulos nesse sentido. Estímulos que podem provocar muita paixão, amor ou aversão, e nem chegamos a perceber que estamos a ser manipulados. Isso foi revelado em depoimentos e documentários diversos, que mostram a intervenção digital em plebiscitos e eleições recentes, cujos resultados foram influenciados por mensagens recebidas, falsas ou não. Ficamos sabendo que é verdade que a máquina pode nos modificar. Infelizmente não é uma teoria da conspiração. É real.

Diante desse ingrediente da tecnologia na política, o envio avassalador de mensagens para os eleitores polarizou o mundo, e as eleições americanas são um fato decisivo para a saúde do planeta. Saúde física e saúde mental. É preciso acreditar na possibilidade de diálogo entre os discordantes e amenizar os sentimentos tribais que tomam conta do mundo. Esperamos que nada venha a acirrar mais as diferenças, pelo contrário, necessitamos de mais concórdia. 

O comportamento tribal não se apoia na responsabilidade pessoal. Quem está dentro da tribo vive, pensa e age como a tribo. Quem não pertence à tribo é inimigo.

A moral ‘não tribal’ implica responsabilidade pessoal pelas próprias ações. Os valores pessoais são construídos no grupo, mas cada um é responsável por seus atos. As fronteiras dos grupos são porosas e os outros são vistos como possíveis companheiros.

O mundo já passava pela polarização política antes da pandemia. O isolamento incitou a falta de conversa entre os discordantes e intensificou uma crise econômica que, por sua vez, desvelou – para quem não queria ver – a absurda desigualdade de condições de vida entre as pessoas no planeta. Alguns acumulam riqueza inimaginável para quem não tem sequer como adquirir comida para sobreviver. O agravamento da crise climática, com catástrofes naturais, aponta para a ameaça de uma 5ª extinção em massa por volta do ano 2100. A última foi a que extinguiu os dinossauros. Pode parecer que os 80 anos que faltam é muito tempo, quase um século, mas para chegar lá existe um caminho a trilhar, uma jornada árdua.

Estruturou-se um cenário ameaçador para os valores democráticos, que não se pensava que voltariam a ser postos em questão. É difícil saber se o sistema resiste a tantas mudanças problemáticas.

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As novas gerações aprendem que o que parece acontecer longe de nós, pode nos afetar muito. As novas tecnologias diminuíram o mundo, encurtaram o tempo, não é possível se alhear aos problemas que dizem respeito a todos os habitantes do planeta.

É função da escola encaminhar seus alunos para examinar seu pertencimento à espécie humana, o que é ter consciência das coisas, ter consciência de poder construir conhecimento, ter consciência de amar, de estudar, até mesmo de poder pensar sobre o que é ter consciência. O sentimento de solidariedade, que vemos emergir em muitos, mostra que somos generosos e que tendemos a nos proteger mutuamente. A escola tem enorme responsabilidade nesse momento da humanidade porque é o lugar onde a juventude pode refletir,  conversar e aprender que não há saída sem diálogo consistente, com argumentos e com escuta para o outro.

Para evitar tempos ruinosos, todos devemos exigir que pessoas sensatas, judiciosas e racionais liderem as mudanças necessárias para preservar a civilização. O planeta sofre de um problema sistêmico que exige uma mudança sistêmica. 

Assim, o ano de 2020 será marcado pela chegada da pandemia e pela eleição do dia 3 de novembro nos EUA. Uma eleição marcada pela polarização, o que é uma lástima, porque nunca o mundo precisou tanto de dialogar, de se agregar, de conversar para construir – ou reconstruir – as esperanças num futuro possível para todos.

A geração mais velha, injustamente, está a delegar às novas gerações a solução dos problemas. É injusto, sim, mas o mundo agora aguarda que a força vital da juventude exija que aqueles que não foram previdentes lutem por um planeta mais saudável. Que os jovens instituam um planeta sadio em todos os sentidos, tanto na contenção do aquecimento global, como na prevenção de desastres sanitários quanto na fundação de uma sociedade planetária justa e afetuosa.

As marcas do ano de 2020 mostraram que, para viver a experiência fascinante da vida, é preciso ter alegria, para compartilhar; empatia, para amar; e sabedoria, para trocar ideias e conhecimentos. 

O futuro está nas mãos de quem está aqui, agora.

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