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Patricia Lins e Silva Por Patrícia Lins e Silva, pedagoga Educação

Aguardando a alegria dos abraços

Estamos sonhando com o dia em que começaremos a reconstituir os laços com os outros e a sentir a alegria deste afago       

Por Patricia Lins e Silva 21 dez 2020, 19h45

       Passado o susto inicial da chegada do vírus e a surpresa do começo da pandemia, entramos num modo de viver que inclui a Covid-19, ainda receosos e cansados, a esperar a vacina, felizmente já anunciada.

       A vacina, embora realizada num andamento recorde, não chegará a tempo de amenizar as marcas que 2020 deixou na humanidade, um ano que dividiu nossa era em antes e depois da pandemia.

       É curioso como não sabemos lidar com o que não vemos. Não conseguimos apreender a potência agressiva de vírus invisíveis. Também temos dificuldade em perceber a ameaça das mudanças climáticas, que parecem estar num tempo perto de nós. Para perceber a urgência de ameaças não visíveis no espaço, e não imediatas no tempo, talvez seja necessário um certo grau de abstração.

       Se nos últimos meses o mundo não mudou, nós mudamos. Despertamos para um mundo sem certezas, com perspectivas imprecisas. Por mais que desejemos, sabemos que não vamos recomeçar de onde paramos.

       Nesse período, resgatamos tempos de espera, calma e paciência, perdidas no imediatismo e na ansiedade da vida acelerada anterior à pandemia.

       O mundo foi obrigado a encarar os problemas humanos críticos já existentes, como a inaceitável desigualdade econômica e social, problemas que só se agravaram no período. Reconheceu-se a urgência de solucionar a afronta da fome e providenciar educação e saúde para todos.

       Percebemos que nosso modo atual de viver rompeu os vínculos de cada um de nós com o grupo, num movimento individualista que nos apartou da coletividade. Individualistas, recusamos a responsabilidade pelos acontecimentos e pelos outros. O atual uso de máscaras é uma boa metáfora dessa necessidade: é preciso usá-las para proteger os outros mais do que a nós próprios. Embora muito banalizada, a palavra empatia é bem adequada para significar a capacidade que nossa espécie tem de reconhecer o sentimento do outro. Somos capazes de amparar ou festejar o outro, conforme a situação. É na relação entre as pessoas que se constitui nosso processo civilizatório.  

       Terminamos o ano à la Covid-19, sem festas e jantares, com a esperança na vacina que pode nos devolver a segurança para encontrarmos nossas novas rotinas.

       Enquanto isso, vamos sonhando com o dia em que começaremos a reconstituir os laços com os outros e a confiar que não são uma ameaça. Queremos voltar a sentir a alegria dos abraços.

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