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Patricia Lins e Silva Por Patrícia Lins e Silva, pedagoga Educação

A responsabilidade de votar

Nosso voto interfere nos destinos da coletividade e influencia o futuro imediato e o das próximas gerações

Por Patricia Lins e Silva 11 nov 2020, 18h16

            A polarização política que invadiu o mundo ofusca a fruição das eleições, um momento muito significativo para nós, cidadãos dos países democráticos. A radicalização excessiva tolda a alegria desse dia, o dia em que escolhemos os representantes que vão deliberar orientações para a comunidade, a cidade, o estado, o país.

         Votar é uma escolha crítica e grave. Não se vota para obter vantagem pessoal ou porque alguém pediu ou determinou. É um ato racional, individual e secreto. A escolha que fazemos decide nosso futuro, o futuro de nossos filhos e o das gerações seguintes. Votar não é a única ação de uma cidadania responsável, pois se espera que os cidadãos participem sempre da vida da comunidade e não apenas nas eleições.

         No nosso país, não temos o hábito de cobrar o desempenho dos candidatos depois que foram eleitos. É raro termos contato com eles e também não enviamos mensagens para elogiar ou discordar. No entanto, essa é uma boa prática, que ajuda a compreender a responsabilidade que temos de pressionar os representantes a prestarem conta de suas ações a seus eleitores. E quando as ações parecem inadequadas, faz parte da democracia participar de protestos para manifestar desagrado.

         Em época de eleições, a escola e os pais se preocupam em falar de política com as crianças porque todos desejam que elas saibam o que significa participar de uma democracia. Os conceitos são abstratos, difíceis para os pequenos, mas pode-se tentar adaptar a linguagem ao entendimento de cada faixa de idade.

         Os menores tendem a compreender as eleições como uma competição, com o lado de quem ganha e de quem perde; mas vale tentar ampliar um pouco a conversa, abordar questões de que a criança ouviu falar, como COVID – 19, economia, racismo, desigualdade social.

         Quanto mais crescem, mais as crianças escutam prestam atenção ao que se diz à sua volta. Como elas as interpretam as opiniões depende da possibilidade de conversar com os adultos que as rodeiam. É ilusão achar que estão alheias ao ambiente político e à polarização que vivemos. Escuta-las e manter um diálogo amigável ajuda-as nas suas preocupações. Alguns pais desejam que os filhos tenham sua tendência política. A princípio, pouco precisam se preocupar porque, em geral, é o que acontece.

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             A escola é o melhor lugar para se discutir as controvérsias, para se aprender a discordar com civilidade e argumentar com lógica. Na escola, pode-se recuperar o conceito da palavra política, que vem sendo interpretada como um assunto indigno e inescrupuloso. A definição do filósofo grego Aristóteles, que diz que apolítica é a ciência que tem como meta a felicidade humana, dá a dimensão de como sua significação está distorcida. Para Aristóteles, a política se dividia entre ética e política propriamente dita, a ética tratava da felicidade de cada homem na polis (a cidade grega) e a política propriamente dita tratava da felicidade coletiva. É bom que os jovens conheçam essa definição e a discutam para relaciona-la à realidade em que vivemos.

                    A política faz parte da vida humana. Quando o cidadão expressa opinião para defender seus direitos nos assuntos públicos, ele faz política. Nas democracias ocidentais, a política está em associações, sindicatos, partidos, protestos, e mesmo individualmente, para defender melhorias para a sociedade civil. Política pressupõe diálogo, mesmo entre adversários.

         Numa democracia, espera-se que qualquer dissenso seja superado por conversas civilizadas. Winston Churchill, o famoso primeiro Ministro da Inglaterra na II Grande Guerra Mundial, no século 20, dizia que ‘A democracia é o pior sistema de governo que existe, com exceção de todos os outros’.

         As discussões e as reflexões políticas estabelecem normas que devem ser respeitadas por todos os cidadãos. Como nem todos pensam da mesma maneira, para tornar possível a vida em sociedade, para tornar possível a vida numa democracia, as pessoas obedecem às leis e o governo é justo.

         A democracia tem sofrido muitas agressões e passado por muitas crises, mas conseguiu sobreviver sempre que foram preservados o império da lei, a imprensa livre, a cidadania ativa e, principalmente, a liberdade.

         Nas eleições, costumamos avaliar se aquele a quem vamos entregar nosso voto vai cumprir o prometido empenho nas causas da comunidade e do país que deixaremos para nossos descendentes. Nosso voto tem grande importância porque interfere nos destinos da coletividade e influencia o futuro imediato e o das próximas gerações. Portanto, votar implica pensar para além de si próprio, de seu núcleo próximo, no tempo e no espaço.

         Votar exige responsabilidade.

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