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Manual de Sobrevivência no século XXI Por Analice Gigliotti, Elizabeth Carneiro e Sabrina Presman Psiquiatria

Como as redes sociais estão adoecendo os jovens?

A internet armou um ciclo vicioso e nocivo que tem castigado a saúde mental dos adolescentes

Por Analice Gigliotti - 12 mar 2020, 17h01

Quem foi criança entre os anos 70 e 90 passou boas horas diante da televisão. A “babá eletrônica” era um entretenimento barato e acessível, apesar da disputa pelo controle remoto. Mas com o surgimento da internet e, mais recentemente, das redes sociais, tudo mudou. A televisão começou a dividir a atenção dos jovens com outras telas, como tablets, computadores e celulares. Passados alguns anos, a ciência é categórica: as redes sociais estão deixando nossos jovens doentes.

Diante de evidências do aumento de casos de depressão e suicídio, especialistas foram investigar e identificaram que a causa do comportamento dos jovens é o uso excessivo de internet. E não ficou por aí: as horas online também se mostraram responsáveis pelo crescimento de ocorrências de transtorno alimentar e comportamento agressivo entre os jovens.

A média de tempo de acesso desta faixa etária é de seis a oito horas, cerca de um terço do dia! Os estudos concluíram que a questão não é o tipo de mídia social que frequentam – Tinder, Youtube, Facebook, Instagram, jogos on-line -, mas a quantidade de horas gastas nelas.

Pesquisa pioneira da Universidade Federal do Espírito Santo, realizada em 2019 com 2 mil adolescentes entre 15 e 19, mostrou que 25,3% são dependentes moderados ou graves de internet. O número de casos de ansiedade é duas vezes maior (34%) entre os dependentes tecnológicos.

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Adolescentes estão sempre em busca de novidades – e é bom que seja assim -, mas também são mais sensíveis a elas: têm menos controle decisório e capacidade de arbitrar o que é bom e o que não é. A formação total do cérebro só acontece entre os 20 e 25 anos e isso transforma os adolescentes em um alvo perfeito a ser explorado, já que o grande ativo das mídias sociais é a captação de dados dos seus usuários. Quanto mais tempo passam conectados, mais dados são apreendidos: assim está armado o ciclo vicioso e nocivo que tem vitimado a saúde mental dos jovens.

Nessa corrida do ouro para que os usuários permaneçam conectados o maior tempo possível, lançam-se mão de todas as ferramentas e algoritmos. Quando temos uma experiência prazerosa, o cérebro ativa um neurotransmissor chamado dopamina. Isso acontece, por exemplo, quando alguém come chocolate, pratica exercício físico, faz sexo, usa drogas ou… ganha likes na rede social. E o oposto também é real: sabe aquela sensação frustrante de caprichar na foto e ter poucas curtidas? É esse “cassino emocional” que está adoecendo os adolescentes. (O uso da palavra “cassino” aqui é proposital: já reparou que o movimento de arrastar a tela do celular para baixo, com a intenção de atualizar a página, é o mesmo das máquinas de caça níquel?)

Mais do que se utilizar de estratagemas para engajar novos usuários, o que vemos são recursos bastante questionáveis para o “enganchamento”: uma vez preso à rede social, é difícil sair dela. Jaron Lanier, considerado o pai da realidade virtual e uma das maiores referências em tecnologia no Vale do Silício, é bastante objetivo no livro “Dez argumentos para você deletar agora suas redes sociais” (Editora Intrínseca): “Evito as redes sociais pela mesma razão que evito as drogas.”

Trata-se de uma mudança de paradigma de comportamento que exige readequação de todos nós. Até há bem pouco tempo, não tínhamos uma educação digital. Nossa sociedade foi lançada à um mundo violento de informação e novidades em escala algorítmica, sem saber o que nos esperava. Nenhum pai sabia quais seriam as consequências de expor os filhos a tantas telas. Mas hoje sabemos.

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O resultado das muitas horas conectados à internet aparece nos consultórios: jovens desacostumados da vivência de frustração. Gosto da imagem das antigas salas de espera de médicos, onde não havia nada a fazer a não ser… esperar. Viver os tempos mortos. Isso acabou. É uma geração ocupada o tempo todo pela falsa companhia de um aparelho celular. São adolescentes que não se conectam consigo mesmos, preocupados com as aparências, com o externo a eles, com o que mostram nas telas. A vida reduzida a uma vitrine para os outros. A consequência é um vazio gigantesco: eles não estão preenchidos por nada.

Por outro lado, seria ingenuidade imaginar um jovem sem celular ou sem conexão à internet. É naquele ambiente que parte das suas vidas acontecem. É no universo online que muitos descobrem não estar sozinhos em uma fase difícil da vida, de descobrimento de traços da personalidade, como a sexualidade. No campo vasto da internet, todas as tribos se encontram. Ela não é, por si só, uma inimiga. Mas a internet requer moderação. Este é o ponto: a medida certa. Não é razoável expô-los completamente à tecnologia e essa supervisão cabe aos pais ou responsáveis.

A Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) recomenda que de zero a dois anos a criança não tenha qualquer exposição a telas. Entre dois e cinco anos, no máximo 1 hora diante de tela. De seis a 10 anos, entre 1 e 2 horas ao dia. E dos 11 aos 18 anos, exposição máxima de 3 horas por dia diante de telas, incluindo videogame, e mesmo assim, equilibrando com a prática de atividade física.

Outra orientação aos pais é não permitir que o jovem se isole no quarto com computador, smartphone, tablete ou celular; o uso deve ser em áreas comuns da casa. O horário das refeições deve ser respeitado, sem acesso ao celular à mesa. Especialistas também sugerem que se adote um “dia sem conexão”, em que todos deixam os gadgets de lado por algumas horas, para estimular o convívio em família.

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É fundamental que os adultos também façam um uso racional de computadores, celulares e redes sociais em nome da saúde dos próprios filhos. Dar o exemplo não é a melhor maneira de educar os outros. É a única.

Analice Gigliotti é Mestre em Psiquiatria pela Unifesp; professora da Escola Médica de Pós-Graduação da PUC-Rio; chefe do setor de Dependências Químicas e Comportamentais da Santa Casa do Rio de Janeiro e diretora do Espaço Clif de Psiquiatria e Dependência Química.

 

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