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Manual de Sobrevivência no século XXI Por Analice Gigliotti, Elizabeth Carneiro e Sabrina Presman Psiquiatria

Quando a mentira vira doença?

Suposições sobre a estilista carioca Layana Thomaz questionam o comportamento de quem mente compulsivamente

Por Analice Gigliotti - Atualizado em 12 ago 2020, 11h27 - Publicado em 10 ago 2020, 16h31

Um imbróglio envolvendo a artista plástica Rafaela Monteiro e a estilista carioca Layana Thomaz veio a público esta semana. Ex-amigas, a primeira levanta suspeitas se não seriam mentiras diversos fatos da vida da segunda, incluindo uma falsa gestação e um bebê natimorto. O caso promete ir longe com acusações mútuas e ameaça de processos.

Sem intenção de julgar ninguém, meu objetivo é refletir sobre a mentira. Ela está mais presente no nosso dia a dia do que podemos nos dar conta: pesquisas afirmam que ouvimos de 10 a 200 mentiras por dia, desde uma mentira sem propósito específico ou para não magoar alguém (também conhecido como mentira branca), até mentiras mais graves, que podem prejudicar outras pessoas.

A mentira é muitas vezes tão involuntária como a respiração”, escreveu o brilhante Machado de Assis no século XIX. No entanto, a frase parece mais atual do que nunca. A sociedade contemporânea está ancorada em falsas felicidades propagadas nas redes sociais e “fake news” se tornou uma expressão corriqueira em diversos países. Ou seja: faltar com a verdade é um componente intrínseco à nossa existência desde sempre – e parece ainda mais aflorado nos dias de hoje.

Não posso e nem quero afirmar que seja o caso de Layana, mas toda a história que a envolve suscita um questionamento interessante: aos olhos da psiquiatria, o que leva alguém a mentir compulsivamente?

De modo geral, o comportamento de mitômanos tem origem na infância, em sentimentos de imperfeição, de desvalorização ou de desrespeito ainda quando criança. Outros, excessivamente exaltados na infância, mentem para manter o padrão. A priori, a mentira patológica não é entendida como uma doença, mas sim como um sintoma. Geralmente, são casos de transtornos de personalidade – como narcisistas e borderlines. Um traço interessante é que sentimentos de culpa ou sofrimento não necessariamente acompanham mentirosos contumazes chegando até, em alguns casos, a acreditarem na própria mentira. Embora sejam sagazes e curiosos, de modo geral, eles não tem capacidade de perceber que o interlocutor está identificando a mentira e seguem na sua atitude usual.

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Didaticamente, podemos dividir os mentirosos em grupos por padrões de comportamento, embora essas fronteiras se misturem na vida real e um modus operandi acabe convivendo com outro. Dois tipos de procedimento se destacam. O primeiro são as pessoas que querem pertencer a um grupo e conquistar sua compaixão ou admiração. Para isso, constroem um falso self mostrando-se diferentes do que são: escondendo o que julgam ser pequenas falhas e tropeços ou dizendo que são mais poderosas, mais ricas ou mais bem-sucedidas do que de fato são, acreditando que isso trará a admiração ou o amor do outro. Em outros casos, simulam doenças para obterem a atenção de parentes, amigos e médicos. Tal comportamento compulsivo tende a se tornar uma bola de neve, porque o mentiroso reincide para se sentir amado novamente.

A segunda categoria de mitômanos são os que visam intencionalmente benefícios. São aquelas pessoas que mentem para obter algum ganho, que se valem de mentiras para conseguir o que querem, uma expressão clara de desvio de caráter, num comportamento antissocial.

Mas e quem recebe – e acredita! – na mentira? Lamento informar, mas não se trata de mera ingenuidade. De modo geral, acreditamos no que nos convém. Quem põe fé deliberadamente em mentiras, o faz porquê, de alguma forma, elas suprem suas carências. Portanto, vale ficar atento ao quê e em quem você deposita sua confiança.

Pelo sim, pelo não, fique tranquilo, leitor: todas as informações contidas neste texto são verdadeiras.

O que comprova que para toda regra existe uma exceção.

Analice Gigliotti é Mestre em Psiquiatria pela Unifesp; professora da Escola Médica de Pós-Graduação da PUC-Rio; chefe do setor de Dependências Químicas e Comportamentais da Santa Casa do Rio de Janeiro e diretora do Espaço Clif de Psiquiatria e Dependência Química.

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