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Manual de Sobrevivência no século XXI Por Analice Gigliotti, Elizabeth Carneiro e Sabrina Presman Psiquiatria

O coronavírus matou o tesão?

Os últimos meses não favoreceram o lado sexy e atraente das pessoas

Por Analice Gigliotti - Atualizado em 22 Maio 2020, 10h33 - Publicado em 22 Maio 2020, 10h18

Há algumas semanas tenho tentado escrever sobre sexo na pandemia, mas a montanha russa dos fatos urgentes sempre acabava atropelando o assunto e a coluna ganhava outro rumo. O adiamento do tema ao passar das semanas me parece um indicativo de como o sexo acabou relegado a segundo (ou terceiro?) plano nas nossas vidas e fui pesquisar o que está sendo publicado sobre o assunto. Um estudo na Turquia, com 58 mulheres, indicou que elas tiveram uma frequência de relação sexual um pouco maior durante a pandemia: passou de 1,9 vezes por semana para 2,4 vezes por semana. Outro estudo, feito na China com 459 indivíduos e publicado no The Journal of Sexual Medicine, concluiu que um em cada quatro participantes reportaram diminuição do desejo sexual desde o surgimento do coronavírus. A quarentena nos forçou a priorizar as necessidades em detrimento dos desejos. E onde que o sexo se encaixa nessa escala? Passar tanto tempo em casa resultou em mais ou menos sexo?

Antes de mais nada é preciso separar duas realidades distintas: a dos casados e a dos solteiros. Pessoas que estão enfrentando a quarentena juntas não tem nenhuma razão de precaução sanitária para evitarem fazer sexo. Na teoria, sim. Mas aí entra a vida real. Aqueles que fizerem sexo com pessoas expostas ao vírus fora de casa estão sob risco de infecção pelo parceiro assintomático. Quem achou que ia viver uma segunda lua de mel se viu diante do ensino à distância dos filhos, da pia de louça suja na cozinha, das compras do mercado para desinfetar, dos e-mails de trabalho atrasados e da televisão mostrando pilhas de caixões. O tesão sumiu.

Isso é absolutamente normal, na medida em que o tesão é resultado de uma predisposição mental. Se manter o sexo interessante vivendo sob o mesmo teto já exige criatividade, o que dizer então quando o medo da morte, o luto, as contas, dentre outras preocupações, tomam os pensamentos? Isso explica por que muitos casais preferiram ocupar o tempo fazendo um bolo ou maratonando séries.

Outro cenário totalmente distinto é o dos solteiros. Com a exigência de distanciamento social, o sexo se transformou em risco de contágio. Sexo seguro, em tempos de coronavírus, é sexo com pessoas que vivam na mesma casa. Com isso, os aplicativos de relacionamento – tão populares entre os solteiros – tiveram enorme procura e ampliaram suas funcionalidades: o Tinder permitiu a visualização de pessoas em outras cidades e no exterior e o Happn estendeu o raio de pesquisa para 90 quilômetros, ao invés dos 250 metros padrão.

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Na falta do encontro cara a cara na “night”, na boate, no barzinho, no impedimento do contato físico, as pessoas foram obrigadas a buscar novas formas de saciar o desejo. O sexo online se tornou uma realidade e a masturbação uma tábua de salvação. De acordo com o guia do Departamento de Saúde de Nova York, nós somos os parceiros sexuais mais seguros para nós mesmos neste momento. “A masturbação não dissemina a Covid-19, especialmente se você lavar as mãos (e os utensílios sexuais, como vibradores) com água e sabão por pelo menos 20 segundos, antes e depois do sexo”, decretaram os americanos. Ainda assim, há quem escolha o caminho da hipocrisia, andando de máscara na rua e se expondo ao sexo com desconhecidos na intimidade.

O fato é que os últimos meses não tem sido muito favoráveis para o exercício do lado sexy e atraente das pessoas. A maioria está exausta, ansiosa, quando não deprimida. No entanto, quarentena não significa abstinência sexual. Se for segura, a prática sexual é altamente recomendável porque ela leva prazer e relaxamento ao corpo, permitindo o desligamento de tudo ao redor, com foco exclusivo na experiência do momento. É tudo que estamos precisando em dias de pressão e humor vacilante.

Aos casados, é preciso preservar um tempo para o casal. Se por um lado o estresse do momento pode dificultar isso, por outro lado estar fisicamente juntos pode facilitar. Também é importante fazer um esforço para se manter interessado (e interessante). Não há tesão que resista a um parceiro que passa o dia inteiro de pijama. Criar – e valorizar – novos rituais, como um jantar mais caprichado ou à luz de velas é uma atitude simples e que foge da rotina. Mais que o ato sexual em si, todas as formas de intimidade física são bem-vindas neste momento: abraçar, dar as mãos, aconchegar, acarinhar, massagear e dançar são meios de aproximação possíveis e respeitosas ao estado de espírito do outro. É hora de exercitar o “sermos dois e sermos muitos”, como cantou Caetano Veloso. Já aos solteiros, paciência e juízo: é hora de se preservar para ter saúde no futuro que não tardará em chegar.

E como será o sexo depois da pandemia? Ainda é cedo para ter certezas. Historicamente, depois de longos períodos de reclusão, existe uma tendência à busca por uma maior convívio, festas, atividades nas ruas, para suprir uma carência da sociabilidade represada. Alinhado com isso, o comportamento sexual também tende a se expandir. Na Europa, onde algumas cidades já ensaiam um relaxamento do isolamento, estão em prática novos protocolos, como medição de temperatura dos clientes, inclusive em saunas e casas de swing. Assim como outras atividades que exigem interação humana, é sabido que não será como antes. Quem viver – e tiver tesão – verá.

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Analice Gigliotti é Mestre em Psiquiatria pela Unifesp; professora da Escola Médica de Pós-Graduação da PUC-Rio; chefe do setor de Dependências Químicas e Comportamentais da Santa Casa do Rio de Janeiro e diretora do Espaço Clif de Psiquiatria e Dependência Química.

 

 

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