Clique e Assine a partir de R$ 6,90/mês
Manual de Sobrevivência no século XXI Por Analice Gigliotti, Elizabeth Carneiro e Sabrina Presman Psiquiatria

Luto prolongado será considerado doença psiquiátrica a partir de 2022

Longo sofrimento passa a ser considerado um transtorno mental pelos manuais médicos

Por Analice Gigliotti Atualizado em 26 nov 2021, 20h36 - Publicado em 26 nov 2021, 10h38

Dados do IBGE, divulgados na semana passada, indicam que apenas a Covid-19 foi responsável por aumentar em 15% o registro de mortes no país em 2020, quando o número de óbitos pela doença ainda não chegava a 200 mil. De lá pra cá, triplicou.  Portanto, se considerarmos que nos últimos meses, mais de 610 mil brasileiros morreram em decorrência da doença, muitas vezes com mais de um caso na família, é fácil supor a quantidade de vidas que foram abaladas e o volume de lutos no país. Mortos por Covid não podem ser acompanhados no hospital e tem o velório restrito. Ou seja: os corpos de entes queridos foram sepultados, mas a dor da perda permanece viva. 

Estima-se que o número de pessoas com luto prolongado seja significativo. Estudo da Universidade de Princeton, de 2020, publicado em “Proceedings of the National Academy of Sciences”, dos Estados Unidos, calcula que cada pessoa morta por Covid no país tenha deixado ao menos nove pessoas enlutadas. Se 5 a 10% destas pessoas chegarem a desenvolver o transtorno do luto prolongado, o que é considerado a media nestas circunstâncias, a prevalência do transtorno associado ao luto pode chegar a 500 mil casos até o final de 2021. Mas este número pode ser ainda maior. Segundo a Associated Press, 20% dos entrevistados nos Estados Unidos perderam um parente ou amigo próximo para a doença. Isso significaria um potencial de enlutados de até 65 milhões de pessoas, o que levaria a escala do sofrimento prolongado para a casa dos milhões.

O atual momento sanitário acabou precipitando uma discussão recorrente na nossa área de saúde mental: o reconhecimento do luto maior que o normal como um transtorno psiquiátrico a partir do ano que vem, de acordo com a nova versão do Manual de Diagnósticos de  Transtornos Mentais (DSM-5), da Associação Americana de Psiquiatria, e ganha um novo código no CID-11.

Alguns dos sintomas deste tipo de luto podem ser hipertensão, arritmia, uso de substâncias psicoativas e, em alguns casos, depressão – embora seja fundamental ressaltar que luto não é depressão e que há evidências claras de que os sintomas deste transtorno são diferentes dos de transtorno de estresse pós-traumático e transtorno de ansiedade. As intervenções de tratamento mais eficazes são especificamente relacionadas ao luto e não às que normalmente são feitas para tratamento dos sintomas de depressão (como humor depressivo, perda de interesse e de prazer). Eventualmente, o uso de medicamentos pode ser necessário. Portanto, o reconhecimento do luto prolongado como um diagnóstico clínico é uma evolução para um enfrentamento mais adequado – estimativas calculam que 20% das pessoas que recebem cuidados em saúde mental tem este tipo de transtorno por luto não diagnosticado.

Mas quanto tempo deve durar um luto normal? Acredita-se que seis meses, mas não há um tempo definido e concreto para a duração de um luto. Se a perda foi inesperada ou rápida são fatores que contam para o tempo de elaboração da partida do ente querido. No entanto, há alguns comportamentos padrões que indicam o quadro de luto prolongado, como a dificuldade de superar a perda, pensamentos recorrentes, sofrimento excessivo e incapacitante pela pessoa que morreu, sentimento que perdeu uma parte de si, angústia, descrença, culpa, raiva, dificuldade de aceitação da morte, falta de sentido na vida, isolamento intenso, doenças que podem ter fundo emocional, como falta de ar, coração acelerado, dormências, tremores, gastrites, psoríase ou diarreia.

As doenças mentais, invariavelmente, são cercadas por preconceitos, mesmo com toda a informação que já possuímos sobre elas. A melhor estratégia para que o luto prolongado também não incorra nesta falácia é justamente informar que o transtorno agora é, oficialmente, uma doença e que as milhões de pessoas que sofrem dela podem e devem recorrer à ajuda especializada.

Analice Gigliotti é Mestre em Psiquiatria pela Unifesp; professora da PUC-Rio; chefe do setor de Dependências Químicas e Comportamentais da Santa Casa do Rio de Janeiro e diretora do Espaço Clif de Psiquiatria e Dependência Química.

 

Continua após a publicidade

Publicidade