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Manual de Sobrevivência no século XXI Por Analice Gigliotti, Elizabeth Carneiro e Sabrina Presman Psiquiatria

O que está por trás do pedido de demissão de Tiago Leifert?

Decisão surpreendente de se afastar da televisão no auge da carreira faz muita gente pensar na própria história

Por Analice Gigliotti Atualizado em 14 set 2021, 12h36 - Publicado em 13 set 2021, 08h20

Um dos maiores talentos da televisão hoje, Tiago Leifert surpreendeu o Brasil ao decidir deixar a TV Globo. Nada de corte ou demissão. Leifert escolheu, espontaneamente, deixar a emissora onde fez carreira e que o ajudou a se estabelecer como um dos melhores comunicadores do país. Para justificar a decisão, o apresentador alegou cansaço, os “vinte anos sem verão e sem Carnaval” e a vontade de aproveitar mais a esposa e a filha. Não se trata de uma questão de fama, dinheiro ou sucesso. A vida que vinha levando não satisfaz mais o apresentador. E é justamente a coragem de Tiago Leifert de se permitir mudar de rota que fez muita gente pensar na própria vida.

Até bem pouco tempo, vivíamos sob uma cultura que alimentava assumidamente o gosto em adestrar para uma vida regrada e estável. Toda essa estabilidade foi chacoalhada nas últimas décadas pelos millenials e a geração Z. Para eles, sucesso não é completar 50 anos dentro da mesma empresa, mas sim trabalhar com propósito e felicidade. Recente matéria do jornal The New York Times apontou a dificuldade em trazer os mais jovens de volta ao trabalho presencial nos Estados Unidos. Depois de quase dois anos, eles aderiram com gosto ao home office. É uma geração objetiva, que não vê graça no papo no cafezinho ou da fofoca de corredor, que prefere trabalhar com objetividade para aproveitar melhor, a seu critério, o tempo livre. Trata-se de uma mudança comportamental gigantesca.

E é talvez por isso que a decisão de Leifert tenha surpreendido tanta gente. Como alguém apresenta, em sequência, duas edições históricas do Big Brother Brasil, com recordes de adesão e retorno comercial, é chamado para substituir o apresentador Fausto Silva às pressas e, ainda assim, escolhe deliberadamente abrir mão de tudo isso? É um questionamento que passou na cabeça de muitas pessoas que não tem a coragem, a ousadia ou a possibilidade financeira de Leifert de jogar a vida profissional para o alto e recomeçar.

No seu livro “A Alma Imoral”, lindamente adaptado para o teatro pela atriz Clarice Niskier, o rabino Nilton Bonder fala sobre os ensinamentos do corpo diante das exigências da alma. “Saber entregar-se às contrações do lugar estreito rumo ao lugar amplo é um processo assustador, avassalador e mágico”, ensina o rabino. Tiago Leifert, com sua pouca idade e muita experiência, não nos deixa esquecer do respeito a si mesmo em abrir mão do lugar estreito rumo ao lugar amplo. E, de quebra, o apresentador nos deixa uma lição: o entendimento da vida profissional como uma temporada de reality show, desses que ele comandou tão bem nos últimos anos: finda uma temporada, fecha-se um ciclo para iniciar-se outra temporada, com todos os mistérios, alegrias e surpresas inerentes à vida.

Analice Gigliotti é Mestre em Psiquiatria pela Unifesp; professora da Escola Médica de Pós-Graduação da PUC-Rio; chefe do setor de Dependências Químicas e Comportamentais da Santa Casa do Rio de Janeiro e diretora do Espaço Clif de Psiquiatria e Dependência Química.

 

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