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Manual de Sobrevivência no século XXI Por Analice Gigliotti, Elizabeth Carneiro e Sabrina Presman Psiquiatria

O caso Dan Bilzerian: rico de dinheiro, pobre de espírito

Num exercício de narcisismo constrangedor, Dan perdeu o trem da História

Por Elizabeth Carneiro - Atualizado em 27 jul 2020, 17h43 - Publicado em 27 jul 2020, 14h58

Entre as polêmicas que, vira e mexe, aparecem na internet, uma me chamou a atenção em especial por ser um significativo termômetro do tempo em que vivemos. Dan Bilzerian é um milionário americano, jogador de pôquer e ator bissexto, famoso por manter uma rotina luxuosa em praias paradisíacas e em hotéis cinco estrelas. Dan seria apenas mais uma pessoa a usar as redes sociais para ostentar e permitir a “evasão de privacidade”, expressão perfeita do genial Tutty Vasques. No entanto, Dan caiu em desgraça.

A recorrente exposição de mulheres em trajes mínimos criou uma antipatia crescente entre seus impressionantes 32 milhões de seguidores. Enquanto Dan, de maneira geral, está sempre vestido de short e camiseta em situações prosaicas, as mulheres ao seu redor estão, invariavelmente, nuas ou seminuas, apenas de biquínis ou lingeries, em banheiras cheias de espuma ou empunhando garrafas de bebida alcóolica. As fotos, muitas vezes com legendas de conotação sexual, vendem um pretenso lifestyle que, a esta altura do campeonato, já caiu em desuso.

Internautas acusam o milionário de misoginia, objetificação e sexualização do corpo feminino, perpetuando um comportamento que, se não está extinto, ao menos julgávamos atenuado. Ao perceber o protesto das brasileiras, Dan se limitou a responder via Twitter: “Fui informado de que ofendi muitas feministas brasileiras e me pediram para pedir desculpas, então aqui vai. Sinto muito se ofendi algum de vocês com minhas postagens, sei que esses são tempos sensíveis, e essa não era minha intenção. Estou brincando, chupem meu p…”, escreveu, comprovando que a elegância não é mesmo um de seus atributos.

Este cenário de percepção de mundo que Dan representa nos suscita algumas reflexões. O culto ao “ter” mais que ao “ser” vem sendo fortemente questionado na sociedade ocidental contemporânea, cada vez mais esgotada por correr uma maratona sem linha de chegada: nunca atinge o bem-estar que almeja ou sente suas mais profundas necessidades atendidas. Por outro lado, a cultura oriental tem impactado enormemente os valores a que sempre demos importância. Uma busca existencial mais preenchida de sentido é o que todos estão à procura. O falso preenchimento, proporcionado por mecanismos ilusórios, tem pouca durabilidade, logo renascendo  o grande vazio que precisa ser maquiado para uso externo. Carro, relógio e mulheres bonitas em torno de si já foram considerados sinais indiretos de riqueza. Mas a concepção de riqueza mudou muito. Rico, hoje, é quem é feliz realmente. Estudos mostram que apenas a vinculação humana mais profunda pode gerar felicidade.

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Outro ponto relevante é que, segundo o Ministério da Saúde, a cada 4 minutos uma mulher é agredida por um homem no Brasil. Apesar do número ainda ser estarrecedor, o que Dan desconhece é o longo caminho que nós, mulheres brasileiras, já trilhamos para chegar até aqui e não sermos mais percebidas como objeto. Vejamos: os cartões-postais que vendiam o Brasil para o exterior com uma fileira de nádegas femininas foram abolidos; as ditas “revistas masculinas”, como Playboy, foram encerradas; programas de TV praticamente não contam mais com bailarinas em trajes sumários, como as chacretes. E quando ainda as tem, é com figurinos bem mais respeitosos.

Um terceiro aspecto refere-se à real autoimagem de um homem como Dan Bilzerian. Ele é um típico homem do século XX, num exercício de narcisismo constrangedor, praticando o que ele acredita ainda ser o papel de um “macho”. No entanto, qualquer almanaque de psicologia básico falaria o óbvio: quem se diz um “rei”, na verdade sente-se um “plebeu”. A fragilidade egóica de Dan fica desnuda com a cultura do exagero. Dan, rico de dinheiro e pobre de espírito, perdeu o trem da História.

O século XXI é regido pelo lema “meu corpo, minhas regras”, aplicado na prática: a mulher se expõe se quiser, pra quem quiser e da forma que quiser. Infelizmente, algumas mulheres ainda aceitam compactuar com o jogo machista de homens como Dan, seja por necessidade ou crença de valor deturpado, para a manutenção de uma farsa datada que uma categoria do sexo masculino representa. Sem juízo de valor, estas mulheres estão exercendo seu direito de liberdade de expressão e comportamento, como todas as outras. Pode ser uma escolha. Mas acho pouco provável que não tenham críticas a tal postura e bons motivos para colaborar com a cena.

Mas o que me estarrece mesmo é o fato de Dan ter permanecido como uma celebridade do Instagram por tanto tempo. É importante lembrar que Dan não seria ninguém sem seus  seguidores: homens e mulheres que ainda parecem estar confusos sobre quem deve ser seus “heróis” a representá-los. Será que “os Dans” ainda causam inveja? Pode ser modelo de sucesso a ser buscado? Dan não fez sucesso sem cúmplices. O cúmplices somos nós, sociedade, cuja parcela dá audiência para o que dizem refutar.

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A reflexão proposta neste artigo é a pesquisa interna honesta sobre que característica estereotipada por Dan nos causa atração ou inveja. Está na hora de revisitar nossos valores. Dan no conjunto pode ser bizarro e óbvio, mas suas características isoladamente podem ainda nos provocar atração. Se não combatermos isso internamente, nossa sociedade terá ficado a meio do caminho em sua evolução pela igualdade de gêneros. Não há mudança externa sem uma profunda mudança interna. Arma? Mulheres? Dinheiro? Drogas? Vida de luxo e “prazer sem fim”? Que parte de nós ainda valoriza tais signos? Que tenhamos também consciência da responsabilidade de tornar um quase anônimo em celebridade. Hoje, seguir alguém em redes sociais é o mesmo que pagar ingresso e dar audiência para um teatro ou um circo. Valorizemos, pois, nosso tempo, dinheiro e saúde mental com quem soma e engrandece.

Elizabeth Carneiro é psicóloga supervisora do Setor de Dependência Química e Outros Transtornos do Impulso da Santa Casa do Rio, especialista em Psicoterapia Breve e Terapia Familiar Sistêmica, diretora do Espaço Clif de Psiquiatria e Dependência Química e treinadora oficial pela Universidade do Novo México em Entrevista Motivacional.

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