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Gilberto Ururahy Por Gilberto Ururahy, médico Especialista em medicina preventiva

Lições que a História nos ensina sobre epidemias

A atual pandemia também passará e a vida vai se impor mais uma vez

Por Gilberto Ururahy - Atualizado em 17 abr 2020, 22h52 - Publicado em 17 abr 2020, 15h56

“Não havia tempo para liberarmos os corpos. Nós os empilhávamos no fundo da sala de reanimação do hospital. E liberávamos os corpos quando podíamos, durante o dia ou à noite”. A descrição da cena dramática poderia ser de algum profissional de saúde em um centro médico na Europa em 2020. Mas o trecho é extraído de um depoimento a um jornal francês de 1969, durante a Gripe de Hong Kong, que vitimou 31 mil franceses e um total de um milhão de pessoas em todo o mundo.

A analogia entre os dois momentos foi feita pelo deputado francês Olivier Becht. Sua intenção foi chamar a atenção dos franceses para as lições que podem ser extraídas das epidemias pregressas. Em primeiro lugar, a boa notícia de que nossas sociedades já enfrentaram crises de proporção semelhante. Ele apontou a atual pandemia mundial como um evento jamais visto por nossa geração. No entanto, ressalta que esta não é a primeira vez que a Humanidade enfrenta uma crise de tal proporção e elenca outras ocorrências recentes enfrentadas por gerações anteriores no século XX, como a Gripe Espanhola (1918) e a Gripe Asiática (que matou dois milhões de pessoas em 1957), além da já citada Gripe de Hong Kong. Apesar da mortalidade em massa, a Humanidade não foi dizimada a vida seguiu seu curso. Esta pandemia também passará e a vida vai se impor novamente.

Outro ponto levantado por Becht é que os avanços tecnológicos modificaram a sociedade de forma definitiva nos últimos 50 anos. Se em 1969 a morte de milhões de pessoas era interpretada como uma fatalidade, hoje ela nos soa simplesmente inaceitável. Espera-se que a ciência possa nos proteger de todas as doenças, como se a morte estivesse cada vez mais acuada, vencida pelas descobertas científicas. No entanto, Becht pontua que essa visão sobre a morte se restringe apenas quando os atingidos são os países ocidentais. Ele se refere ao escandaloso fato de que 500 mil pessoas morrem de malária na África todos os anos, sem a devida repercussão nos países do Primeiro Mundo.

Becht também destaca a mudança no grau de exigência da sociedade para com o Estado, responsabilizado por providenciar resposta a todas as demandas. “Em 1969, ninguém cobrou que Pompidou detivesse a gripe de Hong Kong”, cita.

Para o deputado francês, fica claro que a História nos ensina o quanto mudou a esfera midiática e sua influência em eventos de grande repercussão. À época, muitos canais de mídias ainda estavam sob controle do Estado francês. Como não era possível deter a doença, simplesmente não se falava sobre ela. Já na era dos canais de notícias 24 horas no ar e das mídias sociais, o assunto domina todos os espaços. “Temos a impressão que nossa visão de mundo se limita apenas ao que aparece nas telas”, resume. E como só se fala de Covid-19, quase esquecemos que a vida continua “com o que ela tem de mais maravilhoso, como o amor, a criação e a inovação, mas também com o que ela tem de pior: o ódio, a violência, a criminalidade, a estupidez”, provoca Becht. Ele defende que a saturação de informações sobre a doença nos dá a impressão que o mundo parou. E a normalização de tal sentimento faz com que ele pare, de fato.

Becht se antecipa e afirma que sempre poderão alegar que estamos vivendo outros tempos, bem diferentes de 1969. É verdade. Os ensinamentos da História não nos obrigam a repetir fórmulas ou modelos para enfrentar novos desafios. Mas ele se arrisca a listar desde já algumas lições do passado que nos podem ser úteis neste momento:

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1 – Epidemias sempre existiram e, provavelmente, sempre existirão. Elas não são resultado de complôs internacionais de estudiosos e militares em laboratórios secretos. Elas são simplesmente vírus que fazem parte da natureza, assim como nós.

2 – Nem mesmo toda a ciência ou os melhores líderes e autoridades podem evitar a ocorrência de eventos naturais imprevistos.

3 – É preciso manter o otimismo, porque a Humanidade sempre conseguiu dar a volta por cima e se sobrepor às epidemias.

Becht propõe que os franceses não se desgastem acompanhando a contagem de mortos que monopoliza a mídia e as redes sociais. Ele conclui seu raciocínio propondo um desafio. “Olhem para o passado, este pode ser o recuo necessário que nos permitirá construir um futuro melhor. Coragem e esperança!”

Gilberto Ururahy é médico há 40 anos, com longa atuação em Medicina Preventiva. Em 1990, criou a Med Rio Check Up, líder brasileira em check up médico. É detentor da Medalha da Academia Nacional de Medicina da França e autor de três livros: “Como se tornar um bom estressado” (Editora Salamandra), “O cérebro emocional” (Editora Rocco) e “Emoções e saúde” (Editora Rocco).

 

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