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Fábio Barbirato Psiquiatra infantil

Afinal, quanto tempo crianças e adolescentes devem estar expostos a telas?

Novo livro de autor francês reacende o debate sobre a quantidade de horas que as crianças devem passar com tablets e celulares

Por Fabio Barbirato Atualizado em 16 nov 2021, 18h03 - Publicado em 16 nov 2021, 09h25

Acaba de chegar às livrarias brasileiras um livro que deve reacender a discussão acerca da quantidade de horas que crianças e adolescentes devem passar diante de telas de computador, tablets e smartphones. Em “A Fábrica dos Cretinos Digitais: os perigos das telas para nossas crianças”, o neurocientista francês Michel Desmurget, que também é diretor de pesquisa do Instituto Nacional de Saúde da França, atenta para o que ele considera os perigos que o universo digital pode acarretar ao processo de aprendizado das crianças.

Diversos estudos já apresentaram infindáveis números – muitos contrários, alguns neutros – sobre o impacto das telas na saúde mental das crianças e adolescentes. Porém, Desmurget é radical. Ele defende a redução do uso de aparelhos tecnológicos por parte dos menores – inclusive a abstenção total até os seis anos de idade. A Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) tem suas recomendações sobre o tempo e a idade que as crianças devem ser expostas a telas: até uma hora por dia para crianças com idade entre 2 e 5 anos, e duas horas, como o limite máximo, para crianças com idade entre 6 e 10 anos. Já para os adolescentes, com idades entre 11 e 18 anos, a indicação é de, no máximo, 3 horas por dia, incluindo o uso de videogames.

Desmurget se vale de estatísticas como, por exemplo, o fato de que jovens passam mais de sete horas por dia em gadgets para uso recreativo e apenas uma hora com finalidade educacional. A crítica do francês é válida, na medida em que o número de horas é mesmo excessiva e pesquisas já indicaram alterações significativas no desenvolvimento cerebral de crianças com grande número de horas diante de telas. No entanto, ele desconsidera, a meu ver, dois fatores. O primeiro deles é o mais óbvio. Estamos falando de gerações que são nativas digitais – embora o autor desconsidere o termo, mais por uma questão neurológica do que geracional. Este é o ambiente em que elas cresceram. É ali também que elas socializam, se conhecem, se comunicam, namoram. Ignorar este fato me parece um equívoco.

O segundo ponto é que Desmurget considera apenas o conteúdo formal acadêmico. Nem tudo é necessariamente perda de tempo nas telas. Outros conteúdos audiovisuais, como séries, programas, filmes, games, redes sociais, aplicativos de música, tudo isso pode ser mais do que o especialista interpreta como entretenimento rasteiro. É a expressão da cultura de um tempo – do tempo deles.

É fato que a pandemia, que prendeu as crianças em casa por tantos meses, intensificou e, como consequência, normalizou o uso de smartphones e outras telas. Por outro lado, o que teria sido esse período tão severo para essas crianças sem a possibilidade de ver e interagir com amigos e parentes, se não pelas telas?

Gosto de insistir na ideia do bom senso. Raramente ele falha. É claro que muitas horas diante das telas não é uma opção saudável – assim como hora nenhuma também não é uma boa opção a partir de uma certa idade. Ninguém melhor que os pais para saberem o quanto e quando é hora de os filhos terem contato com telas – e, acima de tudo, com quais conteúdos. Essa supervisão e orientação é fundamental.

Fabio Barbirato é psiquiatra pela ABP/CFM e responsável pelo Setor de Psiquiatria Infantil do Serviço de Psiquiatria da Santa Casa do Rio. Como professor, dá aulas na pós-graduação em Medicina e Psicologia da PUC-Rio. É autor dos livros “A mente do seu filho” e “O menino que nunca sorriu & outras histórias”. Foi um dos apresentadores do quadro “Eu amo quem sou”, sobre bullying, no “Fantástico” (TV Globo).

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