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Fábio Barbirato Psiquiatra infantil

Que exemplo você está dando ao seu filho?

Nada ensina mais uma criança do que a observação do comportamento dos pais

Por Fabio Barbirato Atualizado em 14 Maio 2021, 14h07 - Publicado em 4 Maio 2021, 09h58

O surgimento da pandemia de coronavírus surpreendeu a todos e, em questão de dias, isolou famílias inteiras em casa. A eterna desculpa da “falta de tempo” para a família cedeu espaço ao forçado convívio intenso. E assim, nos últimos meses testemunhamos pais que sentaram diante do computador para estudar com filhos disciplinas que não viam há décadas. Refeições à mesa, momento tão importante para que pais possam saber o que vai na cabeça dos filhos, que diria!, foram resgatados e se tornaram rotina. A pergunta que fica é: que exemplos as crianças aprenderam com os pais todos estes meses?

Crianças são como esponjas, boa parte do seu aprendizado vem da observação dos pais. Portanto, não se engane: a forma como você tem se comportado todos estes meses influirá diretamente no entendimento que seu filho tem do mundo e de como ele se lembrará deste período tão marcante da vida.

Uma vez no consultório, a mãe de um paciente reclamou que o filho mentia demasiadamente. Não tardou muito e o celular dela tocou. Diante de mim e do filho, ela não se sentiu intimidada em começar a mentir, dizendo ao interlocutor que estava em outro lugar, com outras pessoas. Quando ela desligou, pedi que a criança se retirasse por um instante e a questionei: como é que a senhora ainda quer que seu filho fale a verdade se ele assiste a senhora mentindo? Demonstrar empatia e respeito pelos outros é um valor fundamental. Lembre-se disso na próxima vez que for andar na praia sem máscara, ao lado do seu filho.

Se a pandemia pode ser um verdadeiro exercício de paciência neste convívio tão estreito, também é uma bela oportunidade de os pais ensinarem aos filhos que eles podem fazer a diferença. Há uma infinidade de campanhas de auxílio às camadas sociais mais atingidas pela crise sanitária. De dinheiro a medicamentos, de cesta básica a roupas, é possível prestar todo tipo de ajuda. Traga as crianças para perto neste tipo de ação social e, automaticamente, você estará incutindo nelas valores como solidariedade e compaixão.

Alguns pais de pacientes relatam que resgataram velhos hábitos no dia a dia, hobbies que haviam abandonado por pura falta de tempo, e agora resgataram com os filhos. Há aqueles que passaram a montar quebra-cabeças enormes com as crianças; outros foram inventar receitas na cozinha ou retomaram um projeto artístico ou se dedicaram à jardinagem. Não se trata do número de horas despendidos juntos, mas a qualidade deste tempo. Além disso, é uma bela oportunidade de reforçar com as crianças que felicidade não está atrelada às compras ou objetos materiais, mas sim ao prazer das pequenas coisas.

Por fim, um exemplo fundamental que os pais podem dar aos filhos é o de manter a palavra. Vale o que foi combinado. Se fizer uma promessa, cumpra. Se a criança fez uma promessa, cobre. Se por uma força maior for preciso rever o combinado, explique a razão disso, com clareza e honestidade.

Em um mundo regido por valores cada vez mais escusos, é gratificante saber que que estão sendo formadas crianças que dão importância à ética, à civilidade e à vida em sociedade.

Fabio Barbirato é psiquiatra pela ABP/CFM  e responsável pelo Setor de Psiquiatria Infantil do Serviço de Psiquiatria da Santa Casa do Rio. Como professor, dá aulas na Pós Graduação em Medicina e Psicologia da PUC-Rio. É autor dos livros “A mente do seu filho” e “O menino que nunca sorriu & outras histórias”. Foi um dos apresentadores do quadro “Eu amo quem sou”, sobre bullying, no “Fantástico” (TV Globo).

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