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Daniel Sampaio Por Daniel Sampaio, advogado e memorialista Memórias do Rio Antigo

Palácio Capanema: como vender o que não tem preço?

O possível leilão de um dos ícones da arquitetura moderna no mundo em "feirão de imóveis" é uma afronta à nossa Cultura

Por Daniel Sampaio Atualizado em 17 ago 2021, 13h44 - Publicado em 16 ago 2021, 14h02

O Palácio Gustavo Capanema, um ícone da arquitetura moderna brasileira e mundial, será leiloado junto com outros 2.236 imóveis da União na capital fluminense que serão divulgados a potenciais compradores no dia 27 de agosto.

A redação da Veja Rio mostrou a repercussão dessa notícia nefasta na reportagem “Inacreditável”: as reações contra a possível venda do Palácio Capanema, publicada hoje, 16 de agosto.

A antiga sede do Ministério da Educação e Saúde Pública (MES) foi projetada pelo arquiteto e urbanista Lúcio Costa e sua equipe, composta por Carlos Leão, Affonso Eduardo Reidy, Ernani Vasconcellos, Jorge Moreira, Oscar Niemeyer, em 1937. A equipe teve como referência estudos feitos pelo arquiteto franco-suíço Le Corbusier, que esteve no Brasil em 1936, convidado pelo Ministro Gustavo Capanema. Sua construção terminou em 1945.

O edifício é uma obra de arte inovadora e genial, feita para se adaptar ao clima tropical e implantado de forma a agregar valor ao espaço urbano onde se situa.

O Palácio Capanema passa por extensa e minuciosa reforma, ainda não finalizada. Uma série de intervenções, feitas pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), e financiadas pelo PAC das Cidades Históricas, garantiram sua completa restauração e a valorização de sua importância enquanto ícone arquitetônico. Essas obras de restauro tiveram como marco inicial a comemoração dos 80 anos do IPHAN. A finalização das obras estavam programadas para 2020, ano em que teria sido a sede do Congresso Mundial de Arquitetos. O evento acabou sendo adiado para este ano e realizado em edição virtual e as obras acabaram atrasadas, devido à pandemia.

Jardins do Palácio Capanema
Jardins do Palácio Capanema – IPHAN/Reprodução
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A pergunta é: como vender o que não tem preço?

É inimaginável vender um prédio que tem agregado a ele obras de arte de valor também inestimável. Quanto vale o afresco “Jogos Infantis”, obra de Cândido Portinari comumente comparada ao painel “Guernica” de Picasso? No prédio há outros 14 painéis em afrescos e 5 painéis de azulejos, todos de Portinari. Alguém sabe quanto custam os jardins-terraços projetados por Burle Marx? Como precificar as esculturas de Adriana Janacópulos, Celso Antônio, Lipchitz e Bruno Giorgi — todas feitas especialmente para o prédio, que foi projetado para ser um símbolo da Cultura Nacional?

Vai vender para quem? Vai ocupar com o quê? O tombamento será respeitado? Sua função social, mantida? A França venderia o Louvre? Os EUA venderiam o Capitólio? Só quem não entende o valor da Cultura para um país poderia pensar em algo assim.

Uma manifestação, chamada de “Trincheira Capanema”, está sendo organizada pelo movimento Ocupa MinC. O ato foi marcado para essa sexta-feira, dia 20 de agosto, às 16h, e será realizado em frente ao Palácio Capanema, no Centro do Rio.

Além disso, o movimento também preparou uma petição pública, que pode ser acessada neste site.

*Daniel Sampaio é advogado, memorialista e ativista do patrimônio cultural. Fundou o Instagram @RioAntigo e é presidente do Instituto Rio Antigo.

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