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Cristiana Beltrão Por Cristiana Beltrão, restauratrice e pesquisadora de gastronomia e alimentação

Nunca quis tanto ir para Marte

A corrida espacial e meus desejos de bordo

Por Cristiana Beltrão - Atualizado em 13 jul 2020, 10h58 - Publicado em 12 jul 2020, 11h32

“Seu liquidificador pode formar pôças de salmonela e e.coli!”, “Sua esponja de cozinha pode ter 362 espécies diferentes de bactérias!”. Estou trancafiada há 120 dias com informações que não sei se gostaria de ter. Fugir pro campo? Nem pensar. “Cobras cegas podem ter saliva venenosa!”, pipocou outro alerta no meu celular.

Chega! Quero fugir do medo. Deixo de vez este planeta e vou virar marciana! Aliás…

A cada 26 meses – calhou de ser agora – parece que a distância entre Marte e a Terra é menor que a habitual. Aproveitando a janela, lá vão os Emirados Árabes e os Estados Unidos fazer visita ao planeta vermelho, em viagem que dura seis meses. Em 2022, vai uma iniciativa russo-europeia e, em 2024, o Japão.

E eu? Vou quando?

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O mundo de 50 anos atrás permitiu a criação de um desenho como o dos Jetsons. Havia um sonho de futuro, inovador, interessante. Tudo que vejo, hoje, sejam minisséries, desenhos ou filmes futuristas parecem versões do pesadelo de alguém bem desanimado com o destino terrestre.

A ração de bordo não é ruim, hoje em dia. No início, vinha numa espécie de pasta de dentes, e os astronautas espremiam misturas de carne com legumes, frango com milho e outras gosmas na boca. Alimentos tinham de ser fáceis de digerir e nada farofentos (imagine o galho em gravidade zero?). Cereais eram moídos, moldados em cubinhos e cobertos por gelatina, pra não esfarelar.

No fim dos anos 50, já se comia camarão desidratado com salada de batatas e suquinho de maçã. Lá pra 1969, já se comia com colher e o alimento não precisava ser reidratado e (ufa…) podia ser aquecido. O cardápio já tinha mais de 70 itens.

1973 foi o ano das texturas e capricho na apresentação: purê de batata, ensopado de carne e aspargos vinham bonitinhos numa bandeja, dando a impressão de comida de verdade. E dali para cá, só evoluiu.

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O problema é que a falta de gravidade dá uma sensação de constipação e altera o paladar e olfato, o que estraga o banquete. Não tem graça caprichar tanto no cardápio pra fazer uma viagem que parece um isolamento de seis meses com um dos sintomas da Covid.

Pensando bem, parece que já houve vida em Marte e hoje é só aquele chão vermelho, que me lembra o barro seco de Brasília (hum…). Ademais, vai que os Emirados se animam e Marte vira Dubai, com lagos artificiais, arranha-céus retorcidos e coloridos, chafarizes de 5 andares e condomínios dourados de luxo?

Não, Marte não é pra mim… Parem esse foguete que eu quero descer.

Vou ajustar o olhar, calibrar os medos e voltar a ser uma terráquea feliz. Me perdoem por divagar, mas é domingo de sol e eu queria mesmo dar uma viajada.

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