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Cristiana Beltrão Por Cristiana Beltrão, restauratrice e pesquisadora de gastronomia e alimentação

Quando vamos parar de descartar pessoas?

No mundo do consumo sustentável, descarta-se a experiência

Por Cristiana Beltrão - Atualizado em 21 fev 2020, 20h46 - Publicado em 19 fev 2020, 06h04

No salão animado de um restaurante em Rhode Island, nos EUA, Patty dizia: já estão prontos para o pedido? Não posso deixar de sugerir os vôngoles que chegaram lindos esta manhã e ficam maravilhosos com o spaghetti de massa fresca, que Lorenzo acabou de secar. Pode colocar a garrafa na terceira prateleira à esquerda, Pete?, dizia para um colega. Já vou lhe ajudar com o sistema, dizia para outro.

Não tinha particular interesse em fazer turismo gastronômico em Providence, mas minha filha estava lá para um curso e pesquisar lugares diferentes para comer, onde quer que eu vá, é cacoete de trabalho que não consigo perder. Acontece que, em vez de variar, voltamos 3 vezes àquele italiano de bairro e cheguei à conclusão de que a culpa era de Patty, garçonete de uns 65 anos que trabalhava na casa desde sua fundação, em 1997.

Na segunda visita, já conhecia meu gosto, ofereceu um prato “para você, que adora peixes”, e também um vinho “que acho que vai gostar já que pediu o de tal produtor da última vez”; chamou as 5 crianças da mesa ao lado pelo nome; lembrava do curso que minha filha estava fazendo; resolveu um conflito na recepção que a equipe não sabia mediar e, ainda, sugeriu que voltássemos na quinta-feira, dia do prato tal.

Patty, melhor que qualquer CRM, era a alma, força de vendas e oráculo do lugar.

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Corta a cena.

No fim do ano passado, decidi compilar várias pesquisas europeias e uma americana, com projeções para o mundo dos restaurantes, em 2030. Entre inúmeras mudanças que o negócio vai experimentar, uma me chamou particular atenção: com o envelhecimento proporcional da população, tudo indica que, em dez anos, os restaurantes daquelas bandas empregarão mais pessoas de terceira idade, no salão e na retaguarda.

E no Brasil, também? Hum…

Em jornais e revistas não se fala em outra coisa: sustentabilidade, “upcycling” na moda, reaproveitamento do lixo, energias alternativas, consumo consciente e prolongamento da vida útil das coisas. Tudo muito bonito, mas a verdade é que um dos recursos mais descartados em nossa sociedade é a experiência.

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Por aqui, “quem gosta de velho é reumatismo, cadeira de balanço, fila do INPS e rede”, “burro velho não toma ensino” e “papagaio velho não aprende a falar”. Não tem graça, não.

Desperdiçamos os anos de bônus demográfico (quando o número de habitantes em idade ativa superou o total de brasileiros considerados dependentes, como idosos e crianças) e também estamos envelhecendo, só que muito antes de crescer. Pior: não estamos culturalmente preparados para empregar pessoas com mais idade.

Antes que tudo pareça perdido, lanço aqui um dado, tão realista quanto otimista para os “xóvens” e os nem tanto.

É claro que você já ouviu falar das “startups”, não? Também é claro que associou o sucesso desse modelo de negócio a nerds “virtuosos” de 20 e poucos anos, geniais e ousados, com ideias “fora da caixinha”.

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Pois fique sabendo que, de acordo com um estudo recente do MIT (Massachusetts Institute of Technology), a faixa etária MÉDIA das startups que mais cresceram nos EUA é de 45 anos. Pois é. Ideias originais são fantásticas, mas a fórmula que combina energia e inovação com anos de experiência é a que rende mais dinheiro.

Assim como aconteceu com Patty, ao invés de lidar com um jovenzinho que vê o emprego como uma passagem, empresas estão buscando profissionais quem tenham compromisso com a marca no longo prazo e reforcem seus valores sem perder a criatividade e energia.

E afinal, o que é um idoso? Com os avanços na tecnologia e saúde, o conceito está cada vez mais móvel. Enquanto tomamos aqui este chá, há um projeto de lei em análise na Câmara de Deputados que propõe que pessoas sejam consideradas idosas a partir dos 65 anos de idade, e não mais 60. Um dia, com sorte, o ponto de corte será 80, 100.

Vivemos em tempos lindos e complexos. A informação, antes passada somente de pais para filhos, de professores para alunos e de cima para baixo, hoje vem pela palma das mãos, pelos ouvidos, por todo canto, subversivamente e sem censura, alcançando todas as idades e invertendo o fluxo.

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Crianças, adolescentes e jovens já leram tudo por aí, muito antes de explicarmos, e nos provocam quotidianamente com debates sobre o futuro. Esse barulho é bom, garanto. Como mostram as plaquinhas da vida, o que importa é dar as mãos antes de cruzar a estrada.

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