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Cristiana Beltrão Por Cristiana Beltrão, restauratrice e pesquisadora de gastronomia e alimentação

Um peru, a Black Friday e o Natal

O desabafo de um peru no dia de Ação de Graças

Por Cristiana Beltrão Atualizado em 19 nov 2020, 12h26 - Publicado em 19 nov 2020, 10h58

Ergueu o bico, sacudiu as penas e partiu para a Casa Branca. Tentava manter um porte altivo, mas apesar de suas 11 semanas de vida, já era tão gordo que tinha dificuldade de ficar em pé ou andar; que dirá namorar! Fazia tempos que não conseguia ver suas garras e parecia uma imensa bola de neve com bico vermelho. E lá foi ele, aos sacolejos, pela Constitution Avenue.

Deviam ter migrado para bem longe dos homens, quando ainda conseguiam voar, mas desde que foram domesticados no México, há mil anos, entenderam que, antes que pudessem dizer “que pasa?”, seu destino era engordar e ter farofa enfiada pelo fiofó, com ou sem uva passa.

A culpa foi daquele bando de peregrinos que inventou a Ação de Graças, em 1621. Podiam ter celebrado dançando para a lua, ou coisa assim, mas não…

Era uma sina.

Primos dos quatro cantos do mundo contavam que, em vários momentos da história, os homens nunca souberam lidar com a inveja da bicharada alada. Fossem os celtas, no fim do Verão, os berberes do Atlas ou ainda os próprios índios americanos, todos sabiam que, quando a colheita acabasse, alguma ave ia dançar.

Patos, faisões, gansos selvagens e quem mais pudesse, migrava ao menor sinal de falta de comida no bico. Aquela seta voadora no céu, afinal, indicava o fim de um ciclo, a chegada de noites mais longas, o começo do frio, da seca… e os homens sabiam. Então, pimba! Abater uma ave, para tantos povos, era engolir a esperança de uma nova colheita, da brotação de sementes e blá blá blá. Coisa besta.

O problema é que os peregrinos não encontraram na América o ganso que costumava pagar o pato, na Inglaterra. Olharam à volta e quem estava lá? Nós, os mais gordos, mais lerdos e mais próximos: os perus. E assim começou a desgraça da espécie.

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Benjamin Franklin ainda quis que seu quiliavô (milésima geração de avô) fosse a ave nacional. Era o mais perto que um peru chegava de seus quinze minutos de fama, mas perdeu na votação para a águia de cabeça branca, só porque era confiante, esguia e ágil… Grande injustiça! Perus foram o centro de tanta ceia, manipulados geneticamente para ter ossinhos mais curtos e peitos maiores, mas nem um título, medalha ou tapinha nas costas, ganharam.

Numa manhã de 1870, acreditaram que finalmente seriam internacionalmente reconhecidos por seus préstimos à sociedade quando o presidente da associação dos produtores decidiu levar um parente seu, distante (um Broad Brested White, como ele) até a Casa Branca.

Ouviu musiquinha, cumprimentou o chefe da nação, sorriu e, quando menos esperava, veio um sujeito e pendurou uma placa em seu pescoço com os dizeres: “Boa refeição, Senhor Presidente!”. Dezenas de fotógrafos e jornalistas testemunharam a humilhação. A vítima gorgolejava palavrões e protestos que os humanos não entendiam. O resultado? Foi servido com batatas.

Concluiu que bom mesmo era o tal do Brasil, onde só lembravam deles no Natal. Quer dizer, apesar dos melhores esforços do presidente Gaspar Dutra que, em 1949, decretou que os brasileiros comemorariam a Ação de Graças, como os americanos. Seria feriado? Não. Estava na cara que não ia pegar. Ufa! Que agradecer colheita, que nada! Entre o pão e o circo, brasileiros sempre preferiram o circo. Quem vingou, e com força, foi a Black Friday que acontece um dia depois.

Acordou de suas divagações já no estacionamento da Casa Branca, aliviado. Pela primeira vez na vida, ao contrário de outros 50 milhões de amigos, engolidos todos os anos nos Estados Unidos – celebraria um Thanksgiving.

Foi Kennedy que inventou o “perdão do peru”, três dias antes de ser assassinado, coitado. Quando lhe entregaram a ave, tabuleta no pescoço, surpreendeu a todos quando disse: “deixem o cara crescer!”. Foi lindo. O dia do abate tornou-se oficialmente o dia do perdão. A partir de então, um ou dois perus por ano, seriam sorteados e receberiam a salvaguarda presidencial, ficando livres para morrer de morte morrida. Aquele sim, era um grande homem.

Naquela noite, depois de tanta emoção, fez côro com os homens, fossem eles brasileiros, americanos ou de qualquer outro país. Agradeceu as nozes, sementes, grãos, trigo e frutos silvestres que comera no ano e rezou por um presidente bom.

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