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Cristiana Beltrão Por Cristiana Beltrão, restauratrice e pesquisadora de gastronomia e alimentação

A segunda é o novo sábado

A pandemia e os novos horários e dias de visitas a restaurantes

Por Cristiana Beltrão - 4 set 2020, 09h07

Muito antes de virar necessidade, eu já detestava aglomeração. Até em almoço de amigas, sempre soube que uma mesa de oito mulheres renderia oito monólogos gritados, em que ninguém escuta ninguém e uma conversa cruzada tenta pular por cima da outra. Como foi a viagem? A blusa tá linda! Pra onde? Minha irmã me deu! Ele já está na escola? Paraty. O quê? Fernando não foi. Ameeeeeei, gente! Beijo, tchau.

Fico sempre feliz, mas com a sensação de que saí com 35 assuntos pendurados, que se somaram aos 1347 inacabados, dos últimos encontros. Ideal é um grupo de três.

Show? Jogo em estádio? Muvuca? Fila? Festão?

Troco por livro, filme no quarto e vinho.

Pelo mesmo motivo, nunca fui cliente de restaurantes no fim de semana. Meus desejos mudam a cada 15 minutos e prefiro planejar o dia à medida em que ele acontece. Ir sem fazer reserva? Que preguiça! Muita gente, melhor não…

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Caminho pelas segundas-feiras da vida, almoçando às três da tarde ou jantando às 18:30hs como uma boa alemã, numa rotina de paz e grandes vazios. Até agora…

Com a flexibilização do isolamento, a maioria dos restaurantes voltou a operar com equipes e horários reduzidos. O que pensamos todos? Que ideal era abrir inicialmente de quinta a domingo, mirando nos dias de maior movimento. As pessoas começarão a sair a seu tempo, claro, mas dia “especial” para se comer fora não costuma acontecer às segundas ou terças, especialmente num país em crise. Tudo será como dantes: o jantar é melhor que almoço, uma sexta é melhor que uma quinta e às 20hs o movimento está no pico. Assim achávamos.

Bastou uma semana pra percebermos que, com dias limitados, a quinta andava melhor que um sábado, o almoço estava melhor que o jantar e as “odd hours” (horários esquisitos), que o mundo só usa quando está de férias, começaram a engordar. Ao menos em cidades turísticas, como o Rio. Em São Paulo, a maioria dos amigos me diz que esse “movimento” não tem como acontecer porque fecham entre almoço e jantar, mas alguns já cogitam abrir mais dias durante a semana para dar ao cliente a chance de achar sua janela de paz.

Não sei se essa moda morre na chegada da vacina, mas quem estendeu seus dias de funcionamento está mais feliz, ainda que por motivos tristes: o mercado encolheu, muita gente quebrou e há bairros pouco atendidos que precisam acomodar o cliente que busca segurança.

Aqui, nesse País das Maravilhas às avessas, o mundo virou Alice: “não posso voltar para ontem porque lá eu era uma outra pessoa”.

Quanto a mim, sei lá quem vou ser, mas talvez comece finalmente a sair aos sábados.

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