Flor no caos: como o Bar Brasil está sobrevivendo à pandemia
Aos 113 anos, o bar enfrenta com dignidade a degradação da Lapa, acelerada pela Covid. Renovado, busca público jovem sem esquecer das tradições

A semana passada foi de sentimentos contraditórios no mundo da gastronomia carioca. Se houve a emoção das premiações da Veja Rio, houve também a tristeza pela constatação do fim de duas sumidades boêmias da cidade: a Casa Villarino, onde Tom e Vinícius se conheceram, fundada em 1953, e o restaurante Sentaí, das lagostas e dos fartos pratos portugueses atrás da Central do Brasil, que morreu no ano em que completava 70 anos. Ambas derrubadas pela decadência do Centro da cidade, assustadoramente acelerada pelos efeitos da pandemia.
Movido por esses tristes ocasos, comecei a observar como andam outros bares tradicionais da cidade e os efeitos do Covid-19 sobre eles. Será que terão o mesmo fim? O Bar Luiz, o mais antigo do Brasil no mesmo endereço, equilibra-se nas dificuldades já há alguns anos, desde que a Rua da Carioca foi esvaziada pelo aumento repentino dos aluguéis (fruto de um imbróglio secular entre a prefeitura, a Cúria e uma instituição bancária, famosa porém pouco preocupada com a história do Rio), e por uma desastrada mudança de mão que afugentou o público das calçadas.
A Casa Paladino, na Uruguaiana, famosa pelos seus sanduíches trios, pelas fritadas, pelo mobiliário de madeira e seu magnífico relógio, segue resistindo, mas sofrendo muito com o esvaziamento do centro, que se reflete no faturamento da casa.
E na Lapa, a boa surpresa: o Bar Brasil, a belíssima casa alemã inaugurada em 1907 e dona de um salão digno de uma viagem no tempo, aproveitou o período fechado na pandemia para se renovar. Primeiro, reformou os banheiros, secularmente um ponto fraco do bar. Depois, mexeu com bom gosto na iluminação, deixando a luz mais quente e menos intensa e direta. Por fim, ampliou a diversidade dos drinques e coquetéis no cardápio de bebidas e abriu-se mais para a noite do bairro. Destacou o biombo de madeira e vidro que por 113 anos separou o salão da rua, e agora fecha bem mais tarde do que sempre costumou fazer.

Todas as mexidas não alteraram, contudo, nem uma vírgula das maiores riquezas do Bar Brasil. A chopeira clássica, esplendorosa com sua serpentina de 66 metros, uma das últimas remanescentes na cidade, continua lá cuspindo schnits magníficos. Faça o teste do palito, caro leitor: ele não tombará tão cedo. A geladeira de madeira com suas múltiplas portas em armário e motor externo, segue funcionando perfeitamente. O pé-direito de três metros ainda impõe o respeito de sempre. No balcão, o meu fetiche preferido: as latas de patê Bunel (de fígado de porco e boi, apesar do pato no logotipo!), lindas, amarelas, as mesmas há décadas, prontas para municiar as entradinhas com pão preto, são daquelas coisas que fazem a gente se sentir voltando de uma longa viagem, sendo recebido pela família, sempre que senta naquele salão.
O bolo de carne segue o mesmo velho companheiro, atingindo em cheio o coração e o estômago de seus fãs indefectíveis. Assim como o kassler, o bife à milanesa e a salada de batata.
É sabido que o Bar Brasil nunca foi bom de marketing. Até pouco tempo atrás, sequer tinha assessoria de imprensa ou coisa que o valhesse. É que essa era a escola de seus históricos donos, os espanhóis Lino Pazos e José Riveiro. Este último entrou na casa como ajudante e saiu como dono, 57 anos depois, pouco antes de falecer. O primeiro ainda é sócio do bar, mas quem agora pilota a chopeira, o balcão e o salão é o filho de José, Gustavo Marins. É ele quem lidera esse processo de, digamos, “renovação responsável” pelo qual passa o tradicionalíssimo boteco.

Além da pandemia, o bar sofre com a degradação acelerada da boemia da Lapa. O salão, em outros tempos tranquilo, perfeito para um papo regado, agora sofre um pouco com o novo caos sonoro das imediações. No desespero para atrair clientes, alguns bares vizinhos posicionam caixas de som na calçada durante a noite, deixando a esquina da Mem de Sá com a Rua do Lavradio envolta numa cacofonia que por vezes incomoda.
Mas aí é só encostar no travesseiro do vovô, ou melhor, naquele colarinho fofinho do chope do Bar Brasil, pedir mais um patê com pão, ou um kassler na medida, e refugiar-se de novo na lembrança de um Rio de Janeiro que está na UTI, mas que não pode morrer.
Aliás, caro leitor: se você quiser contribuir para que o Bar Brasil não tenha o triste fim do Villarino e do Sentaí, que tal dar uma passada lá um dia desses? É na esquina da Mem de Sá com a Lavradio. Não tem como errar. Nem como se arrepender.
