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Beco do Becoza Por Juarez Becoza, repórter de gastronomia popular e caçador de botequins

Os achados de 2020: novos bares que brilharam no ano que nem começou

Uma lista com cinco botequins e restaurantes populares que, contrariando a tendência geral de crise e falências, cresceram e apareceram em 2020

Por Juarez Becoza Atualizado em 6 jan 2021, 22h04 - Publicado em 4 jan 2021, 18h00

Se o incendiário ano de 1968, com suas revoluções políticas e de costumes pelo mundo, e o recrudescimento da ditadura no Brasil, entrou pra história como o ano que não terminou, o infectado 2020 foi o ano que nem começou. Na gastronomia então, nem se fala. Bares e restaurantes fechando sem dó, vítimas da crise sanitária, econômica e de competência do governo para lidar com o setor. Ainda assim, por incrível que pareça, 2020 viu surgir aqui no Rio algumas novas e promissoras pérolas da gastronomia popular. Que graças a muito talento, criatividade e coragem, conseguiram não só sobreviver, mas ainda por cima crescer e aparecer, justo no pior ano de nossas vidas.

Por isso, seguindo uma tradição que comecei em janeiro de 2004, na minha extinta coluna no Jornal O Globo, elenco hoje aqui alguns achados do ano que passou. Bares e restaurantes populares que surgiram e/ou se destacaram em 2020:

PESCADOS NA BRASA:
O bar do casal de paraenses Adriana e Júnior surgiu como uma pequena e discreta birosca, numa calçada qualquer no bairro do Riachuelo, na Zona Norte. Ainda era meados de 2019. No começo de 2020, os peixes amazônicos assados numa churrasqueira improvisada na calçada começaram a chamar a atenção de frequentadores que vinham de muito além da vizinhança. Pirarucu, tucunaré, tambaqui, dourado e filhote, entre outros menos cotados, saindo em profusão da brasa direto para as mesinhas na calçada, que aos domingos invadiam a pista e transformavam a Rua Vitor Meireles numa divertida feira gastronômica em miniatura, ao som de carimbó. Tudo isso morreu com o período de fechamento por causa da pandemia, mas serviu de lição para o bar, que não esmoreceu e passou a investir no delivery enquanto se mantinha fechado o público. E foi enquanto muitos negócios tradicionais definhavam que o jovem Pescados na Brasa foi crescendo. Hoje, já reaberto, ganhou até sua primeira reforma e ampliação. A mais recente embaixada paraense da cidade por muito pouco também não abiscoitou logo o primeiro prêmio da carreira: seus deliciosos pirulitos de costeleta de tambaqui (esses aí na foto de @bergsilva) foram um dos mais votados na categoria “melhor petisco” do prêmio Comer e Beber 2020, aqui na Veja Rio. Perderam por pouco para o polvo com bacon do tradicional Velho Adonis.
@pescadosnabrasa

MONTAGU
Inaugurada em setembro de 2020, ou seja, no auge da pandemia, essa pequenina casa de sanduíches em Botafogo também cresceu a apareceu rapidamente, apostando no delivery. O nome do lugar, uma homenagem ao histórico inventor do sanduíche, o lorde inglês John Montagu, já dá uma medida da paixão dos donos pelo prato. Que lá é feito com o maior esmero mesmo. Tudo artesanal. E quem se aventura a ir comer o seu pessoalmente na loja também não se arrepende: pequena mas aconchegante, a Montagu The Sandwich consegue receber cerca de 10 comensais em suas mesas (com direito a um charmoso balcãozinho na calçada), onde se pode comer garrado numa cerveja artesanal bem gelada.
@montagu.rj

EMPÓRIO D´GUSTEE
Exatamente ao lado do Montagu, uma outra novidade discreta, gostosa e corajosa surgiu na cidade também durante a pandemia. O Empório D´Gustee oferece delícias artesanais de diferentes variedades e procedências – todas de alta qualidade. Seu dono é um veterano no mundo boêmio da Zona Sul: Carlos Alves, que foi dono do aclamado Kiosque do Português, que fez por anos as melhores caipirinhas da cidade. Além de empório, o D´Gustee serve também como ponto de encontro para apreciadores das criações gastronômicas de pequenos produtores. Todo sábado, a casa promove degustações de antepastos, queijos e frios, tudo regado a excelente cerveja artesanal, vinhos e cachaça. Vale a visita, mas o delivery também funciona muito bem.
@emporiodgusteerio

LABUTA
A cada ano que passa, mais chefs de alta gastronomia descobrem a comida de boteco. Do pioneiro Bruno Magalhães, que há mais de dez anos deixou o Miam Miam para abrir o seu Botero, até o mais recente exemplo da paróquia: o Labuta, do chef Lucio Vieira, do Lilia, que também se aventurou durante a pandemia e conseguiu se sair muito bem. O Labuta é um botequim muito simples, ao lado do lendário Armazém Senado, na Gomes Freire, que serve comida de botequim feita com qualidade de restaurante top. E com o auxílio da própria cozinha do seu Lilia, que fica logo ali ao lado também. O resultado, no minúsculo bar de menos de 20 metros quadrados, é comida muito boa e barata, quase sempre servida em PFs que variam diariamente (como convém a um bom botequim). Mas sem esquecer os petiscos de balcão, que saem fresquinhos todos os dias, às 16h. O Labuta, claro, também faz delivery.
@labuta_bar

ARMAZÉM CARDOSÃO
Esse de novo não tem nada. Mas se reinventou na pandemia. Encravado no alto da ladeira Cardoso Júnior, em Laranjeiras, há quase 60 anos, o Cardosão é tombado pela prefeitura e tem uma legião de fãs. Mas sofreu com as dificuldades impostsas pelo distnciamento social. Porém, uma surpreendente troca de comando, ocorrida há poucos meses,  injetou ânimo novo nas mesas e cadeiras boêmias e musicais da casa, que voltou com força total. Aliás, o Armazém Cardosão está enfrentando a crise de peito aberto mesmo: passa neste momento por uma ampla renovação interna. Vai perder um pouco da cara bagunçada e charmosa de velho armazém cheio de objetos, é bem verdade, mas vai ganhar mais espaço para mesas e mais conforto para os eventos. Especialmente os de samba e de jazz, que também são marca registrada do bar há anos. Assim como a feijoada, que algumas semanas atrás também voltou com força total. Já o jazz volta neste sábado, dia 9.
@armazemcardosao

 

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