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André Heller-Lopes Por André Heller-Lopes, diretor-artístico do Theatro Municipal A volta do Dito Erudito

Saudades do futuro do Rio de Janeiro

No pós-eleições, o Diretor fala da saudade que temos de acreditar no futuro da Cidade Maravilhosa

Por André Heller-Lopes Atualizado em 3 dez 2020, 11h44 - Publicado em 2 dez 2020, 18h59

Confesso que preferi esperar duas semanas e as eleições acabarem antes de voltar a escrever. O que disse no último blog, ainda que pensado para o 1º turno, valia e ecoava para a reta final das eleições. O próximo passo agora é algo que só posso definir como matar as saudades do futuro da Cidade do Rio de Janeiro.

E amanhã, o Sol brilhará novamente” — assim começa uma das mais emblemáticas canções de Richard Strauss, “Morgen“. Nesta segunda-feira, após o resultado das eleições municipais, a frase rodava na minha cabeça em uma espécie de “looping”. E além dela, a frase de um comentarista da TV que, inteligentemente, dizia: “…não foi uma derrota eleitoral, não. O Rio de Janeiro demitiu seu prefeito.” Como diz ainda a canção de Strauss, agora “seremos novamente um só, em meio a esta terra ensolarada.

Recentemente, li sobre novos corpos descobertos em Pompeia. Junto com a vizinha Herculano a cidade foi vítima de uma das catástrofes mais famosas da história no ano 79. As nuvens de cinzas em alta temperatura produzidas pelo vulcão Vesúvio cobriram tudo, deixando alguns de seus habitantes petrificados no tempo. E volta e meia algo de ‘novo’ aparece; às vezes, um belo afresco erótico de Lêda e o Cisne, outras, corpos como os desse homem e seu escravo. Nem mais homem nem escravo, mas casulos de cinzas. Desde o início das escavações, no final do século XVIII, Pompeia e seu fim trágico alimentaram a imaginação dos artistas. Escrevendo para o teatro São Carlos de Nápoles, em 1825, o compositor italiano Pacini, obteve um enorme sucesso com sua ópera “L’ultimo giorno di Pompei“. Mais de um século depois, em 1954, Ingrid Bergman estrelava “Viaggio in Italia”, filme de Rossellini, com direito a uma emblemática cena: um casal testemunha a escavação dos corpos de outro casal, descobertos abraçados no momento da morte. Ali os mortos contam a história dos vivos, seu amor eterno servindo para reflexão do homem e da mulher, cujo relacionamento está em crise. O episódio é fictício, mas a descoberta dos corpos entrelaçados como um só é real, tendo acontecido em 1913 no também ensolarado sul da Itália. Somente em 2017, quando os ossos e o DNA dos corpos foram analisados, descobriu-se que eram dois homens abraçados. Os corpos de Pompeia ainda têm muito a dizer — e ensinar. O passado deixa de ser um país estranho quando percebemos as curiosas semelhanças que podem guardar com o presente. Felizmente, a erupção de um vulcão não cobriu o Rio de Janeiro de rocha incandescente. Porém, já não é de hoje que ouvimos falar a expressão ‘mar de lama’. Utilizada pelos opositores de Vargas para referir-se a corrupção em seu segundo governo, a expressão que “inundava o Catete” precisava ficar no sepultada no passado.

O fato é que nos últimos anos o Rio de Janeiro vinha tornando-se uma saudade. Do passado, precisamos unicamente resgatar o que era bom; o que fazia da cidade uma das capitais culturais da América Latina. Ser uma “capital cultural” não é competição contra ninguém: é uma ação que requer retomar projetos, planos e ideias e, mais do que nunca e no ‘novo normal’, uma boa dose de capacidade de ‘pensar fora da caixa’. Tratado com descaso, o Rio perigava não ser mais uma cidade e, sim, uma saudade. Para quem escutou as histórias da “Bela Capital” e sua vocação para capital cultural do país, parece às vezes que tentam nos reduzir à uma cidade que um dia já foi; ou um Estado de saudade.

A luta para o resgate é por insistência, teimosia e porque lembramos de coisas que talvez nem tenhamos vivido. Poderia falar das temporadas de ópera, música e balé que desde 1843 (ou mesmo antes) marcaram a Cidade; mas não preciso ir tão longe, pois o futuro e o passado ainda estão ao nosso alcance: a cultura, em todas — efatizo: t-o-d-a-s — as suas expressões, é parte disso. A tarefa do amanhã é transformar o estado de saudade em Estado de fato; descobrir como essa cidade de saudade poderá voltar a ser uma Cidade de (muitos) futuros.

André Heller-Lopes
Encenador e especialista em óperas, duas vezes Diretor Artístico do Municipal do Rio,
é Professor da Escola de Música da UFRJ.

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