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André Heller-Lopes Por André Heller-Lopes, diretor-artístico do Theatro Municipal A volta do Dito Erudito

Sobre perdas ou “a quarentena não sairá a mesma de nós”

No Dito Erudito, André Heller-Lopes fala do centenário do soprano Ida Miccolis e de como seremos parte essencial deste novo período

Por André Heller-Lopes Atualizado em 17 ago 2020, 16h17 - Publicado em 17 ago 2020, 15h49

Massacres não aparecem em muitas óperas e balés. São as pequenas-grandes tragédias pessoais que povoam o repertório, em especial a dos amores perdidos. Pode parecer que estamos massacrados pela pandemia, mas sairemos desta vacinados. Em mais de um sentido, imunes. O vírus da falta de humanidade terá de cortar um dobrado para adaptar-se ao nosso novo normal.

Sim, o novo normal é uma via de mão dupla. Ele forçará humanos a uma renovada forma de conduzir seu cotidiano. Nós, lembrados de que somos humanos e mortais, forçaremos nova normalidade a ser mais humana. No espaço de alguns meses já vimos ao menos duas impensáveis ‘revoluções’: o grito de basta contra o racismo nos EUA (e um pouco no mundo todo), os protestos questionando a inquestionável monarquia na Thailandia e a escalada dos protestos pela retomada democrática na Bielorrússia. Por mais de duas décadas um presidente vem conseguindo se reeleger sem maiores problemas ou acusações de fraude nas eleições (ou ao menos problemas profundos o suficiente para forçar sua renúncia— e o mesmo pode valer para Evo Morales, do outro lado do espectro político) —; não mais. A lei severa que proíbe súditos de criticar minimamente seu monarca, parece ter virado pó. Os protestos contra o assassinato de um homem negro por policiais ameaçam seriamente uma reeleição que era tida como quase certa na toda-poderosa Casa Branca. No meio de tudo isso, consome-se Arte como se apenas ela pudesse manter a sanidade mental de todos. Aliás, retire-se a condicional: não há “se”, a Cultura que permite que o mundo a voe para além das quatro paredes que o enjaulam.

Voltar a alguma forma de normalidade é mais redefinir o que é normal do que reencontrar o hábito passado. Como quando passamos pela morte trágica e inesperada de alguém que conhecemos ou amamos; há uma rachadura nas paredes que definem nosso espaço. Penso na ópera La Bohème, de Puccini. Houvesse uma sequência após a morte de Mimi, com os 5 jovens tentando retornar às suas vidas normais suspeito que falhariam se buscassem a mesma juventude de antes: depois do final de La Bohème, a juventude neles morreu um pouco com a protagonista e o que resta é uma nova vida. Achar (e virar) a chave do recomeço e apreciar o novo normal é o que chamamos de viver. Não seria surpresa se o escritor, o pintor, o músico, o filósofo deixassem seus sonhos, abandonassem Paris e buscassem ‘tocar’ o negócio da família. Mesmo a esfuziante Musetta, talvez abandonasse seus amores passageiros e buscasse uma redenção moralista (sua vida secreta da juventude serviria perfeitamente a um drama burguês de chantagem do final do XIX, no estilo de O Primo Basilio). As perdas fazem parte destes anos que só percebemos jovens e passados depois que o futuro já durou todo seu (muito) tempo.

Se as perdas estão à nossa volta nesse momento tão delicado do mundo, de La Bohème lembrei por conta do centenário do grande soprano Ida Miccolis, nesta segunda-feira, dia 17 de agosto. Estreada num distante 1896, a ópera de Puccini baseia-se no delicioso folhetim de Henri Murger, Scènes de la vie de bohème, publicado num ainda mais longínquo 1847–49; foi tão bem sucedida que abriu ao autor de 25 anos uma espécie de filão, sendo seguido de uma Scènes de la vie de jeunesse (1851). Além de Puccini, conquistou Leoncavallo, o famoso compositor de I Pagliacci, tentando sua própria versão (só que centrada nos amores do casal Musetta/Marcello ao invés de Mimi/Rodolpho). Mimi, heroína etérea, predileta de 8 entre 10 sopranos, foi um papel notável de Ida Miccolis (entre tantos outros, ainda mais perfeitos ao seu arrebatamento dramático), e o YouTube permite ouvir sua primeira e última interpretação da ópera, em 1955 e 1974. Nunca ouvi sua voz “em vivo” mas encontrei “Dona Ida” uma dezena de vezes no Theatro Municipal do Rio, já retirada dos palco mas ainda linda e em plena majestade, com jóias e penteado de uma grande diva da maravilhosa ‘old school’ que tanto reverenciamos.

Antes da atual Eliane Coelho ou da única Ruth Staerke havia no Rio de Janeiro a geração de Ida Miccolis. Repleta de grandes artistas que tiveram oportunidade de mostrar e desenvolver sua arte, é essencial dizer. Seria até injusto destacar alguém como seu maior representante. Porém, a dona do centenário de hoje merece a homenagem pela artista única que foi, soberana e intocada em seu repertório. Uma artista de temperamento único e que, sobrinha de um dos grandes tenores italianos da primeira metade do século XX, Aureliano Pertile, recusou inúmeras oportunidades de tentar carreira no exterior. Com sua geração, bateu-se pela ópera no Brasil, construindo muito do legado que nos toca hoje defender. Conta a lenda que quando da reabertura do Municipal após da reforma dos anos 1970s, a administração foi entregue nas mãos de uma equipe estrangeira que, desconhecendo os grandes artistas líricos brasileiros, impuseram aos nossos audições; muitos, como Miccolis, recusaram-se (e com toda razão), encerrando assim carreiras que ainda poderiam ter durado uma década.

Felizmente hoje isso seria impensável — ou quase. Eis uma perigosa ressalva: há uma linha tênue e importante entre o que seria uma (tola) reserva de mercado, xenófoba e… indesejada pela maioria, e um ‘novo normal’ que deverá obrigatoriamente olhar com solidariedade para os artistas brasileiros. Seja ópera, circo, teatro, balé, artes visuais ou qualquer outra expressão, vamos precisar dar todo — repito, t-o-d-o — apoio ao nosso. Da sua geração de Miccolis, penso que escutei ao vivo no Rio apenas Paulo Fortes, Fernando Teixeira e Diva Pieranti. Foram deixando-nos todos a partir da década de 1990; Miccolis em 2015 e, em Maio último, Glória Queiroz, a última remanescente do grupo. São agora anjos da guarda que certamente protegem a lirica nacional e o Theatro Municipal em especial.

Óperas e balés não são palcos de grandes massacres, com centenas de milhares de mortos. Nem uma eventual Guerra e Paz de Prokofiev com a invasão napoleônica, La Forza del Destino de Verdi com suas batalhas da guerra espanhola, ou Les Huguenots de Meyerbeer com a Noite de São Bartolomeu, mostram os massacres em cena. Presumo que no século XIX como hoje em dia seja simplesmente caro demais (e pouco prático) matar tanta gente em cena. Balés e óperas preferem as tais pequenas-grandes tragédias, as pessoais. Nada comove mais, creio, do que um amor destruído, inconcluso ou ferido. A morte é a maior antagonista no espetáculo lírico, a ‘bruxa má’ e com voz de barítono mau que arruina a felicidade do casal tenor/soprano. Mas fazê-la profunda, tocante, é uma arte que envolve cena e música — grandes intérpretes desta estirpe das Miccolis, Violetas, Divas, Staerke, Imbert ou Coelho.

Infelizmente, nessa pandemia estamos mais alertas para as perdas, as passagens — e não somente as vítimas da Covid-19. Há muita gente boa, especial, que parece cansar deste velho mundo e simplesmente partir. Elas saem de cena, assim, do nada. Já escrevi que penso esse tempo como uma Terceira Guerra Mundial e que espero que o próximo momento seja como os anos 1950s: uma era de esperança, de humanismo e fé. Pelos que perdemos resta-nos acreditar que, se é verdade que não sairemos os mesmos dessa quarentena, também a quarentena não sairá a mesma de nós.

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One Art
BY (ELIZABETH BISHOP)

The art of losing isn’t hard to master;
so many things seem filled with the intent
to be lost that their loss is no disaster.

Lose something every day. Accept the fluster
of lost door keys, the hour badly spent.
The art of losing isn’t hard to master.

Then practice losing farther, losing faster:
places, and names, and where it was you meant
to travel. None of these will bring disaster.

I lost my mother’s watch. And look! my last, or
next-to-last, of three loved houses went.
The art of losing isn’t hard to master.

I lost two cities, lovely ones. And, vaster,
some realms I owned, two rivers, a continent.
I miss them, but it wasn’t a disaster.

—Even losing you (the joking voice, a gesture
I love) I shan’t have lied. It’s evident
the art of losing’s not too hard to master
though it may look like (Write it!) like disaster.

André Heller-Lopes,
Encenador e Professor da UFRJ, é Diretor Artistico do Theatro Municipal do RJ.

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