“Senti muito medo”, diz Chay Suede
Escalado para a próxima novela das 9, o ator aventura-se pela primeira vez nos palcos com peça escrita a partir das memórias de sua peculiar infância
Muito antes de se tornar um dos nomes mais requisitados na Globo, Chay Suede, ainda criança e morando em Vila Velha (ES), acompanhava pela TV as novelas de Manoel Carlos e se apaixonou pelo Rio. Conheceu a cidade quando veio apresentar o Desafio Alienígena, show criado por seu pai (o Roobertchay original) que reconstruía casos de avistamentos extraterrestres. No labirinto de terror montado em um modelo quase circense, ele dava susto nos visitantes vestido com uma roupinha de lycra.
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Anos depois, foi convidado para participar de Ídolos, reality show da Record que o revelou, aos 17 anos, e abriu caminho para trabalhos como ator. Aos 33, ele entra em uma nova fase ao subir ao palco pela primeira vez ó e com um monólogo.
Em cartaz no Teatro Casa Grande, Peça Infantil — A Vida e as Opiniões do Cavaleiro Roobertchay é dirigida pelo prestigiado Felipe Hirsch, que assina o texto junto a Caetano W. Galindo a partir de histórias narradas por Chay. Em entrevista a VEJA RIO, ele fala sobre o limite entre ficção e realidade, revela o interesse em novas linguagens da TV e dá pistas do próximo folhetim das 9, no qual será o mocinho.
Como surgiu a ideia da peça? O Felipe Hirsch sempre me fez sair de casa para ir ao teatro, e há tempos conversávamos sobre fazer algo para o audiovisual. Quando estava na reta final de Mania de Você, expressei meu desejo de integrar um de seus elencos. Começamos uma amizade e chegamos à ideia de um espetáculo só comigo — algo que eu nunca tinha cogitado.
Por que levou tanto tempo para subir ao palco? Meu começo no universo da interpretação não foi o tradicional, em uma escolinha de teatro. Minha carreira aconteceu de forma muito específica, através de um reality show de música. Nunca sonhei em ser ator. Aí fui convidado para fazer Rebelde, minha primeira novela, e agarrei as oportunidades que surgiram. O desejo pelas artes cênicas veio depois e estava aqui guardado.
São histórias desta época que estarão em cena? Não, a peça fala da infância e adolescência do Cavaleiro Roobertchay. Chamamos de pseudodocumentário porque algumas das minhas vivências serviram como base para o texto, mas a coisa saiu do controle e ficou bem fictícia. A graça é justamente essa confusão entre real e inventado. O que eu compartilhei foi uma fagulha de verdade que deu origem a um fogaréu de mentira.
Como foi abrir esse baú de lembranças? Tivemos três longos encontros nos quais contei coisas que nunca tinha falado com ninguém ó algumas sem nenhuma importância, outras extremamente profundas e marcantes. Nossa referência foi A Vida e as Opiniões do Cavalheiro Tristram Shandy, romance que inspirou Machado de Assis a escrever Memórias Póstumas de Brás Cubas, então seguimos uma linguagem do século XVIII e fizemos muitas outras misturadas.
O processo funcionou como sessão de terapia? Por um lado, sim. Eles são muito curiosos, sabiam exatamente o que perguntar. Em assuntos que nem dava bola, eles me fizeram ver uma profundidade que eu desconhecia.
Sente que a sua infância foi peculiar? Algumas coisas… Meu nome, que veio do meu pai, é um exemplo. E a dinâmica de trabalho que ele teve por alguns anos: uma exposição de tubarões vivos e depois o Desafio Alienígena, espetáculo que rodou muitas cidades com um labirinto onde eu ficava dando susto nos visitantes. Tudo isso me formou como pessoa e me preparou para a minha futura vida de ator.
O que você aprendeu com os seus pais e tenta reproduzir com os seus filhos? Tive sorte de ter uma criação com muito amor. Sou resultado disso, bem como das falhas que cometeram. Mesmo com muitos filhos, meus pais conseguiram ter um olhar individual e isso foi algo que aprendi. As crianças têm suas próprias demandas, não adianta querer criar todas de forma idêntica. Cada filho inaugura um novo pai.
Está confortável sozinho em cena? Senti muito medo. Estou acostumado a contracenar nas novelas, uso todo o material que meus colegas oferecem. Não ter esse retorno foi um grande choque. No início, me senti despido. Mas a ansiedade faz parte e é um excelente motor de execução. Com o tempo, percebi que em um monólogo a contracena é o público. Essa energia que vai e volta reverbera em mim.
O que pode adiantar sobre a próxima novela das 9? Começaremos a gravar Quem Ama Cuida em fevereiro. Estou muito animado para trabalhar com o Walcyr Carrasco e já conversamos um pouco sobre o personagem, que é um advogado poderoso e vai se envolver com a Letícia Colin. O vilão debochado tem a sua graça, mas o mocinho também. A novela é uma obra tão extensa que sempre temos possibilidade de explorar lugares diferentes em cada papel.
Faria uma novela vertical na Globo? Tenho bastante interesse nos novos formatos. É legal trazer as pessoas, mais jovens ou não, que não ligam mais a TV para ver uma novela. Inclusive, tenho uma surpresinha relacionada a isso para este ano, que envolve essas linguagens. Um projeto meu, com a minha produtora, para a internet.
De que forma você cuida da saúde mental? Além do exercício físico, é perceber que eu não sou necessariamente o centro da minha vida. Tenho uma disponibilidade física e mental para a minha família, e isso me ajuda a não me dar tanta importância. As redes sociais colocam a gente em primeiro plano o tempo inteiro, há uma necessidade constante de aceitação e opinião. A peça fala sobre o scroll infinito e a superficialidade disso, bem como do fato de que a imagem refletida se tornou muito mais importante do que a imagem em si.
Apesar de viver em São Paulo, você vem bastante ao Rio. Como é sua relação com a cidade? Venho para cá desde que tenho 10 anos e sou completamente apaixonado. Já morei no Baixo Gávea, e até hoje vou ao Braseiro; e no Arpoador, onde gosto de remar e nadar.





