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“Perderam a noção”, diz pesquisadora sobre patrulha ao Cacique de Ramos

O desabafo indignado de Rachel Valença sobre a proposta de boicote que o Cacique de Ramos vem enfrentando

Por Cleo Guimarães - 18 fev 2020, 12h30

Professora, pesquisadora e autora do livro “Serra, Serrinha, Serrano: O Império do Samba”, em parceria como Suetônio Valença, Rachel Valença, uma das maiores autoridades do país quando o assunto é carnaval, diz que acordou “revoltada” nesta terça-feira. O motivo: O Cacique de Ramos, um dos blocos mais tradicionais do Rio, está sendo vítima de patrulha por causa das fantasias de índio usadas pelos seus integrantes desde 1961. A polêmica chegou ao ponto de alguns internautas sugerirem “cancelar” (o equivalente a “boicotar” quem é considerado ofensivo, de alguma forma, nas redes) o Cacique. “Isso é um absurdo completo, as pessoas perderam o senso do ridículo”, afirma Rachel. A pedido de VEJA RIO, ela escreveu o desabafo que você lê abaixo:

Rachel: “Respeitem o Cacique!” Rádio Arquibancada/Reprodução

“Acordei com a notícia de que as patrulhas do politicamente correto voltam suas baterias para o Cacique de Ramos. Difícil acreditar nisso! No último sábado, o Cacique era convidado de honra na Feijoada Imperial e confesso que me emocionei ao ver o Bira Presidente, agora um senhorzinho de mais de 80 anos, à frente de um bloco que fundou há quase 60 anos e que teve importante relevância cultural. O Cacique soube envelhecer, renovar-se sem concessões, incluir jovens e respeitar tradições. Foi um dos movimentos culturais mais importantes na valorização do samba, que andava esquecido e maltratado.

Foi na quadra do bloco, à sombra da histórica tamarineira, que Beth Carvalho conheceu os sambas que comporiam o tesouro de seu repertório e a levariam ao sucesso. Foi lá também que Jorge Aragão, Arlindo Cruz, Luiz Carlos da Vila e tantos outros se tornaram os monstros sagrados que admiramos. Bira se chama Ubirajara e seus irmãos também têm nomes de inspiração indígena. Sua fé em religião de matriz africana abrange caboclos. O nome do bloco foi inspirado por esse amálgama de culturas, essa doce mistura que se traduz, em última instância, por resistência. Agora, quando o Cacique de Ramos se aproxima de 60 anos de atividade, querem me fazer acreditar que seu nome e suas tradicionais indumentárias carnavalescas ofendem os indígenas? O que ofende o povo índio é o tratamento desumano que recebeu e recebe do poder público, é a incompreensão e o desrespeito à sua cultura, o apagamento de seus direitos de cidadão, a espoliação de suas terras pela ganância. Essa é a luta que devemos apoiar, enfrentar e compartilhar, sem perder  tempo com discussões fúteis, sem pé nem cabeça. As pessoas perderam a noção, o senso do ridículo.”

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