“A liberdade é como uma fênix”, diz Rosiska Darcy
Fotobiografia da escritora reúne memórias de exílio e militância, e retrata uma geração que transformou o papel das mulheres no Brasil
Exceto pelos quinze anos de exílio na Suíça, a escritora Rosiska Darcy de Oliveira viveu por toda a vida no mesmo casarão dos anos 1940 erguido por seus pais em meio à Floresta da Tijuca, na Gávea Pequena — uma permanência curiosa para alguém que fez da transformação sua matéria-prima. Na sexta (27), chega às livrarias a fotobiografia que leva seu nome e sintetiza, com delicadeza e força, a trajetória da militante feminista, entrelaçada a capítulos decisivos da história do Brasil.
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Imagens captadas pelo marido, o diplomata Miguel Darcy de Oliveira, cartas e trechos de sua obra ajudam a compor o retrato de uma geração que fez da liberdade um projeto de vida. Aos 82 anos, Rosiska segue em plena atividade. Imortal da Academia Brasileira de Letras, sexta ocupante da cadeira 10, para a qual foi eleita em 2013, ela fundou a Coalizão de Mulheres Brasileiras, em 1991, presidiu o Conselho Nacional dos Direitos da Mulher em 1995 e hoje atua como diretora editorial da Revista Brasileira da ABL.
Na conversa com VEJA RIO, revisita a experiência da ditadura e estabelece pontes com as lutas do presente — mostrando que, mais do que memória, essa trajetória segue sendo movimento.
Que geração é representada no livro? Aquela que nasceu sob o impacto da bomba atômica e do Holocausto, mas viu surgir a Declaração Universal dos Direitos Humanos, os adventos da ciência, a chegada da internet e, agora, da inteligência artificial. Nos adaptamos a uma quantidade imensa de transformações e promovemos mudanças profundas, especialmente no papel das mulheres.
O Brasil de hoje honra esse passado? Precisamos olhar para o país com menos severidade. A sociedade derrubou uma ditadura — algo do qual devemos nos orgulhar — e avançou em pautas importantes. Houve a mudança no Estatuto da Mulher, a ascensão do movimento negro em busca de mais espaço e direitos, e maior visibilidade para as populações indígenas. Também vejo uma abertura muito maior nas escolhas afetivas e sexuais. A liberdade é como uma fênix: quando parece ameaçada, ressurge em outro lugar.
O conservadorismo é uma reação a isso? Nomear o assassinato de uma mulher por ela ser mulher como feminicídio é um avanço, assim como a Lei Maria da Penha. Antes, a agressão era naturalizada. Agora, pode até ser que aconteça ainda mais, mas sabemos merecer dignidade, respeito e autonomia. Esse movimento de insubmissão incomoda quem estava habituado a impor sua vontade, e a violência surge como resposta à perda de poder.
A senhora fala muito sobre liberdade. Já se sentiu verdadeiramente livre? Essa é a busca de toda uma vida. Sempre foi um objetivo, entendido como o direito de escolha — poder decidir como viver. Por isso lutei contra a ditadura, pelas mulheres e pela ampliação da democracia. Até na velhice defendo minha autonomia. Sou a favor da morte assistida (que é proibida no Brasil) para decidir sobre meu próprio fim.
O exílio foi uma formação? É uma cicatriz indelével. Você perde tudo e vive numa instabilidade constante, é muito difícil de aceitar. Ao mesmo tempo, houve um aspecto formador e ampliou meu olhar sobre o mundo. Entendi que o Brasil não era o único ponto de vista e aprendi muito, inclusive sobre o próprio país.
Por que tantas produções estão explorando o assunto? Acho que se contou pouco essa história, talvez por ter sido muito traumática. Fico feliz que filmes como Ainda Estou Aqui e O Agente Secreto tenham ganhado essa projeção, e agradeço o trabalho de Chico Buarque e Caetano Veloso como intérpretes da resistência.
Como a convivência com Paulo Freire e Darcy Ribeiro mudou sua forma de pensar o país? Paulo foi meu companheiro de exílio e nossa troca foi riquíssima, marcada pela crença na educação como motor de transformação. Com Darcy, o aprendizado era cotidiano — de inteligência, humor e amor pela vida. Ele repetia que “é bom estar vivo” e achava que o Brasil ainda iria “amanhecer”.
Como vê a queda no número de leitores? É claro que há uma forte concorrência das imagens — cinema, televisão e, sobretudo, o streaming. Ainda assim, a literatura tem a característica única de mobilizar o imaginário, ao contrário do audiovisual, que oferece imagens definidas. Há uma espécie de coautoria. Essa capacidade de construir um mundo próprio torna a literatura insubstituível.
Acredita que a ABL está em um momento de mais abertura? Sim, e sou uma defensora dessas mudanças. A academia precisa refletir a diversidade do Brasil. Lutei por mais mulheres na instituição — quando entrei, em 2013, fui apenas a oitava, em mais de cem anos de história. Hoje, vejo avanços significativos, com a entrada de Ailton Krenak e Ana Maria Gonçalves, bem como Fernanda Montenegro e Gilberto Gil, que representam o que há de mais alto na nossa cultura.
Aos 82 anos, o que muda na forma de olhar para o tempo? É incontornável o sentimento da finitude. Mas prefiro pensar que a minha geração é a primeira a viver uma espécie de “terceira vida”, graças ao aumento da longevidade. O que muda é a consciência de que o tempo é o bem mais precioso. Sempre achei isso, mas agora essa percepção é maior. Não há espaço para concessões: viver passa a ser um exercício de intensidade.





