‘Espero não ter nada dele em mim’, diz Lázaro Ramos sobre o vilão Jendal

Ator vive primeiro antagonista, em A Nobreza do Amor, e bom momento no cinema, no streaming e na literatura - e se firma como um dos mais versáteis do país

Por Natália Boere 27 mar 2026, 06h43 •
Foto 21-01-2026, 11 22 56 (2).jpg
Lázaro Ramos: ator vive o seu melhor momento na TV, no cinema e na literatura (Rafael Reis/Divulgação)
Continua após publicidade
  • “Ele vai dizer que ficou no Rio por causa do trabalho, mas não é verdade. Ficou por minha causa.” A frase é de Taís Araujo, atravessando a entrevista com o humor de quem conhece cada capítulo da história do marido. Lázaro Ramos ri, mas não desmente a versão da mulher sobre o que o fez, em 2003, se mudar definitivamente de Salvador para o Rio de Janeiro. O papo se desenrola logo antes de ele zarpar para o aeroporto com destino a Los Angeles, onde acompanharia o amigo de longa data Wagner Moura na cerimônia do Oscar – mais um compromisso em uma agenda que hoje se divide entre cinema, televisão, literatura, eventos internacionais e projetos próprios.

    + Para receber VEJA RIO em casa, clique aqui

    Aos 47 anos, Lázaro vive talvez o mais intenso momento de toda a carreira. Em cartaz com seu primeiro vilão na TV, à frente de produções de alcance global e com novos trabalhos no cinema e no streaming, transita com naturalidade entre os distintos papéis – ator, diretor, escritor e produtor -, consolidando-se como um dos artistas mais multifacetados da cena brasileira. O ritmo acelerado, faz questão de lembrar, lhe traz o permanente desafio de não perder a densidade. “Minha meta maior é me manter coerente com o que eu acredito, contar histórias que façam diferença na vida das pessoas e, sendo um pouco egoísta, na minha também”, diz.

    Wr-HwIwA.psd
    No palco do Copacabana Palace: à frente da primeira edição do Golden Globes Tribute Gala no Brasil com Bruna Marquezine (Golden Globes/Divulgação)

    No dia seguinte ao retorno dos Estados Unidos, Lázaro já estava (ufa!) no palco do Copacabana Palace, apresentando a primeira edição do Golden Globes Tribute Gala no Brasil. Para o produtor Uri Singer, da Urland Ventures, sua presença era “indispensável”. “Lázaro representa a potência da arte como força de transformação, além do talento e da diversidade brasileira”, avalia. O ano também marca um profícuo reencontro com o ofício de ator. Depois de temporadas voltado para livros, direção e produção, ele retornou às novelas como Jendal, vilão de A Nobreza do Amor, o manipulador personagem da trama global das 6 sobre o qual brinca: “Espero não ter nada dele em mim”.

    Nobreza Do Amor
    Depois de temporadas dedicadas a livros, direção e produção: volta às câmeras com seu primeiro vilão em A Nobreza do Amor, em que contracena com Duda Santos (Estevam Avellar/TV Globo)

    Dar vida a uma figura malévola é uma sacudida e tanto para um ator historicamente associado a papéis do bem. Autor do folhetim ao lado de Duca Rachid e Júlio Fischer, Elisio Lopes Jr. conta que precisou convencê-lo a aceitar o desafio. E não se arrepende: “A forma como ele constrói o personagem, como uma trança, é impressionante”, elogia Elisio. “Lázaro o humaniza e lhe imprime muitas camadas”, arremata Duca.

    Continua após a publicidade
    20201213-rd1-duca-rachid-widelg.jpg
    Duca Rashid: “Lázaro humaniza Jendal e lhe imprime muitas camadas” (./TV Globo)

    Estar sob os holofotes junto a Lázaro Ramos tem lá seus efeitos colaterais, como relata Vladimir Brichta. Próximos por mais de duas décadas, desde os tempos da peça A Máquina, de João Falcão, que os projetou nacionalmente na mesma leva que Wagner Moura, ele define o ato de contracenar com o colega como “risco calculado”. “Ele vinha perto de mim, olhava no fundo do meu olho e me provocava. Não tinha jeito: eu começava a rir”, lembra, cutucando as boas memórias das filmagens de Velhos Bandidos, de Claudio Torres, que acaba de chegar aos cinemas.

    IMG_8672.JPEG
    Também em cartaz: com Fernanda Montenegro e Vladimir Brichta, Velhos Bandidos tem o humor brasileiro (Laura Campanella/Divulgação)

    No elenco, estão ainda nomes como Bruna Marquezine e Fernanda Montenegro, que conheceu nos bastidores da minissérie Pastores da Noite, de 2002, e a quem ele chama de “mãe”. “Nos vemos como parentes mesmo. Nos falamos, nos abraçamos e nos cultuamos há mais de trinta anos”, derrama-se a veterana atriz. “Ele é um dos maiores atores de sua geração”, acrescenta Bruna, que o chamava de “tio Lázaro” quando trabalharam em Cobras & Lagartos, em 2006.

    IMG_8656.jpg
    Premiado: o ator está nos cinemas com Feito Pipa, longa que levou duas estatuetas no Festival de Berlim (./Divulgação)
    Continua após a publicidade

    A maratona em que embarcou não dá trégua. Lázaro acaba de entrar em cartaz com Feito Pipa, vencedor de dois prêmios no Festival de Berlim, e se prepara para dirigir o quarto longa, Mais que Irmãos, no qual também atua. Outro projeto engatilhado é a terceira temporada da série Os Outros, que estreia no próximo dia 9 no Globoplay, em que vive um engenheiro. “Ele mistura rigor e doçura e confere ao papel uma complexidade que talvez eu nem tenha visto no roteiro”, observa Lucas Paraizo, o criador.

    Lucas Paraizo.jpg
    Lucas Paraizo: “Lázaro mistura rigor e doçura”, diz o criador da série Os Outros (Fabiano Battaglin/Gshow/Divulgação)

    Entre sets, eventos mundo afora e roteiros em andamento, é dentro de casa que dá uma acalmada – ou, ao menos, muda o tom. No apartamento de Botafogo, ele engata em um cotidiano típico daquelas casas nada silenciosas, movida a muito assunto à mesa. Casado há mais de duas décadas com Taís Araujo, 47 anos, Lázaro tem nos filhos João Vicente, 14, e Maria Antônia, 11, “duas boas companhias”.

    IMG_8601.psd
    União feliz: casado há mais de duas décadas com Taís Araujo, é pai de um casal, João Vicente, de 14 anos, e Maria Antônia, de 11 (./Arquivo pessoal)

    Já entrando na adolescência, João herdou do pai a verve irônica; Maria é a palhaça da família. “Eu pergunto a quem ela puxou e escuto: ‘Sou filha de quem?.” “Somos uma família do chamego”, resume ele, cuja rotina inclui levar os rebentos à escola, sentar-se com eles para jantar e estar presente sempre que possível. “Às segundas, jogo videogame com João e vôlei com a Maria Antônia. Nos fins de semana, é todo mundo junto”, diz.

    Continua após a publicidade

    Taís o observa em plena atividade e o vê realizado. “Lázaro está entendendo quem se tornou, de onde saiu, e não tem medo de ser imenso”, fala. Em meio a tudo, o artista ainda cultiva um lado blogueiro, acompanhado por 6 milhões de seguidores, o que em nada ofusca seus princípios analógicos. “Ele gosta de usar agenda de papel. Se tudo não estiver ali, não consegue se organizar. E responde pouco às mensagens no WhatsApp, o que acho até bom”, entrega Taís.

    Screenshot
    Vocação para dialogar: conversas com artistas, pensadores e criadores sobre cultura no programa Espelho, do Canal Brasil, que completou vinte anos no ar (Canal Brasil/Divulgação)

    Bom de trocar um dedo de prosa, Lázaro está completando vinte anos como apresentador do programa Espelho, exibido pelo Canal Brasil, em que conversa com artistas, pensadores e criadores sobre cultura e política. O formato nasceu quase como um experimento e acabou se tornando um consistente espaço para reflexão na televisão brasileira. Fora da tela, ele dá margem ao ímpeto de atuar socialmente como embaixador do Unicef no Brasil, participando desde 2009 de campanhas centradas em educação, proteção de direitos e combate a práticas racistas.

    IMG_8634.JPG copiar
    Estreia global: Cobras & Lagartos (2006), exibida no horário das 7, foi a primeira novela de Lázaro, que interpretou o hilário Foguinho (./TV Globo)
    Continua após a publicidade

    A mescla de arte e engajamento virou marca registrada. Em um ambiente cada vez mais polarizado, tamanha exposição amplia o alcance de sua voz, mas também o põe sob constante, e não raro implacável, escrutínio. Para uma ala significativa de jovens artistas negros, ele se transformou em um símbolo de que dá para chegar lá. Sucesso com o monólogo Macacos, sobre racismo estrutural, história do Brasil e violência contra negros, Clayton Nascimento diz que Lázaro é referência. Ainda universitário, ele assistiu ao filme Madame Satã, de 2002, e depois à novela Cobras & Lagartos. “Quando o vi na TV, percebi que vários de nós também poderíamos estar ali”, relata o hoje ator e diretor.

    Na minha pele.png
    Na Minha Pele, de 2017: o livro em que mistura memória e reflexão vendeu mais de 300 000 exemplares e ganhou sequência no ano passado (./Divulgação)
    Na nossa pele.png
    Na Nossa Pele: a continuação em que relata a jornada de sua mãe (./Divulgação)

    Se no palco e na tela Lázaro Ramos encontra o corpo das histórias, é na escrita que ele organiza o pensamento. Em 2017, lançou Na Minha Pele, livro em que mistura lembranças e pensamentos sobre identidade e racismo, se debruçando sobre a trajetória pessoal. A obra virou fenômeno editorial, com mais de 300 000 exemplares vendidos, presença em escolas e clubes de leitura, e ganhou até sequência no ano passado, Na Nossa Pele: Continuando a Conversa, na qual ele relata com emoção a jornada de sua mãe, Célia Maria do Sacramento, empregada doméstica que morreu quando ele tinha apenas 20 anos. “Acho que tenho muito dela. Meu tipo de humor, os momentos que estou carente. Minha mãe era bem dengosa”, diz Lázaro.

    Screenshot
    Célia Maria do Sacramento: mãe de Lázaro foi empregada doméstica e morreu quando ele tinha 20 anos (./Arquivo pessoal)
    Continua após a publicidade

    Autor de variados estilos, ele escreveu de Você Não É Invisível, para o público jovem, a Cadernos de Rimas do João e Cadernos sem Rimas da Maria, ambos infantis e inspirados nos filhos. Escrever, afirma, é uma forma de ampliar a conversa que começa no palco ou na tela. Um objetivo é incentivar a formação de leitores e ajudar a abrir o acesso à cultura, especialmente entre a turma que raramente se vê representada nas histórias que consome. “É o que me alimenta e faz com que tenha forças para seguir. Ao longo dos anos, muita gente sucumbiu no meio do caminho, né?”, constata.

    No bando de Teatro Olodum.png
    Bando de Teatro Olodum: Lázaro entrou na oficina aos 15 anos e logo arrebatou o papel de Zumbi dos Palmares (Bando de teatro Olodum/Reprodução)

    A trilha que levou Lázaro Ramos ao posto que hoje ocupa teve início em Salvador, em 1993, dentro do Bando de Teatro Olodum. Aos 15 anos, ele concorreu com mais de 200 candidatos e acabou conquistando uma das cinco vagas da oficina da companhia fundada por Márcio Meirelles. Chamou a atenção logo na seleção. “Quando alguém chegava perto para mandar ele sair, mudava de lugar. A gente percebeu que Lázaro queria muito ficar”, lembra o diretor.

    1.jpeg
    Em família: com o pai, que mora em Salvador, e o retrato que guarda da mãe, Célia Maria, que morreu quando ele tinha 20 anos (./Arquivo pessoal)

    Começou fazendo personagens pequenos até que, um dia, o protagonista de uma peça sobre Zumbi dos Palmares faltou. O jovem ator então assumiu a cena e nunca mais abandonou o holofote. “Ele foi tão bem que acabou ficando com o papel”, completa Meirelles. Pouco depois já escrevia textos e dirigia um espetáculo infantil no Bando. A frenética fase que vive agora o faz ter vontade de regressar às origens. O ator conta que a família já chegou a olhar apartamentos e escolas para os filhos em solo baiano. Quer estar perto do pai, Ivan, que está com 82 anos, do sobrinho e do afilhado. “De seis em seis meses esse plano volta. Vamos ver que horas ele se concretiza”, fala Lázaro. Haja fôlego. 

    Screenshot
    Lázaro Ramos nasceu e foi criado em Salvador: lá deu início à carreira artística com o famoso Bando de Teatro Olodum (./Arquivo pessoal)

     

    Visto de Perto

    Colegas de trabalho contam como é dividir a cena com o ator

    Fernanda Montenegro, atriz 

    “A gente se olha como parentes mesmo. Se fala, se abraça, se cultua há mais de trinta anos, desde que ele tinha 18 anos. Vai tentar explicar o mistério que é a vida. Nós nos encontramos e pertencemos a uma mesma célula.”

    Duca Rachid, autora da novela A Nobreza do Amor

    “Ele está impecável como Jendal. É um vilão que sabe que, fora de Batanga, não terá poder nem dinheiro porque é um homem de pele preta, e isso o humaniza. Lázaro imprime muitas camadas nesse personagem.” 

    Duda Santos, atriz

    “Admiro de muito tempo, é inacreditável o que ele faz. Uma honra poder aprender e trocar com ele em A Nobreza do Amor. Uma pessoa muito generosa e com uma responsabilidade admirável com o ofício.” 

    Bruna Marquezine, atriz

    “Queria ter tido mais oportunidades de contracenar com ele em Velhos Bandidos. Aprendo muito na presença dele também, na troca. Eu tinha que me controlar para estar presente com ele em cena, porque para mim era muito fácil só ficar admirando. É um dos maiores atores da minha geração.”

    Vladimir Brichta, ator

    “Lazinho é uma das pessoas mais adoráveis de se estar, tanto em cena como fora, um dos poucos que me desconcentram, inclusive, em cena. Fiz uma peça com ele em que eu ria praticamente todos os dias. É extremamente agradável, muito bom ator, um cara muito seguro do trabalho dele e um grande amigo.” 

    Lucas Paraizo, autor da série Os Outros 

    “Mistura profissionalismo, rigor e doçura ao mesmo tempo. Trouxe uma humanidade absurda para a série, e tornou o personagem mais complexo. Lázaro é um artista muito completo, é ator, diretor e roteirista, e deixa uma marca em cada trabalho.” 

     

    ELE disse, ELA disse 

    Será que Lázaro e Taís conhecem as preferências um do outro?

    LÁZARO

    Foto 21-01-2026, 11 22 48 (2).jpg
    As preferências de Lázaro e de Taís: na opinião dele (RafaeL Reis/Divulgação)

    Prato Preferido

    Camarão. O dela? Feijoada. 

    Viagem dos sonhos 

    Grécia. A dela? Também Grécia.

    Filme Preferido

    Esse ela não vai saber: Nós que Nos Amávamos Tanto, de Ettore Scola. E o dela? Chuto Filhas do Vento. 

    Música

    Ain’t Got No, I Got Life, na voz de Nina Simone. A dela? Linha do Equador, do Djavan. 

    Artista ou Banda

    Gilberto Gil. A dela? Djavan, claro.

    Sobremesa

    Quase não como — sou intolerante à caseína. Às vezes, bananada. A dela? Bolo. 

    Cor 

    Preto. A dela? Cru. 

    Programa de TV

    Ela vai dizer Os Simpsons. E o dela? Talvez Largados e Pelados.

    Carnaval ou são João?

    Ela é Carnaval. Eu sou São João — Carnaval com comida. 

    TAÍS

    Tais Araujo credito Fernando Tomaz 3.jpg
    As preferências de Taís e Lázaro: na perspectiva dela (Fernando Tomaz/Divulgação)

    Prato Preferido

    Comida tailandesa — para mim e para ele.

    Viagem dos sonhos 

    Grécia, sem discussão. 

    Filme Preferido

    Feliz Natal, de Selton Mello — e a trilogia Antes do Amanhecer. E o dele? Não faço ideia

    Música

     Impossível escolher: Djavan, Caetano, Gil… A dele? I Got Life, da Nina Simone. 

    Artista ou Banda

    Djavan. E o dele? Gil, Caetano…

    Sobremesa

    Qualquer coisa com chocolate — pode ser bolo. A dele? Bananada ou nada. Ele é péssimo de doce.

    Cor 

    Branco — adoro roupa branca. E a dele? Não sei… Melhor assim, fica misterioso. Talvez verde.

    Programa de TV

    A Dança dos Famosos ou Casamento às Cegas. E o dele? Saturday Night Live ou Os Simpsons.

    Carnaval ou são João?

    Eu sou Carnaval e ele é São João. Que baiano não é louco por São João?

    Publicidade

    Essa é uma matéria fechada para assinantes.
    Se você já é assinante clique aqui para ter acesso a esse e outros conteúdos de jornalismo de qualidade.

    Domine o fato. Confie na fonte.
    15 marcas que você confia. Uma assinatura que vale por todas
    Impressa + Digital no App
    Impressa + Digital
    Impressa + Digital no App

    Informação de qualidade e confiável, a apenas um clique.

    Assinando Veja você recebe semanalmente Veja Rio* e tem acesso ilimitado ao site e às edições digitais nos aplicativos de Veja, Veja SP, Veja Rio, Veja Saúde, Claudia, Superinteressante, Quatro Rodas, Você SA e Você RH.
    *Assinantes da cidade do RJ

    A partir de R$ 29,90/mês