‘Espero não ter nada dele em mim’, diz Lázaro Ramos sobre o vilão Jendal
Ator vive primeiro antagonista, em A Nobreza do Amor, e bom momento no cinema, no streaming e na literatura - e se firma como um dos mais versáteis do país
“Ele vai dizer que ficou no Rio por causa do trabalho, mas não é verdade. Ficou por minha causa.” A frase é de Taís Araujo, atravessando a entrevista com o humor de quem conhece cada capítulo da história do marido. Lázaro Ramos ri, mas não desmente a versão da mulher sobre o que o fez, em 2003, se mudar definitivamente de Salvador para o Rio de Janeiro. O papo se desenrola logo antes de ele zarpar para o aeroporto com destino a Los Angeles, onde acompanharia o amigo de longa data Wagner Moura na cerimônia do Oscar – mais um compromisso em uma agenda que hoje se divide entre cinema, televisão, literatura, eventos internacionais e projetos próprios.
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Aos 47 anos, Lázaro vive talvez o mais intenso momento de toda a carreira. Em cartaz com seu primeiro vilão na TV, à frente de produções de alcance global e com novos trabalhos no cinema e no streaming, transita com naturalidade entre os distintos papéis – ator, diretor, escritor e produtor -, consolidando-se como um dos artistas mais multifacetados da cena brasileira. O ritmo acelerado, faz questão de lembrar, lhe traz o permanente desafio de não perder a densidade. “Minha meta maior é me manter coerente com o que eu acredito, contar histórias que façam diferença na vida das pessoas e, sendo um pouco egoísta, na minha também”, diz.
No dia seguinte ao retorno dos Estados Unidos, Lázaro já estava (ufa!) no palco do Copacabana Palace, apresentando a primeira edição do Golden Globes Tribute Gala no Brasil. Para o produtor Uri Singer, da Urland Ventures, sua presença era “indispensável”. “Lázaro representa a potência da arte como força de transformação, além do talento e da diversidade brasileira”, avalia. O ano também marca um profícuo reencontro com o ofício de ator. Depois de temporadas voltado para livros, direção e produção, ele retornou às novelas como Jendal, vilão de A Nobreza do Amor, o manipulador personagem da trama global das 6 sobre o qual brinca: “Espero não ter nada dele em mim”.
Dar vida a uma figura malévola é uma sacudida e tanto para um ator historicamente associado a papéis do bem. Autor do folhetim ao lado de Duca Rachid e Júlio Fischer, Elisio Lopes Jr. conta que precisou convencê-lo a aceitar o desafio. E não se arrepende: “A forma como ele constrói o personagem, como uma trança, é impressionante”, elogia Elisio. “Lázaro o humaniza e lhe imprime muitas camadas”, arremata Duca.
Estar sob os holofotes junto a Lázaro Ramos tem lá seus efeitos colaterais, como relata Vladimir Brichta. Próximos por mais de duas décadas, desde os tempos da peça A Máquina, de João Falcão, que os projetou nacionalmente na mesma leva que Wagner Moura, ele define o ato de contracenar com o colega como “risco calculado”. “Ele vinha perto de mim, olhava no fundo do meu olho e me provocava. Não tinha jeito: eu começava a rir”, lembra, cutucando as boas memórias das filmagens de Velhos Bandidos, de Claudio Torres, que acaba de chegar aos cinemas.
No elenco, estão ainda nomes como Bruna Marquezine e Fernanda Montenegro, que conheceu nos bastidores da minissérie Pastores da Noite, de 2002, e a quem ele chama de “mãe”. “Nos vemos como parentes mesmo. Nos falamos, nos abraçamos e nos cultuamos há mais de trinta anos”, derrama-se a veterana atriz. “Ele é um dos maiores atores de sua geração”, acrescenta Bruna, que o chamava de “tio Lázaro” quando trabalharam em Cobras & Lagartos, em 2006.
A maratona em que embarcou não dá trégua. Lázaro acaba de entrar em cartaz com Feito Pipa, vencedor de dois prêmios no Festival de Berlim, e se prepara para dirigir o quarto longa, Mais que Irmãos, no qual também atua. Outro projeto engatilhado é a terceira temporada da série Os Outros, que estreia no próximo dia 9 no Globoplay, em que vive um engenheiro. “Ele mistura rigor e doçura e confere ao papel uma complexidade que talvez eu nem tenha visto no roteiro”, observa Lucas Paraizo, o criador.
Entre sets, eventos mundo afora e roteiros em andamento, é dentro de casa que dá uma acalmada – ou, ao menos, muda o tom. No apartamento de Botafogo, ele engata em um cotidiano típico daquelas casas nada silenciosas, movida a muito assunto à mesa. Casado há mais de duas décadas com Taís Araujo, 47 anos, Lázaro tem nos filhos João Vicente, 14, e Maria Antônia, 11, “duas boas companhias”.
Já entrando na adolescência, João herdou do pai a verve irônica; Maria é a palhaça da família. “Eu pergunto a quem ela puxou e escuto: ‘Sou filha de quem?.” “Somos uma família do chamego”, resume ele, cuja rotina inclui levar os rebentos à escola, sentar-se com eles para jantar e estar presente sempre que possível. “Às segundas, jogo videogame com João e vôlei com a Maria Antônia. Nos fins de semana, é todo mundo junto”, diz.
Taís o observa em plena atividade e o vê realizado. “Lázaro está entendendo quem se tornou, de onde saiu, e não tem medo de ser imenso”, fala. Em meio a tudo, o artista ainda cultiva um lado blogueiro, acompanhado por 6 milhões de seguidores, o que em nada ofusca seus princípios analógicos. “Ele gosta de usar agenda de papel. Se tudo não estiver ali, não consegue se organizar. E responde pouco às mensagens no WhatsApp, o que acho até bom”, entrega Taís.
Bom de trocar um dedo de prosa, Lázaro está completando vinte anos como apresentador do programa Espelho, exibido pelo Canal Brasil, em que conversa com artistas, pensadores e criadores sobre cultura e política. O formato nasceu quase como um experimento e acabou se tornando um consistente espaço para reflexão na televisão brasileira. Fora da tela, ele dá margem ao ímpeto de atuar socialmente como embaixador do Unicef no Brasil, participando desde 2009 de campanhas centradas em educação, proteção de direitos e combate a práticas racistas.
A mescla de arte e engajamento virou marca registrada. Em um ambiente cada vez mais polarizado, tamanha exposição amplia o alcance de sua voz, mas também o põe sob constante, e não raro implacável, escrutínio. Para uma ala significativa de jovens artistas negros, ele se transformou em um símbolo de que dá para chegar lá. Sucesso com o monólogo Macacos, sobre racismo estrutural, história do Brasil e violência contra negros, Clayton Nascimento diz que Lázaro é referência. Ainda universitário, ele assistiu ao filme Madame Satã, de 2002, e depois à novela Cobras & Lagartos. “Quando o vi na TV, percebi que vários de nós também poderíamos estar ali”, relata o hoje ator e diretor.
Se no palco e na tela Lázaro Ramos encontra o corpo das histórias, é na escrita que ele organiza o pensamento. Em 2017, lançou Na Minha Pele, livro em que mistura lembranças e pensamentos sobre identidade e racismo, se debruçando sobre a trajetória pessoal. A obra virou fenômeno editorial, com mais de 300 000 exemplares vendidos, presença em escolas e clubes de leitura, e ganhou até sequência no ano passado, Na Nossa Pele: Continuando a Conversa, na qual ele relata com emoção a jornada de sua mãe, Célia Maria do Sacramento, empregada doméstica que morreu quando ele tinha apenas 20 anos. “Acho que tenho muito dela. Meu tipo de humor, os momentos que estou carente. Minha mãe era bem dengosa”, diz Lázaro.
Autor de variados estilos, ele escreveu de Você Não É Invisível, para o público jovem, a Cadernos de Rimas do João e Cadernos sem Rimas da Maria, ambos infantis e inspirados nos filhos. Escrever, afirma, é uma forma de ampliar a conversa que começa no palco ou na tela. Um objetivo é incentivar a formação de leitores e ajudar a abrir o acesso à cultura, especialmente entre a turma que raramente se vê representada nas histórias que consome. “É o que me alimenta e faz com que tenha forças para seguir. Ao longo dos anos, muita gente sucumbiu no meio do caminho, né?”, constata.
A trilha que levou Lázaro Ramos ao posto que hoje ocupa teve início em Salvador, em 1993, dentro do Bando de Teatro Olodum. Aos 15 anos, ele concorreu com mais de 200 candidatos e acabou conquistando uma das cinco vagas da oficina da companhia fundada por Márcio Meirelles. Chamou a atenção logo na seleção. “Quando alguém chegava perto para mandar ele sair, mudava de lugar. A gente percebeu que Lázaro queria muito ficar”, lembra o diretor.
Começou fazendo personagens pequenos até que, um dia, o protagonista de uma peça sobre Zumbi dos Palmares faltou. O jovem ator então assumiu a cena e nunca mais abandonou o holofote. “Ele foi tão bem que acabou ficando com o papel”, completa Meirelles. Pouco depois já escrevia textos e dirigia um espetáculo infantil no Bando. A frenética fase que vive agora o faz ter vontade de regressar às origens. O ator conta que a família já chegou a olhar apartamentos e escolas para os filhos em solo baiano. Quer estar perto do pai, Ivan, que está com 82 anos, do sobrinho e do afilhado. “De seis em seis meses esse plano volta. Vamos ver que horas ele se concretiza”, fala Lázaro. Haja fôlego.
Visto de Perto
Colegas de trabalho contam como é dividir a cena com o ator
Fernanda Montenegro, atriz
“A gente se olha como parentes mesmo. Se fala, se abraça, se cultua há mais de trinta anos, desde que ele tinha 18 anos. Vai tentar explicar o mistério que é a vida. Nós nos encontramos e pertencemos a uma mesma célula.”
Duca Rachid, autora da novela A Nobreza do Amor
“Ele está impecável como Jendal. É um vilão que sabe que, fora de Batanga, não terá poder nem dinheiro porque é um homem de pele preta, e isso o humaniza. Lázaro imprime muitas camadas nesse personagem.”
Duda Santos, atriz
“Admiro de muito tempo, é inacreditável o que ele faz. Uma honra poder aprender e trocar com ele em A Nobreza do Amor. Uma pessoa muito generosa e com uma responsabilidade admirável com o ofício.”
Bruna Marquezine, atriz
“Queria ter tido mais oportunidades de contracenar com ele em Velhos Bandidos. Aprendo muito na presença dele também, na troca. Eu tinha que me controlar para estar presente com ele em cena, porque para mim era muito fácil só ficar admirando. É um dos maiores atores da minha geração.”
Vladimir Brichta, ator
“Lazinho é uma das pessoas mais adoráveis de se estar, tanto em cena como fora, um dos poucos que me desconcentram, inclusive, em cena. Fiz uma peça com ele em que eu ria praticamente todos os dias. É extremamente agradável, muito bom ator, um cara muito seguro do trabalho dele e um grande amigo.”
Lucas Paraizo, autor da série Os Outros
“Mistura profissionalismo, rigor e doçura ao mesmo tempo. Trouxe uma humanidade absurda para a série, e tornou o personagem mais complexo. Lázaro é um artista muito completo, é ator, diretor e roteirista, e deixa uma marca em cada trabalho.”
ELE disse, ELA disse
Será que Lázaro e Taís conhecem as preferências um do outro?
LÁZARO
Prato Preferido
Camarão. O dela? Feijoada.
Viagem dos sonhos
Grécia. A dela? Também Grécia.
Filme Preferido
Esse ela não vai saber: Nós que Nos Amávamos Tanto, de Ettore Scola. E o dela? Chuto Filhas do Vento.
Música
Ain’t Got No, I Got Life, na voz de Nina Simone. A dela? Linha do Equador, do Djavan.
Artista ou Banda
Gilberto Gil. A dela? Djavan, claro.
Sobremesa
Quase não como — sou intolerante à caseína. Às vezes, bananada. A dela? Bolo.
Cor
Preto. A dela? Cru.
Programa de TV
Ela vai dizer Os Simpsons. E o dela? Talvez Largados e Pelados.
Carnaval ou são João?
Ela é Carnaval. Eu sou São João — Carnaval com comida.
TAÍS
Prato Preferido
Comida tailandesa — para mim e para ele.
Viagem dos sonhos
Grécia, sem discussão.
Filme Preferido
Feliz Natal, de Selton Mello — e a trilogia Antes do Amanhecer. E o dele? Não faço ideia
Música
Impossível escolher: Djavan, Caetano, Gil… A dele? I Got Life, da Nina Simone.
Artista ou Banda
Djavan. E o dele? Gil, Caetano…
Sobremesa
Qualquer coisa com chocolate — pode ser bolo. A dele? Bananada ou nada. Ele é péssimo de doce.
Cor
Branco — adoro roupa branca. E a dele? Não sei… Melhor assim, fica misterioso. Talvez verde.
Programa de TV
A Dança dos Famosos ou Casamento às Cegas. E o dele? Saturday Night Live ou Os Simpsons.
Carnaval ou são João?
Eu sou Carnaval e ele é São João. Que baiano não é louco por São João?





