“O silêncio da casa é desafiador”, conta humorista que perdeu o filho

Vinicius Antunes, o Cacofonias, perdeu o filho, após o menino e a mãe, Emanoelle Farias, sofrerem um acidente de trânsito em uma bicicleta elétrica na Tijuca

Por Pedro Coutinho Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 10 abr 2026, 11h48 •
cacofonias e filho credito reproducao instagram cacofonias 444.jpg
“Quem perde esposa vira viúvo; quem perde os pais é órfão; mas quem perde o filho, é o quê? Esse posto é inominável”, diz Vinicius Antunes (instagram @cacofonias/Divulgação)
Continua após publicidade
  • “Meu pai, já falecido, dizia que Pedaço de Mim, do Chico Buarque, é a música mais triste de todas, principalmente o verso ‘a saudade é arrumar o quarto do filho que já morreu’. Nunca imaginei que viveria essa cena.

    Eu e minha atual esposa, Ana, nos mudamos há pouquíssimo tempo para este apartamento. E está aí uma ironia do destino. Procuramos um imóvel de dois quartos porque o Chico estava crescendo e achávamos importante que ele tivesse um espaço só dele.

    De forma quase misteriosa, encontramos este apartamento exatamente do tamanho que pensamos. Viemos para cá por causa do quarto dele, que mal terminamos de montar. Ser pai era o meu grande sonho e agora fico tentando descobrir quem eu sou sem o Chico.

    Nesse momento, então, me deparei com duas opções: projetar o meu futuro doloroso ou olhar para trás e celebrar o que passamos juntos. Decidi recordar. Entro no quarto dele e ainda sinto o seu cheiro. Pego um brinquedo, revejo fotos de viagens, dos jogos do Vasco no estádio… Resolvi me apegar à nossa história.

    O consolo aparece de formas inimagináveis. Um amigo, o cartunista Allan Sieber, definiu meu filho numa arte que diz ‘Chico foi um menino muito feliz‘. Jamais pensei que ele seria lembrado dessa forma.

    Continua após a publicidade

    Meu filho tinha diabetes, o que causava dificuldade de estar na escola e de fazer atividades físicas. Os colegas podiam lanchar na hora do recreio e ele tinha que esperar para aplicar insulina. Eram mais de 1 000 injeções por ano e, mesmo tendo passado por tudo isso, o que mais chamava atenção é que ele era realmente uma criança feliz.

    Uma amiga me apontou algo curioso: toda criança é referida como ‘filha de fulanoí. Ele era só Chico, e eu rapidamente virei o pai do Chico. Eu e Ana costumávamos conversar e fantasiar sobre quem o Chico seria quando crescesse. Ele completaria 10 anos em maio e, para mim, sempre terá essa idade.

    Outra amiga me fez refletir sobre como essa perda não tem nome. Quem perde esposa vira viúvo; quem perde os pais é órfão; mas quem perde o filho, é o quê? Esse posto é inominável.

    Conversando com pessoas que passaram pela mesma tragédia, ninguém falou que eu vou ficar bem, mas que vou aprender a conviver com a dor.

    Às vezes, dá vontade de simular o luto que as pessoas esperam de mim. Gritar, me jogar no chão… Afinal, é a maior dor do mundo. Um pai não pode viver sem o filho, mas busco ressignificar a tristeza com o poder da palavra e da memória.

    Continua após a publicidade

    O luto não precisa ser só preto e branco. As lembranças estão vivas e eu vou guardá-las. Interagir com as pessoas é uma forma de ocupar a minha cabeça, o que pode ser visto como um ato de coragem e também uma grande covardia, por não querer ficar sozinho em momento algum.

    Deparar-se com o silêncio da casa é desafiador.

    Acompanho os comentários nas redes sociais e vejo gente me xingando, elogiando ou apontando o erro por andar de bicicleta elétrica ao lado dos carros. Entendo que o Rio seja perigoso, mas esse discurso, de um realismo brutal, privilegia a selvageria.

    Os moradores da Zona Norte não têm segurança e mobilidade porque a vida deles não tem a menor importância. É duro dizer isso, mas elas são vistas como facilmente substituíveis, não são humanizadas.

    Continua após a publicidade

    A conscientização é para não usar o celular na rua e evitar roubo, não pedalar para não ser atropelado… Resolver o problema não é uma opção e cada um que se proteja. Esse é o retrato da Zona Norte da cidade.

    Walter Benjamin (1892-1940) teorizou sobre o marxismo da melancolia. Às vezes, a apatia toma conta, mas em outras é a raiva que movimenta as engrenagens. A indignação se torna tão forte que não é possível se deixar abater. Esse é o sentimento que me invade.

    A morte do Chico não pode ter sido em vão. Não posso deixar o meu filho morrer para o próximo sentido ser a minha própria morte, se eu posso tentar impedir que outras pessoas morram.” 

    *Em depoimento a Pedro Coutinho

    Publicidade

    Essa é uma matéria fechada para assinantes.
    Se você já é assinante clique aqui para ter acesso a esse e outros conteúdos de jornalismo de qualidade.

    Impressa + Digital no App
    Impressa + Digital
    Impressa + Digital no App

    Informação de qualidade e confiável, a apenas um clique.

    Assinando Veja você recebe semanalmente Veja Rio* e tem acesso ilimitado ao site e às edições digitais nos aplicativos de Veja, Veja SP, Veja Rio, Veja Saúde, Claudia, Superinteressante, Quatro Rodas, Você SA e Você RH.
    *Assinantes da cidade do RJ

    A partir de R$ 39,99/mês