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Fã do imponderável, Fernando Young apresenta sua primeira exposição autoral

Vencedor do Grammy Latino de melhor capa, o fotógrafo carioca montou um estúdio em pleno cerrado para registrar as famosas cavalhadas

Por Carolina Isabel Novaes
6 mar 2026, 07h14 • Atualizado em 6 mar 2026, 10h10
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 (Daniel Behr/Divulgação)
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  • Fernando Young se lembra com clareza do dia em que fez um retrato de Preta Gil (1974-2025) para uma entrevista da Playboy. “Ela estava evidentemente sem paciência. Anos depois a encontrei e perguntei sobre aquela sessão. Era mau humor, porque na verdade queria posar nua para a capa da revista”, conta o fotógrafo carioca de 43 anos, acostumado a registrar artistas como Maria Bethânia, Fernanda Torres, Debora Bloch e Bruna Marquezine.

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    Requisitado: ele costuma clicar campanhas publicitárias e capas de disco, retratando artistas como Gilberto Gil. (Fernando Young/Divulgação)

    “Fotografar pessoas depende de muitas variáveis, é preciso estabelecer uma conexão. Sou devoto e refém do imponderável”, resume.

    Indicado ao lado de Lula Cerri ao prêmio Platino 2026 de cinema pela direção de fotografia da série Ângela Diniz Assassinada e Condenada, da HBO Max, e premiado no Grammy Latino pela arte da capa do disco Abraçaço, de Caetano Veloso, ele se divide entre sets de filmagem e estúdios há quase trinta anos.

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    Premiado: Fernando Young ganhou o Grammy Latino pela arte da capa do disco Abraçaço, de Caetano Veloso. (Fernando Young/Divulgação)
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    O prestígio é tanto que Young demorou duas décadas para conseguir se dedicar ao seu primeiro projeto autoral: Curucucu Divino, série de fotografias da Festa das Cavalhadas de Pirenópolis, em Goiás. A exposição acaba de ser inaugurada na Galeria da Gávea.

    A ideia surgiu em 2004, quando dividia apartamento com o colega Daniel Behr, que, a convite de Walter Firmo, havia fotografado as cavalhadas. Young convivia com aquelas imagens em casa e conhecer a festa virou uma meta, que só realizou em 2024.

    Voltou no ano seguinte e foi preciso acionar “a comunidade do cinema” em Brasília, o prefeito de Pirenópolis e o Iphan para montar um estúdio ao lado do cavalhódromo, sob uma lona de 70 quilos em que mascarados, cavalos e cavaleiros pudessem posar para suas lentes.

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    Requisitado: ele costuma clicar campanhas publicitárias e capas de disco, retratando artistas como Juliana Paes. (Fernando Young/Divulgação)
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    Ele bolou uma engenhoca com roldanas para controlar a luz na tenda e, ao longo de três dias, fez mais de trezentos retratos. “Cresci entre o Jardim Botânico e Paraty. Com 9, 10 anos chegava à cidadezinha e dizia ‘tchauí para a minha mãe, ia andar descalço. Meu pai morreu quando eu tinha 5 anos, e umas das poucas fotos que tenho dele é ele em Paraty, com a bandeira da Festa do Divino.

    Há uma certa semelhança entre essa imagem e o projeto”, reflete o fotógrafo, neto do sertanista e poeta da Academia Paulista de Letras Francisco “Chicão” Brasileiro (1906-1986), explorador da Serra do Roncador.

    Numa era em que as pessoas são bombardeadas por imagens nas timelines das redes, Young vê beleza na fotografia que demanda calma e entrega. “É um privilégio poder olhar no olho”, observa.

    Casado com a bicampeã do circuito mundial de vôlei de praia Carol Solberg, 38, é pai de José, 13, e Salvador, 9. O caçula já se interessa pela câmera.

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    Em família: Fernando Young é casado com a atleta olímpica Carol Solberg, com quem tem dois filhos, José e Salvador (Instagram @carolsolberg/Divulgação)

    “Ele pendura no pescoço, é muito fofo. Perguntei se ele queria que eu explicasse sobre o obturador e o diafragma, mas a resposta foi ‘ainda não”, diverte-se o fotógrafo. “O que mais me encanta no Fernando é ver o amor que ele manifesta pelas pessoas que caminham com ele”, derrama-se Carol.

    “Ele é do tipo que faz acontecer. E olha que tem muitas ideias mirabolantes”, acrescenta a esposa. “Não é qualquer um que levanta uma lona no meio de um estacionamento, falando com políticos, artesãos, mobilizando a cidade”, concorda Ana Stewart, fotógrafa e uma das fundadoras da Galeria da Gávea.

    O desafio, agora, é encontrar tempo para o próximo projeto autoral. Convites se acumulam, ideias fervilham e, se depender da obstinação de quem já ergueu uma lona gigante no meio do cerrado, a próxima imagem é só questão de foco. 

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    Sagrado e profano

    A primeira empreitada autoral do artista

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    Sagrado e profano: a primeira empreitada autoral de Fernando Young. (Fernando Young/Divulgação)

    Sob curadoria de Victor Gorgulho, a mostra Curucucu Divino traz 47 dos cerca de trezentos registros de Fernando Young durante as cavalhadas, parte da tradicional Festa do Divino Espírito Santo que acontece cinquenta dias depois da Páscoa e leva mais de 1 000 pessoas — fantasiadas, mascaradas e a cavalo — às ruas de Pirenópolis, Goiás.

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    A festa popular é uma representação de uma batalha medieval entre cavaleiros cristãos e mouros, e tem origem na Península Ibérica, um dos motivos que fizeram o artista se interessar pelo tema: ele estudou fotografia por dois anos em Tarifa, na Andaluzia, Espanha, onde testemunhou festejos do gênero.

    O estilo dos retratos, que combinam o céu do Cerrado aos personagens, sem elementos da arquitetura e geografia, foram um incentivo do cineasta Walter Salles.

    Galeria da Gávea. Rua Marquês de São Vicente 432, Gávea. Seg. a sex., 11h/19h. Grátis. Até 8 de maio

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