Fernanda Abreu: “Ser sensual tem a ver com postura”
Celebrando os 30 anos do disco Da Lata, Fernanda Abreu revisita o verão que marcou o Rio e fala sobre criação coletiva, feminismo e presença em cena
Até hoje, em todos os eventos que participa, Fernanda Abreu é apresentada como a “garota carioca, suingue sangue bom”. Aos 64 anos, mantém a mesma vivacidade de três décadas atrás, quando surgiu com o álbum Da Lata, do qual faz parte a inesquecível canção Veneno da Lata. Desde o final do ano passado, a cantora celebra o aniversário da obra que mudou a música dançante brasileira: lançou livro, disco em vinil e um documentário, que será exibido no MAM, na terça (27), dentro da programação do festival CasaBloco, com direito a roda de conversa junto a Lenine e João Avelleira.
+ Para receber VEJA Rio em casa, clique aqui
Ex-integrante da Blitz, Fernanda construiu uma carreira solo marcada por pioneirismos ao fundir gêneros como pop, funk, samba e eletrônico, dando origem a uma sonoridade que é a cara do Rio. Ainda este ano, fará a estreia do show comemorativo, em abril, no Vivo Rio, junto com a banda inglesa Soul II Soul. Em entrevista para VEJA RIO, de sua casa no Horto, onde morou a maior parte da vida, ela fala sobre as barreiras que precisou ultrapassar e relembra o histórico verão de 1987 — quando 22 toneladas de maconha apareceram em latas pelo litoral carioca ao serem desovadas pela tripulação do navio Solana Star para evitar uma apreensão da Polícia Federal.
De que forma o álbum Da Lata foi disruptivo? Iniciei a trajetória solo com uma proposta diferente do que estava sendo feito nos anos 1980. Meus dois primeiros trabalhos, SLA Radical Dance Disco Club e Sla 2 – Be Sample, exploraram o uso de samples, sempre apontando para diversas vertentes da música dançante. Em Da Lata, a ideia foi aprofundar a mistura de samba e funk com arranjos cuidadosos, buscando algo que não ficasse datado.
Sua gravadora comprou a ideia de imediato? O presidente chegou a dizer que o disco não daria em nada. Segundo ele, eu abri o mercado para a dance music com o primeiro álbum, e estava jogando tudo fora ao me converter para o samba. Expliquei as referências, e ele decidiu me apresentar a um selo francês, pois achou que só faria sucesso lá fora.
Sentiu resistência por trabalhar com funk? O gênero era massacrado e associado à violência, reflexo de um racismo estrutural ainda pouco debatido nos anos 1990. A mídia e a elite não separavam cultura de criminalidade. Se nos anos 1960 as favelas eram reduto dos sambistas, considerados vadios, quando o armamento começou a subir, todo mundo virou bandido. Mesmo assim, o funk estava por toda parte e era um movimento autêntico, potente e impossível de ignorar.
De onde veio a ideia de comemorar esses trinta anos do disco? Um amigo de longa data, que acompanhou momentos da minha carreira como videomaker, me ligou dizendo que descobriu mais de quarenta horas de gravação ó em estúdio, making of de clipes e ensaios fotográficos, até o show de estreia no Canecão. São imagens espontâneas, ninguém parava para dar entrevista com uma lapela ou luz especial. Ouvi o disco depois de muito tempo, percebi que envelheceu bem e bolei todo o projeto.
Tem bastante imagem de bastidores? No filme, você vê como as coisas eram criadas. Chamava o Lenine e dizia: “quero que você toque violão numa música que compus com o Pedro Luís”. Ele chegava, ouvia e fazia, com a gravadora pagando todo o processo de experimentação. É uma obra que mostra a importância do coletivo e, principalmente, da presença. Hoje, estamos compondo de uma forma mais fragmentada, pelo WhatsApp — uma herança da pandemia, quando todo mundo viveu nas telas. O álbum ainda consolidou uma imagem de liberdade do corpo feminino.
Tinha clareza disso na época? Foi uma surpresa. Fui entrevistada por uma francesa para o Le Monde, que comentou sobre a força do feminismo no Brasil. Ao questionar, ela disse que vestir as latas no peito tirava a mulher de trás do fogão e a colocava no centro do palco. Na hora, disse que ia adotar esse discurso em todas as minhas entrevistas (risos). É visível no documentário como havia poucas mulheres nesse mercado.
Acha que isso melhorou de trinta anos para cá? Muito. Mas a impressão é que, quanto mais avançamos, mais a reação é violenta. Temos mais letramento e estamos nos conscientizando num país machista, mas nunca o feminicídio foi tão grande. Eu mesma me pego reproduzindo alguns comportamentos com as minhas flhas, que sempre me ensinam muito. Uma vez me preocupei porque elas iam sair de biquíni para um bloco e elas devolveram: “E você que já saiu pelada na capa de um disco?”
Uma questão contemporânea com a qual você não precisa lidar é o etarismo… É bonitinho quando dizem que não pareço ter a minha idade. Entendo como elogio, mas explico que não tem nada demais ter 64 anos. É natural envelhecer. Na época da Blitz, todo mundo me chamava de sex symbol, vieram vários convites pra sair nua na Playboy, mas nunca aceitei, não queria esse papel. Ser sensual tem a ver com postura. Acordar todo dia de manhã e ainda achar o Rio fantástico, mesmo com esse calor, é o que traz a nossa beleza.
Já pensou em atualizar a sua música para “Rio 50 graus”? Quando saio na rua, ou recebo saudações vascaínas, ou gritam que preciso fazer logo uma nova versão. É impressionante, porque o resto da letra inteira é absolutamente atual. Ainda vivemos o purgatório da beleza e do caos, mas o aquecimento global conseguiu deixar esse trecho defasado.
Viveu o verão da lata, em 1987? Intensamente, mas não usava maconha na época. Como fiz balé a vida inteira, beber e fumar não combinava com aquela vida. Depois, passei a usar de forma social, numa festa, por exemplo. Nunca antes de um show. A minha grande droga é o palco.





